Segunda-feira, 25 de março de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 30 de novembro de 2004

O protagonista solitário

Francisco Petros*


O protagonista solitário


Em poucas semanas encerra-se o ano. Também será comemorado o início do terceiro ano do mandato do Presidente Lula. Afora as incertezas internacionais as quais têm sido amplamente comentadas neste espaço, há um fato novo muito relevante no cenário político e econômico do Brasil. Trata-se da nova postura do Presidente da República em relação à administração de seu governo.

Está claro que o Presidente tornou-se o principal protagonista político do governo. Explico: até agora, o Presidente compartilhava de maneira intensa as principais decisões políticas com seus “articuladores”, especialmente o Ministro José Dirceu da Casa Civil e Aldo Rebelo da Coordenação Política. Neste momento, o Presidente Lula opta por (1) uma estratégia de “governo de coalizão” com vários partidos políticos de diferentes cepas e (2) por um renovado e claro apoio à política econômica encabeçada pelo ocupante da Fazenda o Ministro Antônio Palocci. O príncipe nunca agiu tão solitariamente e com objetivos tão amplos.

Obviamente, o grande objetivo do Presidente é atrair o maior número de aliados políticos para o seu projeto de reeleição. A primeira tarefa de um mandatário é se manter no poder. Ao agregar novos aliados do PMDB e do PP, o Presidente quer afastar tais partidos dos possíveis concorrentes nas eleições presidenciais de 2005. Trata-se de um arranjo delicado, pois remexe no conceito original de sua administração que era a de “um governo partidário (vinculado ao PT) apoiado por outros partidos”. Ao se vincular mais fortemente com os novos aliados, o Governo Lula terá não somente de repartir a gestão do governo, mas também deverá dividir a concepção das políticas deste. O campo de negociação política parece amplo de vez que o PMDB pode ocupar áreas mais estratégicas do governo. Entretanto, o presidente quer restringir a influência da coalizão mais ampla a certas áreas. A exceção mais notória é a política econômica que parece isolada das negociações políticas. É interessante notar que a convicção do Presidente em relação à política econômica cresce no exato momento em que as críticas se seu próprio partido florescem em função da derrota de importantes candidatos petistas nas eleições municipais de outubro.

O novo “governo de coalizão” desenhado pelo Presidente Lula o afasta, possivelmente de forma definitiva, da utopia de que o Partido dos Trabalhadores (PT) poderia ser o gestor de uma grande transformação política e econômica do país. O mandato que Lula recebeu certamente foi revestido desta “utopia transformadora”, mesmo que o temor de uma “ruptura” tivesse sido superado ao longo da campanha presidencial de 2002 e, principalmente, no início de seu mandato em 2003. Com efeito: Lula está ainda mais parecido com o seu antecessor imediato. Haverá quem pergunte o porquê votou em Lula.

É razoável que um Presidente da República seja diferente do candidato de outrora. Entretanto, não deixa de ser impressionante a distância entre o candidato Lula e o Presidente Lula. Não quero fazer juízo se o “outro Lula” seria melhor ou pior, pois se trata de um exercício inútil. Apenas registro que as expectativas em relação ao governo atual são absolutamente diferentes de sua realização efetiva. Será que chegamos ao “estado da arte” em matéria de política e economia?

No campo econômico já está claro que o PT jamais teve uma estratégia e alternativas próprias para que o país começasse a apresentar resultados convincentes que resultem em crescimento sustentado nos próximos anos. A política governamental persiste na mesma trajetória da administração anterior: sem reformas estruturais e a serviço da lógica financista de gerar superávits fiscais suficientes para pagar os juros da imensa dívida do setor público. Foi o cenário externo extremamente favorável aos países emergentes nos últimos dois anos que mais contribuiu para a melhora do desempenho da economia brasileira. É dever primário que o governo mantenha a solvência do setor público (externa e internamente) e a inflação sob rigoroso controle. Entretanto, um projeto de governo precisa conter os elementos suficientes para a transformação econômica do país, a superação da mazela do desemprego, a revitalização do setor público, a busca incessante pela justiça social e assim por diante.

O príncipe mandatário da Nação está a lapidar um projeto para se manter no poder. Infelizmente, não se vê um projeto de desenvolvimento econômico e social sustentado para o país. Trata-se de uma tarefa destinada a um estadista.

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petros@migalhas.com.br


* Economista e pós-graduado em Finanças. Foi Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) da APIMEC – Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (São Paulo).







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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.