Segunda-feira, 23 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 244

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Suavemente

José Maria Alkmin, mineiro, político e maquiavélico, passou uma temporada como advogado. Certa vez advogou a causa de um grande criminoso. No júri, conseguiu oito anos para o réu. Recorreu. Novo júri, 30 anos. O réu ficou desesperado :

- A culpa foi do senhor, dr. Alkmin. Eu pedi para não recorrer. Agora vou passar 30 anos na cadeia.

- Calma, meu filho, não é bem assim. O senhor sabe fazer conta? Então, vamos lá. Nada é como a gente pensa da primeira vez. Primeiro, não são 30, são 15. Se você se comportar bem, cumpre só 15. Depois, esses 15 são feitos de dias e noites. Quando a gente está dormindo tanto faz estar solto como preso. Então, não são 15 anos, são 7 e meio. E, por último, meu filho, você não vai cumprir esses 7 anos e meio de uma vez só. Vai ser dia a dia, dia a dia. Suavemente. Nem vai perceber.

Minha hipótese

Há tempos tenho insistido nessa hipótese : o candidato que mantiver boa dianteira nas pesquisas, durante as duas primeiras semanas de programa eleitoral, estará pertinho da vitória. Não haveria tempo para adversários tirarem o atraso. Então, a inferência continua : Dilma está perto de ganhar no primeiro turno. Os 20 pontos de maioria que detêm lhe asseguram um confortável passo a caminho da vitória no primeiro turno. Quais as razões ?

PNBF

Minha tese é de que o Produto Nacional Bruto da Felicidade é quem está comandando o processo de escolha. Sem ufanismo, eis minha leitura : a maioria da população brasileira está satisfeita com o governo Lula. O presidente colou o voto ao bolso dos cidadãos. Logo, o voto gera alimento para o estômago. Geladeiras cheias, fogões com chamas acesas fazendo comida farta. Produtos da linha branca enchendo as cozinhas. Carro novinho, mesmo que seja simples, na porta de casa. Até o dinheirinho para o lazer está à disposição. Há uns 20 programas de Lula que, somados, formam o que chamo de Produto Nacional Bruto da Felicidade. Passaporte para Dilma.

Serra, um discurso troncho

Questões que devem inquietar os marqueteiros : por que votar em Serra ? Por que o eleitor está insatisfeito ? Por que vota em candidato mais preparado ? Por que Serra é mais experiente ? Ora, tais argumentos só funcionam junto a estratos que estão acima do meio da pirâmide. O voto racional pode ir para Serra, mas é um sufrágio menor. Serra, na verdade, carece de um discurso menos vago. Se prometer mudanças, perderá muitos eleitores. Que temem alteração substancial nas regras do jogo. Se disser que vai aperfeiçoar, a questão surge : como ? Aperfeiçoar é um verbo abstrato.

Serra centralizador

A campanha do ex-governador paulista, ademais, carece de planejamento, de organização. Serra é quem decide tudo, ao sabor do humor. Dorme tarde, lá pelas 4 da manhã, acorda pelas 8h/9h, cheio de sono e ressaca eleitoral. Fica com o humor à flor da pele. Agora decidiu concentrar a campanha no Triângulo das Bermudas, Rio, São Paulo e Minas Gerais. Campanha de corpo a corpo. Aí se concentra o maior eleitorado brasileiro. Haverá tempo de diminuir a distância ?

Programa velho

O programa de Serra na TV é velho, cheio de bolor. Mostra o que fez e o que poderá vir a fazer. Imagens antigas, de arquivo, e falas pontilhadas pela didática do professor em sala de aula. Uma chatice. E, para chegar ao cúmulo do contra-senso, aparece Lula no programa. Como Serra vai justificar a imagem de Lula, se, na sequência, vem uma saraiva de balas contra o governo de... Lula ? A isso chamamos de dissonância cognitiva. O eleitor é induzido à dúvidas. E, ao final do processo, tende a concluir que Serra está querendo enrolá-lo. E que Dilma é a candidata do presidente. Gonzalez, o marqueteiro de Serra, parece ter perdido o eixo.

A morte da princesa

O que é globalização ? Um gaiato responde : a morte da princesa Diana... Vejamos. Uma princesa inglesa, com um namorado egípcio, sofre um acidente de carro dentro de um túnel francês, num carro alemão com motor holandês, conduzido por um belga, encharcado com whisky escocês. O bêbado foi seguido por paparazzi italianos em motos japonesas. A princesa foi tratada por um médico canadense, que usou medicamentos americanos. Este e-mail é enviado a você por um brasileiro que usa tecnologia americana (Bill Gates) e provavelmente o leitor estará lendo esse texto em um computador com chips feitos em Taiwan e um monitor coreano montado por trabalhadores de Bangladesh, numa fábrica de Singapura e transportado em caminhões conduzidos por indianos roubados por indonésios, descarregados por pescadores sicilianos, reempacotados por mexicanos e, finalmente, vendido na ponta da linha por chineses por meio de uma conexão paraguaia. Quer exemplo mais acabado de globalização ?

Anastasia e Hélio

Em Minas Gerais, estamos assistindo a uma das batalhas mais disputadas do pleito. Hélio Costa, do PMDB, continua confortável, com 11 pontos de dianteira, mas o candidato de Aécio Neves, o governador Anastasia, poderá causar surpresas. Será bastante previsível se Anastasia for para o segundo turno com Hélio Costa e levar a melhor em um Estado, que deverá dar boa vitória a Dilma. Aécio diz que vai ganhar no primeiro turno. Aí, já é exagero. Mas em se tratando de política, e de política mineira, tudo é possível.

São Paulo, expectativas

São Paulo tem o maior eleitorado : 30 milhões. A surpresa, até o momento, é a estagnação de Mercadante. Alckmin continua pontuando uma diferença que beira os 30 pontos. É surpreendente sua performance até o momento. São Paulo é, mesmo, uma floresta tucana. Mas Lula decidiu aqui desembarcar com todo o arsenal que dispõe. Ele dá como favas contadas a vitória de Dilma e faz apostas que colocará Mercadante no segundo turno. Se o petista ganhar uma segunda possibilidade, e Dilma se eleger no primeiro, então pode-se vislumbrar alguma chance para Mercadante. Difícil ? É. Mas não impossível.

Os dois senadores

Há uma incógnita pairando sobre o cenário para o Senado em São Paulo. Uma vaga será de Marta Suplicy. Mas a outra é uma indefinição. Terão chances Quércia, Tuma e Netinho de Paula. E Aloysio Nunes Ferreira ? Este é o maior ponto de interrogação. Trata-se do candidato in pectore de Serra. Trata-se do candidato tucano de Geraldo Alckmin. E por que não decola ? Com um bom espaço de TV e um programa bom, Aloysio não saiu da casa de um dígito. Tem o apoio da imensa maioria dos prefeitos paulistas. Mas patina. Cada caso é um caso. Esse tucano é um perfil endógeno, para dentro. Não se abre. Sem asas para voar. Preso em uma redoma.

E quem será ?

Quércia representa a política tradicional. Se voltar, deverá ser por conta das forças do interior. Tuma se guarda no escudo da segurança, sempre um seguro escudo. Mas sofre limitações. Netinho de Paula agarra-se na voz do pagodeiro e fama de artista para captar os abraços e votos das massas. Por isso, poderá voar mais alto. Não se surpreendam se for um dos escolhidos. Confesso que, até este momento, tenho dúvidas sobre o segundo nome. Se o interlocutor conversa com Aloysio, ouvirá dele : "serei eu o eleito". Será ?

Pesquisas

As pesquisas, após um ciclo de muita diferenciação entre uma e outra, começam a se compor. Os Institutos acertam os ponteiros e aproximam seus índices. Hoje, maioria de Dilma gira entre 18 e 20 pontos.

Banho nordestino

A aprovação de Luiz Inácio chega a 95% em alguns Estados do nordeste. Deus nos céus e Lula na terra. Em Estados como Pernambuco, prefeitos tucanos correm em direção a Dilma, em clara traição ao candidato Serra.

O DEM no RN e em SC

O Rio Grande do Norte poderá se transformar, ao lado de Santa Catarina, no segundo Estado brasileiro a ser governado por um representante do DEM : a senadora Rosalba Ciarlini. Trata-se de uma política que conquista votos em muitas searas. Daí seu perfil plural e suprapartidário. Tem o apoio de parte do PMDB, além do DEM e do PSDB. Em SC, Ângela Amin está na frente. Mas aguentará o tranco ?

PMDB ou PT ?

Quem fará a maior bancada de deputados federais ? O PMDB crava uma cifra : 99. O PT crava outra : 98. Quem fizer a maior bancada, ganhará o direito de começar a legislatura de 2011 com o comando da Câmara. Se for o PT, o nome é Cândido Vaccarezza, um dos melhores e mais preparados quadros petistas. Este médico, baiano de origem, tem voo alto. Se for o PMDB, o nome é o de Henrique Alves líder do partido pela segunda vez, e um dos mais hábeis articuladores do Congresso.

Nega maluca, cuidado

Urge ter cuidado com os termos. Tempos de igualdade. Tempos de combate ao menor sinal de discriminação. Uma senhora entra numa confeitaria e pede ao balconista uma torta "Nega Maluca". O balconista diz à cliente que usar o nome "nega maluca", hoje em dia, pode dar cadeia, pois esbarra nas seguintes disposições :

- Lei Affonso Arinos; Lei Eusébio de Queiroz; art. 5º da Constituição; Código Penal; Código Civil; Código do Consumidor; Código Comercial; Código de Ética; moral e bons costumes, além da lei Maria da Penha...

- Então, meu filho, como peço a porcaria dessa torta ?

- Torta afro-descendente com distúrbio neuro psiquiátrico...

Retrocesso

O Brasil avança em muitas áreas. Mas em matéria de comunicação política, caminha para trás. É inimaginável a censura imposta ao humor político. Humoristas não podem satirizar candidatos. Trata-se de uma aberração. Tivemos no Brasil ciclos mais abertos. No princípio do século passado, revistas como Careta eram especializadas no trato e na produção do humor político. Será que os nossos juízes eleitorais perderam o tino ?

Ficha-suja e as calendas

Paulo Maluf foi impugnado pela Justiça Eleitoral de São Paulo. Roriz, candidato a governador do Distrito Federal, também está bloqueado pela Justiça Eleitoral. Leiamos : serão candidatos e poderão ser eleitos. Apelam para o TSE. E, se forem condenados, se valerão de recurso junto ao STF. Ou seja, as decisões finais vão para as calendas. Há, por enquanto, 486 recursos no TSE. Brasil novo, Brasil velho.

21 ações

O partido tucano entrou com mais 21 ações contra a candidata do PT, que teria invadido a programação dos candidatos a deputado.

Patrulhas

As patrulhas começaram a botar a cara na rua. E a dedarem quem não se guiar por sua bíblia. Acham-se no direito de condenar analistas, de vituperar jornalistas, simplesmente se estes fazem críticas a seus candidatos. Até este consultor, com suas três décadas de análise e consultoria política, tem sido vítima de um bando de desqualificados. Pior é constatar que esse grupo está incrustado na banda da direita empedernida.

Conselho aos candidatos

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos candidatos à Presidência da República. Hoje, volta sua atenção a todos os candidatos :

1. O discurso está muito assemelhado. Procurem criar um diferencial.

2. Arrumem uma boa ideia. Mesmo que seja apenas uma. E fiquem martelando essa proposta com construções gramaticais criativas.

3. Testem-na sob o prisma da viabilidade, eficiência e eficácia, relação custo/benefício, impacto social.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.