Quarta-feira, 23 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 641

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

As três pessoas

No confessionário, Monsenhor era rápido. Não gostava de ouvir muita lengalenga. Ia logo perguntando o suficiente e sapecava a penitência que, sempre, era rezar umas ave-marias em louvor de N. S. do Rosário. Fugindo ao seu estilo, certa feita ele resolve perguntar ao confessando quantos eram os mandamentos da lei de Deus.

- São 10, Monsenhor.

- E quantos são os sacramentos da Santa Madre Igreja?

- São 7, Monsenhor.

- E as pessoas da Santíssima Trindade, quantas são?

- São 3, Monsenhor.

Monsenhor, notando que o confessando só sabia a quantidade, pergunta rápido:

- E quais são essas pessoas?

A resposta encerrou a confissão:

- As três pessoas são o senhor, o dr. Didico e o dr. Zé Augusto.

(Historinha contada por José Abelha em A Mineirice).

Previsão inquietante

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, de 78 anos, está no Brasil para lançar "O fim do império cognitivo" (Editora Autêntica, 2019), em que critica "um conhecimento que é todo produzido na Europa, EUA e Canadá, e reproduzido por autores do Sul". Faz previsão: as políticas neoliberais adotadas pelo governo Bolsonaro fazem o Brasil se aproximar de uma "convulsão social" como acontece no Chile e no Equador. Será? De onde viria a rebeldia? Classes médias? Jovens? Movimentos organizados? Tema inquietante.

Chile, mau exemplo

O ministro da Economia Paulo Guedes esperava coroar a reforma da Previdência no Brasil com o regime de capitalização e sempre citou o Chile como bom exemplo desse regime. Difícil sustentar sua tese: um dos motivos da atual revolta chilena é exatamente a capitalização, que achatou as aposentadorias. A média das aposentadorias pagas em agosto foi de US$ 200, pouco mais da metade do salário mínimo, de US$ 422.

O movimento pendular...

O sobe e desce na política é um fenômeno comum. Aqui e alhures. Vejam o que está acontecendo no Reino Unido. O Brexit é um sobe e desce. O primeiro ministro Boris Johnson garante que a saída do UK da Europa se dará, faça chuva ou faça sol, dia 31 deste mês. O Parlamento o obrigou a pedir adiamento do Brexit. E no ar cresce a bolha da interrogação: até quando vai essa novela? Se a velha democracia inglesa é assim, o que dizer das democracias incipientes?

... Na política

Aqui, o delegado Waldir comemorou intensamente a vitória no PSL, que garantiu até sexta sua posição de líder do partido na Câmara. Segunda, o líder do governo, o major Vitor, apresentou à Secretaria da Câmara outra lista, desta feita com 29 parlamentares, sacramentando como líder do PSL o nome do 03, Eduardo Bolsonaro. Significa que essa crise no partido vai longe. A ala perdedora, do presidente Luciano Bivar, naturalmente rejeita a escolha do 03. Resta saber como vai se comportar no Congresso daqui para frente em relação às propostas do governo. P.S. Os bivaristas até gostariam de indicar mais um delegado para a liderança do PSL: Marcelo Freitas, do PSL-MG.

O fim do "mistério 03"

A história soava estranha: indicar o filho Eduardo para a embaixada do Brasil nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, comprar briga feia para ele assumir a liderança do partido na Câmara dos Deputados. O próprio presidente Bolsonaro começa a levantar a ponta do véu: disse no Japão que o filho 03 é quem vai decidir se vai para Nova York ou se fica no Brasil para "pacificar o partido e catar os cacos" deixados pela crise interna. Supõe-se, portanto, que as chances do filho ganhar a aprovação do Senado para a embaixada eram bem pequenas. Evita-se assim mais uma derrota no Congresso.

Mais um olavista

O indicado para os Estados Unidos será mesmo Nestor Foster, diplomata de carreira, amigo do chanceler Ernesto Araújo e olavista de carteirinha.

Crise na representação

Esse movimento pendular apenas reforça o que temos vivido: a crise crônica da democracia representativa. Crise essa que aponta para um conjunto de fatores, dentre outros: o declínio das ideologias/arrefecimento doutrinário; o declínio dos partidos; o declínio dos Parlamentos; a desmotivação das bases; a perda de força das oposições; as promessas não cumpridas pela democracia (a educação para a Cidadania, o combate ao poder invisível, o combate às oligarquias, a transparência dos governos), enfim, o descrédito na política.

A tinta na caneta

Para complicar, temos, aqui e por aí, um presidencialismo de cunho imperial. Herança ibérica - Portugal e Espanha. O poder quase insuperável dos soberanos foi passado aos donos do poder no início da colonização. Temos, ainda, a herança do império inca, com a incomensurável força dos caciques. Hoje tudo isso se resume ao poder da caneta. Que nomeia, desnomeia, atrai, coopta, compra, enfim, estabelece a dependência dos representantes ao mandatário com sua caneta cheia de tinta. Nosso presidencialismo é soberano.

Os ismos

Junte-se a isso a coleção de nossas mazelas, fruto da árvore do patrimonialismo, que fixou raízes lá atrás, em 1534, por exemplo, com D. João III criando 15 capitanias hereditárias e escolhendo amigos para delas tomar conta. O negócio privado começou a adentrar o terreno do Estado. Ismos: caciquismo, grupismo, mandonismo, nepotismo, familismo, fisiologismo - galhos podres da árvore patrimonialista. É difícil expurgar esses tumores que vão e voltam nas ondas dos ciclos políticos. Mas é possível distinguir uma luz no fim do túnel? Sim. Quando fizermos a maior revolução que uma Nação pode fazer a luz será incandescente: a revolução da Educação. Só mudando as cabeças pensantes se muda um país.

A renovação

Diz-se que a última eleição, a do Bolsonaro, foi a abertura de uma nova era. É verdade? Em termos. Vimos a renovação da Câmara em 53%. Mas não significa que os novos surgidos representam necessariamente renovação. Muitos são jovens e, sem querer machucar ninguém, muitos têm pensamento dinossáurico. Obsoleto. A mudança de mentalidade não ocorre por decreto. Demanda o tempo de gerações. Observamos mentalidade renovadora, sim, em alguns estratos, mas ainda não dispomos de força no Congresso para dar ao país o que ele precisa. O primeiro passo está sendo dado.

A organicidade social

Tenho lembrado sempre: a sociedade brasileira está se organizando bem. Temos cerca de 400 mil organizações não governamentais, todas constituídas legalmente. Acrescente-se a esse conglomerado cerca de mais um tanto de entidades informais. O Brasil novo é este, o das organizações horizontais, de categorias profissionais, gêneros, minorias étnicas e raciais, etc. As mulheres, graças, estão se empoderando. Os conceitos de direitos, igualdade e liberdade se expandem. Por isso, temos muitas lutas pela frente. Contra quem?

Os fundamentalistas

Há, infelizmente, em nosso habitat uma população vocacionada para defender o atraso. Samuel Huntington, o prestigiado professor de Harvard, já descreveu as proporções da grande ameaça da Humanidade: o paradigma do caos, formado pela quebra no mundo inteiro da lei e da ordem; pelas ondas de criminalidade, o declínio da confiança na política, a desagregação dos valores da família, os cartéis de droga. E apontava o fundamentalismo islâmico como ameaça ao ideário das sociedades democráticas. Conflitos étnicos e de origem religiosa banham grande parte do nosso planeta. E por aqui, estamos começando a temer uma escalada fundamentalista. Uma corrente que quer puxar o Brasil ao passado.

A política é missão

O declínio dos fenômenos da política, acima descritos, se dá ainda pelo fato de termos substituído o conceito de missão para profissão. Os eleitores começam a execrar os representantes, passando a eleger perfis que expressem inovação, mudança, virada de mesa. O desinteresse pela política se explica pelos baixos níveis de escolaridade e ignorância sobre o papel das instituições e pelo relaxamento dos políticos em relação às causas sociais. Este fenômeno - a distância entre a esfera pública e a vida privada - se expande de maneira geométrica.

Na Grécia

Na Grécia antiga, a existência do cidadão se escudava na esfera pública. Esta era sua segunda natureza. A polis era espaço contra a futilidade da vida individual, o território da segurança e da permanência. Até o fim da Idade Média, a esfera pública se imbricava com a esfera privada. Nesse momento, os produtores de mercadorias (os capitalistas) invadiram o espaço público. É quando começa a decadência. Na primeira década do século 20, acentua-se com o declínio moral da classe governante. Assim, o conceito aristotélico de política - a serviço do bem comum - passou a abrigar o desentendimento.

A bagunça

Por aqui, o estado de não cumprimento da lei se espraia. O nome disso é anomia. A ruptura no império da ordem assume proporções fantásticas. Alguém pode argumentar que somos bem diferentes do Oriente Médio, onde os conflitos ocorrem diariamente, e estamos bem distantes de tsunamis e terremotos que afligem populações do sudeste asiático. Peca-se por excesso de confiança ou por ausência de informação? Sabem por quê? Morrem, no Brasil, 56 mil pessoas por ano vítimas de arma de fogo. Uma leva de crianças sucumbe de inanição, desnutrição e doenças tropicais. Dados mostram mais de 50 milhões de brasileiros vivendo sob um apartheid social. Quando se pensava que doenças, como dengue e o sarampo, teriam sido banidas por ações preventivas, eis que ressuscitam. E até em Estados avançados como São Paulo.

E a solidariedade?

Somos um povo solidário ou já fomos mais solidários no passado? Há quem diga que estamos vivendo na selva dos conflitos. Cada um por si. O humanismo tem diminuído na esteira da competitividade. Será que estamos vendo leões atracando gazelas? A historinha é emblemática: "Toda manhã, na África, uma gazela desperta. Sabe que deverá correr mais depressa do que o leão para não ser devorada. Toda manhã, na África, um leão desperta. Sabe que deverá correr mais que a gazela para não morrer de fome. Quando o sol surge, não importa se você é um leão ou uma gazela: é melhor que comece a correr".

Barbárie

Infelizmente, esse relato de Domenico De Masi ainda é exibido em ambientes de trabalho como profissão de fé de executivos e dirigentes empresariais. À primeira vista, parece um bom conselho para quem quer vencer na vida. Trata-se, porém, de uma exaltação à barbárie. Basta intuir que, pelo conselho, "leões humanos" (aspas nossas) são autorizados a agarrar "gazelas humanas" (aspas nossas), que, apavoradas, devem se desdobrar para realizar suas tarefas ou a se esconder para fugir das intempéries do trabalho (ou dos ataques dos leões). É evidente a estimulação ao instinto da violência, ao cultivo dos perfis agressivos, às lutas por espaço e poder, às táticas aéticas e aos golpes traiçoeiros, tudo justificado pela necessidade da competitividade.

Doenças da política

Por fim, temos de combater as doenças mais recentes do nosso corpo político. Pinço, aqui, algumas mais destacáveis:

a) O familismo no Executivo - A influência dos três filhos do presidente da República chamusca a ideia de lisura, zelo e ética no Governo.

b) O partidarismo no Judiciário - Por mais que os ministros do STF digam que seu compromisso é com Carta Magna, eleva-se a impressão que alguns agem como integrantes de partido político.

c) O fisiologismo no Parlamento - O balcão de trocas tem diminuído, mas o fisiologismo ainda carimba a feição de grande parcela de nossa representação.

d) O assistencialismo ao setor produtivo - Também é possível anotar certo avanço da produção na direção da competitividade. Mas o assistencialismo a alguns setores atravanca os passos do país na direção do amanhã.

e) O exclusivismo nos partidos - Regra geral, os partidos continuam atrelados às velhas formulações. Seus integrantes lutam por interesses pessoais. Deixam os interesses nacionais ao lado, se suas ambições não forem contempladas.

f) A improvisação na gestão pública - Governos de todas as instâncias deveriam profissionalizar ao máximo as estruturas, visando a consecução de serviços públicos melhores e eficazes.

Notinhas de pé de página

- Denúncia a ser apurada: a ex-líder Joice Hasselmann garante que assessores e filhos de Bolsonaro usam as redes sociais com perfis falsos.

- Lula se prepara para ser a estrela mais brilhante da campanha de 2020. Correndo o Brasil e aparecendo na TV. Volta do PT está na moldura dele.

- A linguagem de baixo calão usada por alguns parlamentares do PSL - em acusações uns contra outros - envergonha qualquer cidadão.

- O óleo vazado que inunda as praias do Nordeste é mais uma vergonha que mancha a frente de controles do Governo. Como é possível não se descobrir a origem do óleo?

- Alckmin sinaliza interesse em se candidatar ao governo de SP em 2022. Um puxão de orelhas no governador João Doria, considerado até por amigos como "protótipo da ingratidão".

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.