Sexta-feira, 22 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 72


BC versus Fazenda : uma questão de fundo

A última desavença entre o ministério da Fazenda e o BC, agora a respeito dos efeitos de uma política fiscal "frouxa" que poderia levar a uma elevação da taxa básica de juros proximamente (tese do BC), não deve ser vista apenas como mais uma picuinha entes os dois órgãos, um dos quais oficialmente subordinado ao outro. Nem às constantes trocas de farpas entre Henrique Meirelles e Guido Mantega, que acabam sendo resolvidas intra-muros ou com o passar de mão na cabeça dos dois, uma clara disputa de comando da economia. Mas não é apenas uma questão pontual, como as queixas ao conservadorismo do BC na política de juros. Dessa vez é uma questão mais profunda e que envolve opções de política econômica. Trata-se de uma crítica do BC à forma como está sendo conduzida a política fiscal, à forma como o governo vem gastando. Seja para garantir a recuperação da atividade econômica, seja como incentivo eleitoral. Os reparos do BC bateram fundo. Não foi à toa a reação do secretário de política econômica do ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, por ordem do próprio ministro Mantega. Mantega também reagiu sem subterfúgios. Até prova em contrário, a opção por gastar e a forma como a expansão das despesas está se dando é decisão do presidente Lula e de sua ministra-chefe da Casa Civil. Portanto, não há que ser mudada. Definitivamente, passou a era dos superávits primários (economia para pagar juros) elevados. Talvez tenha passado até a do próprio superávit. Pelo menos até as urnas de outubro de 2010. Quem ficou em situação delicada foi o BC. Ou pelo menos uma parte de sua diretoria. E seu presidente, Henrique Meirelles.

Debandada ?

Já circulava em Brasília a informação de que o diretor de política econômica do BC, Mario Mesquita, estava preparando sua saída da instituição até dezembro. Também estariam com as malas prontas outros dois diretores vindos do sistema financeiro privado : Mario Toros e Antonio Gustavo do Vale. As divergências com a turma do ministro Mantega podem apressar as decisões. Principalmente a de Mesquita, pivô das discussões abertas sobre a política fiscal, que na sexta-feira foi alvo de uma nota pesada do sindicato dos servidores do BC.

Prestígio

O secretário Nelson Barbosa, da Fazenda, escalado por Mantega para responder a Mesquita, é uma estrela em ascensão na burocracia econômica. E queridinho da ministra Dilma.

Finanças de padaria de periferia

Há algumas semanas o secretário do Tesouro informou que a entrega de novos recursos ao BNDES, para ampliar sua capacidade de financiamento, contribuiu para um aumento de R$ 106 bi na dívida pública. Esta dívida é remunerada pela Selic, hoje em 8,75%. Para evitar que apareçam números vermelhos na conta do governo, o ministério da Fazenda tem utilizado alguns expedientes – transferir pagamentos de negócios já realizados, apropriação de depósitos judiciais que um dia terão de ser resolvidos... e o aumento do pagamento de dividendos por parte de empresas estatais ao Tesouro. Somente de janeiro a agosto deste ano a contribuição das estatais foi de R$ 18,2 bilhões, o dobro do mesmo período do ano passado. Somente o BNDES entrou com R$ 4 bilhões neste bolo. Traduzindo : o BNDES entrega ao Tesouro dinheiro que não tem nenhum custo para ele e depois o governo vai ao mercado pagar juros de 8,75% para capitalizar o banco. Alguém andou faltando a algumas aulas básica de introdução à economia.

Jogo de risco

O governo está apostando que, depois das eleições, com a vitória de sua candidata e a recuperação da economia, todo e qualquer desvio será naturalmente corrigido. A vitória olímpica aumentou ainda mais a certeza nesses poderes quase divinos de Brasília.

Um país de contrastes

Duas notícias que estavam em "O Globo" de sábado :

1. "O governo já comemora o resultado da economia no terceiro trimestre de 2009. Projeções preliminares feitas pela equipe econômica que, entre julho e setembro, o PIB terá crescimento entre 2% e 2,5% em relação ao segundo trimestre."

2. "O desligamento voluntário de hospitais privados do SUS reduziu a oferta de leitos públicos para internação no país : de 2007 a 2009, 3.129 foram fechados. (...) Insatisfeitos com a tabela de pagamentos aos credenciados, 1.082 hospitais particulares se desvincularam do sistema em uma década. O reflexo foi imediato no número de atendimentos pelo SUS na rede privada : uma queda de 3,27 milhões para 1,75 milhões, de 1998 a 2007."

Pode-se chamar a isto de crescimento sustentável, saudável ?

Radar "NA REAL"

2/10/9

TENDÊNCIA

SEGMENTO

Cotação

Curto prazo

Médio Prazo

Juros ¹

- Pré-fixados

NA

estável/alta

alta

- Pós-Fixados

NA

estável

estável/alta

Câmbio ²

- EURO

1,4705

estável/alta

alta

- REAL

1,7902

estável/baixa

alta

Mercado Acionário

- Ibovespa

60.355,73

estável/queda

estável/alta

- S&P 500

1.025,21

estável/queda

alta

- NASDAQ

2.048,11

estável/queda

alta

(1) – Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)
(2) – Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

Os desafios olímpicos

Não há como não aplaudir, apesar de todos os senões que podem ser apontados, o esforço público e privado, mais ainda o primeiro, para trazer a Olimpíada de 2016 para o RJ. Mas tantas devoções e lágrimas só serão justificadas de fato se, ao fim e ao cabo, as promessas feitas ao COI forem integralmente cumpridas e a velha capital voltar a ser o que foi até meados, fins dos anos 1960. Urbanamente remodelada, livre da miséria, da sujeira e da violência que a assolam. Aí sim os cariocas e todos os brasileiros terão conquistado verdadeiramente uma medalha de ouro, independentemente das que nossos atletas vierem a conquistar. Caso contrário, tudo o que viu até agora e se verá pelo menos até outubro do ano que vem, não terá sido mais do que um bom expediente eleitoral.

De doer de rir

Especialistas em planejamento, em urbanismo e em construção estão, como diria Eça de Queirós, tendo "frouxos de riso" com as previsões preliminares de que as obras necessárias para fazer um "Rio" até a Olimpíada vão custar pouco menos de R$ 30 bilhões. Ainda mais agora que o presidente Lula anunciou que até lá todas as favelas cariocas terão se transformado em bairros civilizados. A desastrosa operação Pan custou quase cinco vezes mais do que foi esforçada. E com dezenas de contestações do TCU.

Negócios educacionais

Irrepreensível o trabalho dos repórteres Renata Cafardo e Sérgio Pompeu do "Estadão" no caso do vazamento das provas do Enem. Jornalismo de responsabilidade. Há algo mais a olhar, porém. As investigações oficiais encaminham-se para a conclusão de uma delinquência civil, de um grupelho tentando ganhar dinheiro fácil. É possível. Não devemos nos esquecer, contudo, que pode ter havido algo mais importante. Por que não pensar numa tentativa de desmoralizar o Enem e jogar para um futuro bem mais distante a tentativa de substituir o vestibular por algo mais consistente. O fim do vestibular como o conhecemos hoje põe em xeque um dos melhores "negócios" (sim, com a carga pejorativa que esta expressão carrega) da mercantilizada educação nacional. Segue a mesma linha e tem a mesma intenção das tentativas de desqualificar as avaliações que o ministério da Educação aplica nas escolas de ensino superior.

Lula continua "nomeando"

Teve o dedo do presidente Lula – e somente o dele – na decisão, de última hora, do deputado Ciro Gomes de transferir seu título de eleitor para São Paulo. É uma pedra mexida por Lula para acuar o PSDB e principalmente o governador José Serra. E dar também um recadinho ao PMDB, que anda confiado demais quando se trata de discutir a sucessão presidencial. Como Ciro podia ser candidato à presidência da República sem se fixar eleitoralmente em São Paulo, conclui-se que sua candidatura à sucessão de Lula é tão "irrevogável" quanto a renúncia do senador Aloízio Mercadante à liderança do PT. O árbitro da "revogabilidade" é Lula. Assim :

1. Ciro poderá manter a candidatura se Lula o desejar, dependendo do desenrolar das pesquisas eleitorais, até mesmo como um plano B.

2. Ciro poderá ser escalado por Lula para brigar em SP, para espezinhar os tucanos (aliás, ele já disse que seu propósito é provocar Serra).

3. O deputado cearense com título em São Paulo poderá numa eventualidade compor a chapa situacionista como vice de Dilma.

Falta combinar

A estratégia, porém, tem alguns furos :

1. Não será fácil convencer o PT a abrir mão de comandar a chapa governista. Depois do que ele andou dizendo do PMDB, será difícil convencer o peemedebismo a apoiar Ciro. Se com Dilma já há resistências.

2. Parte do petismo paulista não vê com simpatia a importação de um candidato para SP, ainda mais de outro partido.

3. Será que o PMDB dará seus seis minutos eleitorais no rádio e na televisão para a coligação aliada sem ficar com a vice ?

Preço alto

Se o eleitor perceber que Ciro Gomes está ainda vacilando entre a Presidência, a vice, e o governo de SP, pode começar a fugir de seu nome nas listas dos institutos de pesquisa. E a partir do momento em que ele parar de crescer ou mesmo começar a cair nessas sondagens, seu cacife eleitoral vai diminuir naturalmente. Pode ficar sem nada – sem Presidência, sem vice, sem governo estadual. Como a Greta Garbo de uma peça famosa no Brasil, pode acabar em Irajá.

Sem reação

Enquanto Lula – não se sabe ainda se com genialidade política ou desastradamente – monta suas armações eleitorais, o PSB e seu candidatos continuam numa modorra só. Ou estão muito confiantes ou estão perdidos, perplexos. Mais para a segunda, parece.

Dilma Olímpica

A ministra Dilma, com uma camisa amarela alusiva à campanha carioca, comemorou a escolha do RJ para sediar a Olimpíada de 2016 no Copacabana Palace. Há alguns metros do hotel, um dos preferidos dos milionários do Brasil e estrangeiros, ocorria uma grande manifestação popular pela gloriosa escolha do Rio. Cada um em seu lugar.

Socialismo moreno

Do jornalista Carlos Brickman em sua coluna eletrônica a respeito do vírus "socialista" que, de repente passou a contaminar alguns empresários e celebridades de vários quilates: "Já dá para fazer convenção socialista no Terraço Daslu. Mas alguém poderia explicar aos socialites que socialismo é uma coisa e coluna social é outra". É como disse o senador cassado Joaquim Roriz, candidato ao governo do DF, ao explicar a troca do PMDB pelo PSC : "Ele tem social no nome e tudo o que eu quero é ser social".

O número vale muito

O motivo pelo qual muitos políticos, na área regional, relutam em abrir mão de um candidato próprio ao governo do Estado, em benefício de uma aliança no plano federal (como é o caso do PT com o PMDB, mas não apenas este) está no fato de que o número do partido cabeça de chave aparecerá muito mais nas peças de propaganda do que os coligados. E isso pode custar votos vitais para a eleição de deputados federais e estaduais.

Coluna de empregos

1. O número de candidatos dos partidos governistas às vagas na diretoria e nos conselhos da Petrosal já é de tal ordem que daria para formar a direção de pelo menos duas dúzias de empregos públicos.

2. O governo já decidiu que vai reativar a Telebrás para entregar a ela o comando do Programa Nacional de Banda Larga.

3. Depende apenas de uma votação no Senado a criação da Previc (Superintendência Nacional de Previdência Complementar). Ela terá diretoria colegiada e ao menos 14 cargos-chave sem concurso, fora o corpo de quase uma centena de técnicos.

Lavagem de dinheiro

O Senado anuncia que vai aperfeiçoar o projeto que legaliza os bingos e outras "cositas" mais, que tem entre seus maiores patrocinadores visíveis o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força. O único aperfeiçoamento possível para uma excrescência dessas é a lata de lixo. Mas como estamos em época eleitoral e os interessados no projeto são grandes "investidores" nesta área, pode-se esperar pelo pior.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.