Quinta-feira, 14 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 76

Sinais misturados

Nos últimos dias, o que vimos foi um conjunto enorme de dados divulgados que mostraram sinais de recuperação da economia mundial (p. ex., o PIB norte-americano do 3º trimestre do ano que cresceu 3,5% e o desempenho do setor manufatureiro em outubro) e, ao mesmo tempo, deixam dúvidas sobre a sustentação da atividade econômica nos próximos trimestres (p.ex., a fraca recuperação do emprego nos EUA, os fracos dados da indústria na Europa no mês de setembro). Esta conjunção de dados que provoca "confusão mental" é típica de períodos de transição, seja da recessão para o crescimento (o caso atual) ou vice-versa. A nossa análise é que o caminho da recuperação persiste muito mais sólido que o retrocesso. Todavia, este será um período de alteração mais brusca das expectativas. Não há razões objetivas neste momento para que mudemos a nossa opinião favorável à conjuntura de crescimento e nem a solidez dos diversos segmentos de mercado.

No Brasil a recuperação é vigorosa

Todos os sinais da economia brasileira desembocam num claro diagnóstico : a economia está crescendo num ritmo forte, sobretudo do consumo, e quem quiser apostar num crescimento de 6% em 2010 pode estar certo. O investimento lamentavelmente cresce num ritmo muito mais lento por duas razões básicas : o governo não é eficiente para executá-los e o setor privado ainda não tem total confiança na recuperação. O problema brasileiro é o acúmulo de problemas estruturais.

O grande risco : o sistema financeiro dos EUA

Não é apenas a quebra do CIT nos EUA que preocupa. O sistema financeiro dos EUA permanece frágil e com baixa capacidade de emprestar em função da debilidade da sua estrutura de capital e da ausência de confiança dos investidores nas instituições financeiras. Os resultados do 3º trimestre do ano até agora divulgados corroboram estes dois aspectos. Este é o ponto a ser acompanhado como principal fator de risco.

Na economia, adiando o inadiável

O ex-governador Leonel Brizola costumava usar uma expressão dos pagos gaúchos, quando queria indicar que alguém, alguma instituição, estava fugindo do fulcro da questão, tergiversando – estaria costeando o alambrado. Ou saltando de banda na malandra gíria carioca de um passado recente. É dessa forma que as autoridades econômicas brasileiras com o aval de Lula, naturalmente – Deus as livre, se for diferente ! – estão atacando os problemas que se lhe apresentam, depois da passagem mais aguda dos efeitos da quebra financeira mundial. O Real valorizado, que tudo indica veio para ficar nas atuais circunstâncias, ameaça as exportações e põe em risco o futuro de desindustrialização no país ? Além da taxação da entrada de capital externo, estuda-se o depósito em moeda estrangeira e outros tais. As contas públicas, puxadas pelas despesas de custeio da máquina administrativa, salários à frente, furam as metas de superávit primário ? Inventem-se artifícios contábeis e façam-se rezas e figas para que a arrecadação logo se recupere em ritmo alucinante. São meros paliativos para tentar empurrar o problema para quem vem depois. Uma "herança maldita" que está sendo minuciosamente preparada para quem sentar na cadeira presidencial em 2011. Não dá para salvar a indústria brasileira apenas com "câmbio". A chave se chama tornar a produção nacional mais competitiva, sem artificialismo – menos impostos, menos burocracia, melhor infraestrutura, crédito mais abundante e mais barato. E um dos primeiros passos é um governo menos oneroso, menos ávido de recursos da sociedade. Simples assim. Porém, como atacar esses pontos, que são delicados e que, para serem bem resolvidos, implicam contrariar poderosos interesses em um momento em que a prioridade á a urna de 2010 ? Daí as meias soluções que no futuro certamente virarão problemas enormes.

Radar "NA REAL"

Já alertamos os nossos leitores nas últimas colunas sobre a elevação da volatilidade nas próximas semanas. Estamos num período de transição, talvez longo (ao de um trimestre a frente) no qual o grau de inquietações sobre a recuperação da atividade econômica mundial. Todavia, é bom lembrar que estas inquietações se devem apenas em parte aos chamados fundamentos. Há que se considerar o fato de que os valores dos ativos tiveram enorme incremento nos últimos meses e há uma quantidade considerável de investidores querendo "realizar lucros". Isto gera uma pressão momentânea e expressiva sobre os fluxos e a relação entre a oferta e a demanda. Portanto, a vida dos investidores daqui para frente se tornará mais difícil. Todavia, em nossa opinião, a tendência estrutural dos diversos segmentos do mercado financeiro é favorável. A exceção são as apostas relacionadas com a taxa básica de juros do Brasil. Esta vai subir. Se não subir, a inflação sobe.

30/10/9

TENDÊNCIA

SEGMENTO

Cotação

Curto prazo

Médio Prazo

Juros ¹

- Pré-fixados

NA

alta

alta

- Pós-Fixados

NA

estável

alta

Câmbio ²

- EURO

1,4823

estável/alta

alta

- REAL

1,7606

estável/baixa

alta

Mercado Acionário

- Ibovespa

61.545,50

alta/estável

alta

- S&P 500

1.036,19

alta/estável

alta

- NASDAQ

2.045,11

alta/estável

alta

(1) – Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)
(2) – Em relação ao dólar norteamericano
NA – Não aplicável

Artifício contábil

Ninguém impôs ao governo - agora que somos até credores do FMI - qualquer meta de superávit primário, aquela economia que o setor público faz para pagar juros de sua dívida e evitar que ela aumente. Assim, ele cumpre se quiser ou não o que estabeleceu. Essa história de deduzir do cálculo do superávit as PPI, as PPPs, o "Minha Casa, Minha Vida", o PAC ou a despesas que seja é apenas conversa para disfarçar o inevitável : no fim das contas, no cofre do tesouro vai sobrar menos dinheiro para cobrir as obrigações financeiras do governo. E a dívida pública vai aumentar – foram mais de 8 pontos percentuais em relação ao PIB em um ano.

Congresso desmobilizado

Cabe ao Congresso fiscalizar e impor limites ao governo no que se refere ao orçamento. Além disso, caberia aos senhores parlamentares exigirem do executivo um "plano de saída" do atual estímulo fiscal dado pelo erário ao setor privado. Contudo, o Legislativo está sem força de atuação em função da dominação que o governo lhe impõe e devido a ausência de uma oposição atuante e com convicções.

Lições para políticos e marqueteiros

Extraído do livro "A conquista da atenção", de Richard P. Adler e Charles M. Firestone, editado no Brasil pela Nobel :

"Havia uma história de que, quando ele estava em campanha para a presidência, Adlai Stevenson [Foi governador do Illinois e candidato duas vezes a presidente dos Estados Unidos da América (1952 e 1956), derrotado em ambas por Dwight D. Eisenhower] fez um discurso para um público entusiasmado no Bennington College. Depois desse discurso, um aluno fascinado correu até ele e disse : ´Senador Stevenson, o senhor vai ter o voto de todos os norteamericanos que pensam !´ Stevenson, segundo a história, retrucou : ´Obrigado, mas não é suficiente. Preciso de uma maioria´."

Da série ´Não é eleitoral´ I

Em abril, o Conselho de Política Fazendária aprovou uma resolução autorizando os Estados a reduzir ou eliminar a cobrança de ICMS nas contas de assinatura de serviços de internet banda larga popular. Seis meses depois, em outubro, o governador José Serra assinou o decreto adotando a medida no Estado e anunciando o serviço por R$ 29,90. Levou o ato para a plateia do Futurecom, o maior evento de telecomunicações da América Latina, na presença de todos os poderosos executivos do setor. Ótimo. Porém é preciso atentar para alguns detalhes :

- a banda larga popular paulista começa com 200 kbps, quando o mínimo considerado oficialmente é 256 kbps, já considerada uma banda apenas "meio larga".
- a Telefónica, primeira a lançar este serviço, por coincidência, no mesmo dia da assinatura de Serra, está condicionando a entrega da banda larga popular à compra de uma linha fixa da operadora espanhola.

Não, não é o que o malicioso leitor está pensando.

Da série ´Não é eleitoral´ II

O Congresso acaba de aprovar uma proposta de iniciativa do governo, instituindo uma gratificação extra para os funcionários públicos. Por desempenho. Ótimo, é o prêmio ao desempenho, um reconhecimento ao trabalho, ao mérito. Porém, é preciso atentar para alguns detalhes :

- a gratificação será paga apenas uma vez, em 2010.
- serão beneficiados somente os funcionários do DNIT, aquela de cuida de estradas.
- a medida de desempenho só será válida para as obras do "PAC", aquele que é uma das vitrines da campanha eleitoral de 2010.

Não, não é o que o malicioso leitor está pensando.

O que é bom, nada

Feitas as contas, apenas no fim de semana, foram consumidas pela imprensa tradicional ou grande imprensa – jornais do Rio, São Paulo e Brasília e revistas semanais – algo como 200 mil palavras sobre a sucessão presidencial, focadas quase que exclusivamente em Dilma e Serra. Apenas o "Estadão" e a "Veja" gastaram bons pares de páginas para registrar a metamorfose física e de personalidade pela qual está passando, nas mãos de seus marqueteiros e consultores, a candidata preferida de Lula. Entre outras coisas, o novo produto a ser apresentado à praça, vai emular em tudo por tudo seu criador político e ressurgirá na condição de candidata "uai" com direito a sotaque mineiro e tudo isso. E, no entanto, em todo esse palavrório, não sobrou nenhuma mísera linha sobre os que os dois pensam a respeito dos grandes problemas nacionais, sobre seus programas de governo. Para se ter uma idéia do tamanho do desperdício de papel e "abobrinhas", o texto desta nota contém 165 palavras.

A oposição em seu labirinto

Os partidos de oposição, especialmente o PSDB, não estão dilacerados apenas por conta da indefinição de quem será o candidato à sucessão de Lula – se Serra ou Aécio – e como será a chapa presidencial. Estão apavorados porque não conseguem encontrar os temas e o tom para se contrapor à (até agora) estratégia eleitoral engendrada pelo presidente Lula. PSDB, DEM e PPS estão literalmente acuados.

É o que parece, sim

Não se deve apenas ao pouco cuidado de Lula e seu pouco compromisso com a "coerência" as contradições das assertivas do próprio a respeito da imprensa. Num mesmo dia em que ele diz aos catadores de papel em São Paulo que a imprensa brasileira não publica o que deve, provocando uma vaia nos jornalistas presentes ao evento, ele reafirma em um jornal da Venezuela sua fé na liberdade de imprensa. Uma coisa não elimina a outra e faz parte da estratégia do lulismo e do petismo em relação ao tema. No atacado, o presidente defende a liberdade de imprensa. E não poderia ser de outro modo. No varejo, ataca a "liberdade" da imprensa brasileira, porque não é a mesma "liberdade" que ele e seu partido defendem, sem o "direito" de fiscalizar o poder público, de publicar notícias que não são agradáveis ao governo. A divergência está no conceito de "liberdade de imprensa" que Lula quer definir ao seu modo. Não nos esqueçamos da tentativa de criar o Conselho Nacional de Jornalismo, as investidas na área do audiovisual, a criação da TV Brasil, pública no nome, mas na prática estatal. Quem duvida, não perde por esperar. Vem aí, em dezembro, a I Confecom - Conferência Nacional de Comunicações para a qual o governo, sindicatos e ONGs estão trabalhando com extraordinário empenho.

CPI do MST pode vingar

Sim, apesar da gritaria exterior do governo, a Comissão para investigar os "feitos" do MST pode funcionar com eficiência – ou seja, investigando mesmo e não apenas trabalhando pro forma. Mas apenas até certo limite, pois a base aliada tem a maioria de seus membros e pode direcioná-la como bem entender. Diz-se em Brasília que há uma malévola intenção oficial dar um susto no MST e em alguns de seus líderes. Primeiro para evitar que eles extrapolem demais, pelo menos publicamente e diante de câmeras de televisão, como no caso do laranjal de SP. E segundo para que seus líderes, como ainda o fez neste fim de semana prolongado João Pedro Stedile, deixem da fazer restrições a Dilma.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.