Sábado, 24 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

A crise de identidade

Francisco Petros*


A crise de identidade


Foi farto o material produzido na imprensa brasileira sobre os 25 anos de fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). Vastas foram as variadas reflexões sobre os 23 anos do exercício de um papel oposicionista e as comparações com o exercício efetivo do governo nestes dois últimos anos. Relata-se uma “crise de identidade” entre o projeto político nascido e exercido dentro da faixa ideológica da esquerda enquanto partido oposicionista e o cumprimento de um programa governista essencialmente de direita ou, para usar um eufemismo à moda dos articulistas, um programa conservador.

Proponho ao leitor que olhemos a questão por um outro ângulo a partir da seguinte questão: será que houve de facto uma “decisão vital ou estratégica” por parte do PT no governo que o tornou de direita ou conservador? Há elementos de convicção para tanto?

Coloco esta questão de vez que não é a primeira vez que se debate as convicções políticas de um partido que assume o poder e fatalmente reduz ou corrompe o seu projeto em função da realidade prática da gestão do Estado e do Governo. Felizmente ou infelizmente, a Política não é na prática exercida por imperativos incondicionais. Nenhum governante tem de fazer necessariamente algo prometido quando era praticante da oposição. Há preferências, oportunidades e possibilidades que mudam no tempo. E as convicções?

Governar é uma tarefa complexa e por esta razão que se torna aceitável analisarmos com olhar sensível e sincero o prometido e o ocorrido. Diante desta constatação, como avaliar um governo e um partido no poder?

Do meu ponto de vista o julgamento possível que se pode fazer de um governo qualquer diz respeito aquilo o quê é e o quê gostaria de ser. Presente e futuro e não passado e presente.

Vamos à primeira questão. O Governo do PT, liderado pelo Presidente Lula, durante a primeira metade do mandato, foi construído a partir de um profundo déficit de credibilidade perante os interesses organizados da sociedade, bem como uma delicada situação estrutural herdada do Governo FHC. No que tange aos interesses organizados, refiro-me ao sistema econômico, aos empresários, aos burocratas e, até mesmo, aos trabalhadores. Este déficit de credibilidade engendrou uma série de “tarefas pragmáticas” tais como um rigoroso programa anti-inflação, um ajuste fiscal baseado na obtenção de saldos primários e na recuperação do crédito externo por meio de concessões substantivas ao sistema financeiro internacional via Fundo Monetário Internacional (FMI). Forjou-se naquele momento um programa “possível” ao governo e “desejável” aos interesses estabelecidos. Neste sentido, não dá para imaginar que fosse possível um papel diametralmente diferente do governo do PT (Lula). Temos de admitir que fosse diferente a atitude do governo nos seus primeiros momentos seria o caos a partir da desconfiança (justa?) prévia existente.

Contudo, estas “tarefas pragmáticas”, ao invés de serem os primeiro passos de um processo reformista, tolheram os objetivos e preferências estratégicas do governo. O ponto de partida do governo passou a ser o seu próprio caminho para o futuro. Um trajeto sem destino minimamente claro e transparente de vez que foi traçado a partir do senso de que os interesses estabelecidos eram permanentes. Esqueceu-se a realidade do país. Não preciso me prolongar neste tema, mas a agenda é por demais conhecida e seus resultados trágicos quando avaliamos a disparidade de renda, a violência, o desemprego, o subemprego, a educação, a saúde, etc. A mesma agenda há mais de um século. Ou será desde o descobrimento?

Ao perder o horizonte de objetivos as preferências estratégicas devido a uma visão essencialmente pragmática, o governo petista perdeu simultaneamente a perspectiva de o que seria um governo “desejável”, capaz de iniciar uma trajetória de superação da trágica situação do país, transformando de facto o Brasil em uma Nação. Note-se que aqui não se imagina que esta agenda negativa será superada em quatro ou oito anos de mandato presidencial. Contudo, é preciso começar. Com efeito: as “tarefas pragmáticas” do primeiro tempo do governo tornaram-se o imperativo permanente da administração pública. Tudo mais constante.

Onde estará a vontade política para mudar o país? Onde estará o arbítrio dos interesses daqueles que não estão organizados politicamente? Onde está situado o poder de resolução por meio de programas viáveis dos principais problemas do país?

Não há no PT e no Governo Lula um fato novo no que tange a autenticidade entre o seu passado e o seu presente. Parece-me que a essência do debate é que o governo é míope na construção de seu futuro e o do país. Falta-lhe lucidez em mediar o pragmatismo de suas ações com as necessidades políticas para mudar e estabelecer uma ordem que congregue os interesses legítimos das elites e da sociedade organizada e os imensos contingentes sociais sem interesses para defender. O pragmatismo não pode se tornar elemento ideológico e nem retirar do governo a compreensão política na priorização de suas tarefas. É preciso correr riscos, contrariar interesses, vislumbrar novos horizontes. Sonhar, sem devaneios.

Trata-se, com efeito, tarefa inútil analisar o PT diante de seu passado esquerdista. E muito menos tratar o governo como uma fatalidade conservadora. As referências estratégicas do governo e do PT deveriam ser a de construir uma República. Reorganizar por meio de reformas profundas, eventualmente contrariando os interesses vigentes e transformando-os em agentes de mudança econômica, social e política. Esta é a crise de identidade do PT e do Governo. É a longeva crise de identidade do país.

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petros@migalhas.com.br


* Economista e pós-graduado em Finanças. Foi Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) da APIMEC – Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (São Paulo).







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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.