Domingo, 22 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 250

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"Aposentem o homem"

Dinarte Mariz era governador do Rio Grande do Norte. Em uma de suas costumeiras visitas à Caicó, visitou a feira da cidade, acompanhado da sempre presente Dona Nani, secretária de absoluta confiança. Dá de cara com um amigo de infância e logo pergunta : "Como vai, Zé Pequeno ?" O amigo, meio tristonho e cerimonioso, responde : "Governador, o negócio não tá fácil; são oito filhos mais a mulher...tá difícil alimentar essa tropa vivendo de biscate. Mas vou levando até Deus permitir." O velho Dinarte o interrompe de pronto : "Zé, que é isso, homem, deixe essa história de governador de lado. Sou seu amigo de infância, sou o Didi !" Vira-se para Dona Nani e ordena : "Anote o nome do Zé Pequeno e o nomeie para o cargo de professor do Estado." Na segunda-feira, logo no início do expediente, Dona Nani entra na sala de Dinarte e vai logo informando : "Governador, temos um problema, o Zé Pequeno, seu amigo, é analfabeto; como podemos nomear..." Antes que concluísse a fala, o governador atalha : "Virge Maria, Dona Nani ! O Rio Grande do Norte não pode ter um professor analfabeto. Aposente o homem imediatamente." E assim foi feito !

Historinha enviada pelo amigo Lindolfo Sales.

Reta final

Já dá para ver a faixa de chegada esperando os corredores na pista. Semana passada, Dilma estava 12 metros na frente de Serra, cada metro comportando 1 milhão de eleitores. Se a atleta, nos últimos espaços que resta para completar a jornada, mantiver o ritmo, é mais que provável que seja a vitoriosa. Tudo vai depender do sopro que o tucano recebeu nos últimos dias, despejado pelos tubos de Aécio Neves e Geraldo Alckmin. A questão é saber se esses grandes cabos eleitorais têm conseguido efetivamente efetuar grandes transfusões de oxigênio para José Serra.

Dúvidas

Minas Gerais continua sendo a grande incógnita. Os mais de 14 milhões de mineiros deram uma retumbante vitória a Dilma. Agora, os prefeitos são convocados por Aécio e Anastasia para despejar os votos de suas bases em Serra. Essa operação terá sucesso ? Minha visão é de que prefeitos trabalham com a perspectiva de poder. Anastasia é perspectiva de poder. Tudo bem. Dilma também o é. E nesse sentido, se perceberem que a candidata tem mais condições de levar a melhor, permanecerão com ela. Tendem a se alinhar com o sentimento do eleitorado.

10 pesquisas

O país baterá esta semana o recorde nacional em matéria de pesquisas. Todos os Institutos conhecidos e mais alguns novos jogarão uma batelada de pesquisas no colo dos eleitores. Amanhã e depois, já se pode fazer uma inferência melhor. Dependendo da tendência - crescimento ou queda - de uma e outro, teremos uma visão mais clara do que acontecerá domingo. Será muito difícil tirar 1,5 milhão de votos, por dia, de Dilma. Mas em política não existe o adjetivo impossível. Numa régua de 0 a 100, Dilma tem, hoje, 99 pontos. Este consultor arrisca dizer que a fatura está quase liquidada.

Debates ? Banalizados...

Até os debates se tornaram banalizados. Poucos conseguem vê-los até o final. As estocadas se repetem, as respostas são previsíveis e as visões sobre os programas não deixam perceber grandes diferenças. A sensação é a de que esse modelo está esgotado. Sem criatividade. Sem emoção. Sem densidade. Os debates perdem o sentido de visão entre contrários para ganharem a roupagem de monólogos.

Canibalização recíproca

Basta ter visto o debate da TV Record. Estocadas de ambos os lados, respostas atravessadas. O formato, mesmo ancorado em perguntas dos candidatos, está esgotado. Debates deveriam selecionar focos específicos : saúde, segurança, educação, transportes, programas sociais. Os candidatos deveriam aprofundar as temáticas, evitando a adjetivação pesada. Que não constrói. E afasta o eleitorado. Que fica zonzo com os tiros se chocando no ar.

Ciclo pós-eleitoral

A essa altura, já se começa a abrir o horizonte pós-eleitoral. Outras contendas se estabelecerão. Partidos desejando impor reivindicações e nomes para a composição de Ministérios e estruturas da administração. As maiores siglas disputando maiores fatias. E apontando as áreas de maior interesse. PMDB e PT começando uma intensa articulação em torno das presidências do Senado e da Câmara.

No Senado

Para o Senado, a indicação de maior peso é do senador Edison Lobão, que é do PMDB e é do Maranhão. Sarney teria uma eleição quase consensual, mas não tem mais apetite porque quer cuidar mais da saúde. Por isso, tem Lobão como seu candidato. Romero Jucá, bem eleito em Roraima, foi envolvido no episódio de cooptação ilegal de votos. Garibaldi Alves, o mais votado no Rio Grande do Norte, já anunciou que recua da candidatura à presidência do Senado em favor do pleito do primo, Henrique Alves, ao comando da Câmara. E Renan Calheiros, que manobra o corpo de senadores, ainda está com a imagem abalada por conta de episódios do passado recente.

Na Câmara

Para a Câmara o PT já tem alguns nomes. O mais forte, até o momento, é o do líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza. Mas outros nomes se colocam na disputa, entre os quais Marco Maia, gaúcho, atual vice-presidente; e os ex-presidentes da casa, Arlindo Chinaglia e João Paulo, do PT paulista. O PT alega que tem direito a começar a primeira legislatura do ciclo porque fez maioria dos deputados. O PMDB deve se conformar com a segunda legislatura. Mas o PMDB, no passado, mesmo tendo alcançado a maior cota de parlamentares, abriu para o PT. Este alega que o Senado deverá ser comandado pelo PMDB. Mas os peemedebistas alegam que o PT, se Dilma for eleita, terá a presidência da República. O PT se dispõe a fazer um bloco somando 96 deputados. O PMDB também promete fechar um bloco com a mesma quantidade, 96. Cinzas no horizonte.

Homenagem ao nordeste

O PMDB, a partir do seu bloco, vai lutar pela presidência da Câmara. O candidato do partido é o potiguar Henrique Eduardo Alves. Aliás, este parlamentar tem o maior número de mandatos na Câmara. Henrique expressa um argumento a mais : Dilma será consagrada pelo eleitorado nordestino. Terá na região uma votação estupenda. A presidência da Câmara seria, portanto, uma homenagem que o PT e Dilma fariam ao nordeste. Argumento de peso.

Nomes para ministérios

Com a mais provável eleição de Dilma, nomes já começam a compor as planilhas dos ministérios. Antônio Palocci é o mais cotado perfil do PT a ocupar um cargo de destaque, ou seja, um ministério de envergadura. Fala-se na Casa Civil. Palocci, nesse caso, seria uma espécie de primeiro ministro, o coordenador geral das ações do governo. Tem equilíbrio, é educado, bem articulado, sabe ouvir e preencher lacunas. Zé Eduardo Cardoso, se não quiser ir para o STF, poderá ocupar a cadeira da Justiça. Marco Aurélio Garcia continuaria na Assessoria Internacional ou mesmo no Ministério das Relações Exteriores. É ideia também aproveitar José de Filippi, recém eleito deputado e que cuidou das finanças da campanha da candidata. Nos outros partidos, os nomes estão ainda na pia do batismo. Passarão pelo corredor dos acordos e negociações.

Não é inscrito na OAB

Em Antenor Navarro, Paraíba, havia um júri. O juiz da comarca, Nelson Negreiros, viu o réu chegar sem advogado de defesa :

- O senhor não tem advogado ?

- Tenho, doutor juiz. Meu advogado é Deus.

- Não serve. Não é inscrito na Ordem.

Jader e o Ficha Limpa

Hoje, o STF deverá avaliar o caso Jader Barbalho, que obteve mais de 1,7 milhão de votos para o Senado. Ele foi enquadrado na Lei da Ficha Limpa porque em 2001 renunciou ao mandato para escapar da cassação. Voltou a se candidatar a deputado federal em 2002 e foi reeleito em 2006. Diz o ministro Marco Aurélio : "ele renunciou mas obteve registro eleitoral em duas disputas posteriores. Se sacramentarem que ele está inelegível, vão ter que interromper o atual mandato. Por isso, a lei não pode retroagir". Estamos curiosos para ouvir a decisão do STF.

Multas de campanha

Dilma recebeu 11 multas na campanha, que resultaram em R$ 53 mil. Serra ganhou 9 multas, mas o total chegou a R$ 70 mil. Lula sofreu 7 multas, que somaram R$ 47,5 mil.

Preço inexequível

O senador Marcondes Perillo tenta aprovar projeto que obriga órgãos públicos a assumir dívidas de empresas terceirizadas que lhes prestaram serviços e deixaram de pagar direitos trabalhistas. Se o projeto for aprovado, os órgãos públicos teriam prejuízos ainda maiores, principalmente na contratação de serviço de segurança privada. Isso porque as normas atuais do processo de licitação em nada incentivam a atuação de empresas sérias, já que tal critério não contribui com setores em que o barato sai caro, caso da segurança. Empresas de segurança privada, que não são sérias, ganham licitação por cumprir o critério do menor preço, mas acabam vendendo gato por lebre, causando sérios prejuízos aos contratantes. Medida simples e interessante seria desconsiderar empresas que prometem cumprir o contrato a um preço muito aquém do valor real.

Zé Dirceu

Pergunta recorrente : e Zé Dirceu ficará em algum cargo ? Difícil. Depois de virar saco de pancadas e ainda enfrentar a questão dos aloprados, em julgamento pelo STF, seria complicado tê-lo numa linha de frente. Mas o ex-ministro e ex-presidente do PT continuará a ter força monumental. Tem seguidores por todos os lados. Sabe manejar nos bastidores.

Romper com o Governo ? Jamais !

O Senado estava agitado, aquela tarde. Alguém se levantou e gritou :

- Precisamos romper com o Governo.

O velho senador Cunha Melo, do Amazonas, pegou o chapéu, levantou-se e foi saindo de fininho :

- Há coisas que não se deve nem ouvir.

CNI em SP

Fará muito bem o novo presidente da CNI com a disposição de dividir a semana entre Brasília e São Paulo. Por aqui, o caldeirão produtivo ferve. E é importante sentir sua temperatura. São Paulo continua a ser a locomotiva econômica do país. Não pode ser deixado de lado. A FIESP, por seu lado, perde credibilidade com a disposição de seu presidente de se enfiar no saco da política. Parabéns a Robson Andrade pela visão que tem sobre a rotina da CNI.

Na TV Globo ?

Quem tem grandes expectativas sobre o debate na sexta-feira, na TV Globo, pode tirar o cavalinho da chuva. Será o 10º debate, apenas mais um. Não alterará em nada o resultado das eleições.

O que Lula vai fazer ?

Pergunta recorrente : o que Lula vai fazer depois de deixar o cargo ? Este consultor arrisca algumas respostas :

1. Não vai se aposentar, pois se ilumina com o poder;

2. Vai construir o seu Instituto, abrigo que ex-presidentes geralmente procuram para servir de foro qualificado de pensamentos e ideias;

3. Viajará pelo mundo, com especial destaque para os países da África, onde tentará plantar sementes dos programas sociais que desenvolveu;

4. Dará conselhos a Dilma, sendo, desta forma, um conselheiro-pai, um orientador de rumos; mas não vai interferir no dia a dia da candidata, até para que ela construa sua Identidade;

5. Comerá, sim, uns coelhos em seu sítio nas proximidades de São Bernardo do Campo;

6. Terá um olho no presente e outro no futuro, principalmente para as proximidades de 2014.

Em Roraima

O eleitorado de Roraima é o menor do Brasil. Ali, a campanha está fervendo, mas as pesquisas apontam para a vitória do ex-governador Neudo Campos sobre o atual governador, Anchieta Júnior. A diferença estaria entre 8 e 10 pontos pró-Neudo. Cairia, assim, mais um enclave tucano no norte do país. Anchieta é um cearense elevado à política pelo ex-governador e falecido Ottomar Pinto, cujos familiares dele se afastaram por "traição" ao ideário do legendário brigadeiro que governou o Estado por 3 vezes. A campanha de Neudo tem a coordenação do deputado Mecias de Jesus, que exerce grande liderança.

Adeus a Tuma

Adeus ao senador Romeu Tuma. Teve importante papel na vida pública do país. Deu sua contribuição. Conheci melhor o senador Tuma nos últimos anos. Considerava-o um amigo. Gentil, afável, carinhoso e educado. Jorrava palavras de bondade. Perfil muito diferente da imagem que eu tinha dele dos tempos dos anos de chumbo. A representação que o povo de SP lhe deu por muitos anos é o testemunho de que merece o reconhecimento de todos nós.

Conselho aos eleitores

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos candidatos à presidência da República. Hoje, volta sua atenção aos eleitores :

1. O voto é uma das principais armas de defesa da democracia. Use-a no próximo domingo.

2. Não anule seu voto. Escolha o perfil que julgar mais adequado para o futuro do país.

3. Não se deixe levar por versões fantasiosas, boatos e guerra de palavras. Vote com a consciência de que estará escolhendo o melhor quadro.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.