Quinta-feira, 21 de março de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

Acontecimentos inesperados?

Francisco Petros*


Acontecimentos inesperados?


“Há muitas coisas que gostaríamos de jogar fora se não tivéssemos medo que os outros fossem apanhá-las” (Oscar Wilde)

Até o dia anterior à eleição do Deputado Severino Cavalcanti para a Presidência da Câmara de Deputados, escassas linhas e imagens eram dedicadas na mídia ao “Rei do Baixo Clero”, a Majestade da maior parte dos representantes do povo. De repente, na madrugada do dia posterior à data da eleição, o “desconhecido” deputado “clerical” passou a ser pautado por todos os órgãos de imprensa. Por meio de uma eleição tortuosa, mas absolutamente legítima o Deputado do Estado de Pernambuco assumiu o papel constitucional de terceira mais importante autoridade da República.

de facto alguma novidade na essência da eleição do Deputado Cavalcanti?

Do meu ponto de vista, a brutalidade do assassinato da Irmã Dorothy Stang, a eleição de Severino Cavalcanti e a vitória do Volta Redonda na disputa da Taça Guanabara, podem ser fatos inesperados, mas absolutamente pressentidos. Há nestes fatos casualidade em sintonia quase que perfeita com os seus efeitos. Nada de novo no front.

No caso do assassinato da freira que lutava por um desenvolvimento sustentado no Estado do Pará, houve apenas o prosseguimento natural de um conflito sócio-econômico que associa as mazelas da ausência do Estado com o subdesenvolvimento de uma região cheia de excluídos – os trabalhadores rurais – e os grileiros que se “incluem” por meio da utilização da violência, da organização criminosa e da exploração desmedida das riquezas naturais daquela região do Sul do Pará. Os conflitos agrários no Brasil são antigos e a Lei não é exatamente um referencial que possa contê-los. Poucos dias antes do assassinato da Irmã Dorothy, membros do MST – Movimento dos Sem Terra assassinaram o policial Luiz Pereira da Silva em Pernambuco e seqüestraram e torturaram o sargento PM Cícero Jacinto da Silva. Por sua vez, ambos os policiais estavam na busca do agricultor José Ricardo Rodrigues que praticou vários crimes contra os sem-terra que vagam pelo estado. Nas semanas anteriores, o governo discutiu com os interessados a Medida Provisória que “regulamentava” a exploração da madeira na região amazônica. Tal discussão foi realizada sob ameaças de todos os lados. Dizia-se que, caso não houvesse a liberação da exploração da madeira, haveria violência...

Cito fatos recentes apenas para sublinhar que esses indicavam que algo ruim podia acontecer imediatamente, por aqueles dias. Não precisamos relembrar Chico Mendes para retratar a fatalidade, não é mesmo?

Da mesma forma, o que poderíamos esperar da eleição da Câmara dos Deputados? Nas semanas anteriores ao pleito, viu-se um show de promessas irresponsáveis, a pregação de programas de gestão absolutamente descomprometidos com os maiores interesses do país, a interferência aberta do Poder Executivo com o objetivo de eleger o seu candidato, a tentativa de acordos políticos recheada de arranjos regionais e interesses específicos, um espetáculo gritante de infidelidade partidária e o jogo de forças com vistas às eleições presidenciais do ano que vem. Havia tentativas de toda ordem para obter o poder sem qualquer compromisso maior com os interesses maiores da sociedade brasileira. Ora, neste contexto, nada mais fiel a natureza do processo eleitoral que o Deputado Cavalcanti. Se ele é tosco como informam quase todas as fontes da mídia, o que dizer do processo que o elegeu? O que dizer do sistema político-partidário do Brasil? O que dizer da responsabilidade das lideranças governistas e oposicionistas que possibilitaram e viabilizaram a sua eleição?

Acho que não deveríamos chegar ao extremo cinismo de concluir que se chegou à eleição de Cavalcanti sem causa. Tudo foi absolutamente conseqüente. Não foi um milagre – fato que ocorre sem causa aparente. A eleição da terceira autoridade da República foi erigida por uma construção voluntária dentro do processo político que vigora no Brasil. Não há ambigüidade, nem fatalidade em tudo isso. Ou será que aqueles que o elegeram estavam guiados por um sentido de Justiça e acabaram construindo uma grande “injustiça” com o povo brasileiro? Viu-se uma disputa entre girondinos e jacobinos? Ora, ora...

Severino Cavalcanti pode gerar inquietações. O assassinato de Irmã Dorothy pode nos deixar boquiabertos pela sua brutalidade. Todavia, ambos os fatos percorreram os caminhos dos vácuos que impõem velocidade crescente as desesperanças do país. Pelo menos aos que se ressentem com estes acontecimentos.

No fim de semana, vimos pela TV a final da Taça Guanabara entre o Americano de Campos e o Volta Redonda. Nunca na história deste campeonato as finais foram disputadas sem a presença dos grandes times do Rio de Janeiro. Este é verdadeiramente um fato inédito. Quem viu os “grandes” times cariocas jogarem ao longo do campeonato saberá explicar... Nada imprevisto. Tanto quanto a imagem de uma freira com seis tiros no corpo e um deputado “clerical” e “majestoso” no exercício do terceiro cargo mais importante do país.

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petros@migalhas.com.br


* Economista e pós-graduado em Finanças. Foi Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) da APIMEC – Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (São Paulo).







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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.