Quinta-feira, 22 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Risco cambial global

Francisco Petros*


Risco cambial global


Nos EUA, nove dentre dez analistas e estrategistas do mercado financeiro internacional estão utilizando a mesma frase para iniciar suas apresentações e análises sobre a relação do dólar norte-americano com as outras principais moedas internacionais. “A moeda (o dólar) é nossa, mas o problema é de vocês”, dizem wall streeters e experts ao se referirem aos riscos da desvalorização da moeda dos EUA em relação a quase todas as moedas mundiais.

Mesmo se retirarmos o panteísmo destas pregações dos profissionais do mercado financeiro internacional, verifica-se que este tipo de linguagem reflete com precisão o que estão a fazer os gestores da política econômica dos EUA. Diante de um déficit fiscal próximo a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) e um déficit externo de mesma dimensão, a patota econômica de George W. Bush quer um dólar mais fraco para tentar reduzir o imenso déficit externo do país. Um dólar mais fraco aumenta a competitividade das exportações e reduz a propensão às importações. Aumento de exportações significa aumento de emprego para os americanos e perda de emprego para os parceiros comerciais dos EUA. Obviamente, a equipe econômica de Bush não está disposta a abdicar de crescer (na linguagem dos economistas: reduzir a absorção interna) para fazer o seu ajuste externo. Para que o leitor tenha a noção de quanto é o déficit norte-americano é bom ter em mente que este é equivalente ao PIB brasileiro (ao redor de US$ 600 bilhões)! Se os EUA não detivessem o monopólio de emissão da principal moeda internacional, o país já estaria de joelhos a pedir apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI). Tal qual o nosso país fez tantas vezes nas últimas décadas.

No que se refere ao funcionamento das economias nenhuma variável é completamente neutra. Com efeito, é preciso ter em mente que esta estratégia dos EUA tem riscos significativos. Do lado interno dos EUA, o principal risco é um aumento significativo da inflação. O “mecanismo de transmissão da inflação” é o maior custo das importações. Em que pese o fato de os EUA praticarem uma política comercial protecionista em diversos segmentos econômicos, especialmente na área agrícola, o país é um dos mais abertos à entrada de produtos estrangeiros os quais são consumidos por vastas parcelas da população. Inclusive produtos básicos, cujo caso mais notório é o petróleo. Ora, uma desvalorização significativa de sua moeda implica em custos maiores de importação para tais produtos o que pode contaminar o seu sistema de preços (leia-se, aumentar a inflação). De outro lado, significa que os consumidores destes produtos importados perderão poder de compra e consumirão menos. Uma subida da inflação pode requerer uma política monetária mais apertada, ou seja, o Federal Reserve terá de elevar os juros básicos (e reduzir a demanda agregada) para conter a generalização do aumento dos preços domésticos. Portanto, do lado da renda esta estratégia de “permitir” a desvalorização do dólar pode ser nefasta.

Do lado financeiro, os efeitos dos movimentos do dólar em relação às outras moedas são ainda mais imprevisíveis. O déficit externo dos EUA é financiado principalmente pelos europeus e pelos países asiáticos, especialmente a China e o Japão. Há que se considerar que países pobres como a Índia também ocupam lugar de destaque dentre aqueles que financiam o consumo norte-americano via aquisição de títulos do Tesouro, bem como através de investimentos privados. Variações significativas do dólar significam prejuízos para estes investimentos os quais são contabilizados na moeda de cada país. Para evitar prejuízos é possível que tais países exijam taxas de juros crescentes para financiar o déficit norte-americano o que é ruim para a atividade econômica dos EUA e, por conseguinte, do mundo. Tem-se que ter em mente que o sistema financeiro e, com destaque, o sistema cambial é “não-cooperativo”, ou seja, ninguém está disposto em arcar com prejuízos domésticos para financiar terceiros. Da mesma forma, é difícil imaginar que o governo chinês ou os europeus assistam passivamente o aumento do desemprego em suas respectivas áreas geo-econômicas sem alterar a sua política econômica com o objetivo de evitar uma maior taxa de desemprego. Adicionalmente, devemos lembrar que a redução do nível de aquisições de ativos norte-americanos (títulos, ações, imóveis, etc.) pode significar ajustes bruscos nos preços destes ativos o que pode aumentar o risco global. Há precedentes históricos que mostram que este risco é relevante. A famosa “segunda-feira negra” em outubro de 1987 quando a Bolsa de Nova Iorque caiu mais de 20% num único dia, ocorreu após um período de forte desvalorização do dólar. A história não se repete, mas não se pode deixar de lado a hipótese de “ruptura” em processos de ajustes cambiais.

Analistas, formadores de opinião e autoridades do mundo empresarial, financeiro e governamental têm feito a pregação de que o ajuste do dólar é inevitável e que este processo pode ser construído de forma suave. É possível que assim seja, pois os mecanismos de proteção do sistema econômico, especialmente os Bancos Centrais que formam uma espécie de “oligopólio” no mercado cambial, são muito mais fortes do que no passado. Entretanto, em matéria cambial a capacidade de previsão das reações dos agentes é relativamente pequena.

Por fim, devemos lembrar que a origem de toda esta inquietação tem relação direta com a irresponsável política fiscal de George W. Bush. O corte dos impostos e o excesso de gastos do setor público dos EUA, somados a frouxa política monetária dos últimos anos, produziram o déficit fiscal que é a contrapartida do imenso déficit externo. O paladino da “Guerra Contra o Terror” está a conspirar contra a tranqüilidade econômica do mundo. O Imperador pode não está nu. Vestido completamente também não está.
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petros@migalhas.com.br


* Economista e pós-graduado em Finanças. Foi Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) da APIMEC – Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (São Paulo).







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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.