Quarta-feira, 17 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 2

quinta-feira, 5 de maio de 2005

 



O PT FAZ LIÇÃO DE CASA


O PT começa a fazer a lição de casa para abrir o espaço eleitoral de 2006. Entre as lições que a cúpula petista está ministrando para os alunos das bases, algumas exibem forte conteúdo autoritário. A primeira delas é no sentido de abafar as discussões internas, evitando prévias partidárias entre os pré-candidatos petistas nos Estados. Quanto menor a dissensão interna, tanto maior será a capacidade da cúpula petista harmonizar os interesses em jogo. A orientação partiu do próprio presidente Lula, que está seriamente preocupado com o volume crescente de contrariedade nas bases do partido. A segunda lição tem por objetivo administrar a ambição de pré-candidatos petistas em Estados considerados estratégicos para o projeto de reeleição de Lula. Por exemplo: no Paraná ou em Santa Catarina, a cúpula do PT pretende apoiar os dois candidatos do PMDB, os governadores Requião e Luiz Henrique. A situação mais complicada será o RS, onde o petista Pont não quer abrir mão da candidatura para a reeleição do governador Rigotto. No Nordeste, a cúpula do PT tem interesse em apoiar a candidatura do ex-governador José Maranhão, do PMDB. E Lula até gostaria de ter como vice de sua chapa, o atual governador Jarbas Vasconcelos. Tudo por conta do apoio do PMDB à sua candidatura. Mas o PT está rachado, sendo pouco provável que a corrente majoritária consiga frear o impulso das bandas mais à esquerda. Resumo da ópera: a reeleição de Lula, antes de passar pelo crivo dos partidos aliados, depende, em primeiro lugar, da própria unidade petista. Ai está o busilis.



FHC COMEÇA A SE ENTUSIASMAR


Fernando Henrique subiu ao patamar privilegiado de “Pai da Pátria”, título conferido, graciosamente, a ex-presidentes da República. Vaidoso, gosta de ser aplaudido nos ambientes que freqüenta, a partir de restaurantes finos. Preza e preserva a liturgia do poder, que tão bem faz ao coração do ex-presidente José Sarney. Ser reconhecido como um presidente dos mais importantes na história da modernização política do país seria, por si só, o maior presente, se não fosse a “mosca azul” do poder. A ONU poderia ser o lugar para o nosso ex-presidente. Mas ultrapassou a idade para vestir o figurino do cargo de secretário-geral da entidade. A secretaria geral da OEA é coisa pequena e acaba de ser preenchida por um chileno. Ademais, FHC não contaria com o apoio político do governo Lula para um cargo que necessitasse de tal amparo. Isolar-se no seu Instituto não faz bem à alma. Dar palestras a US$ 50 mil, cada, é um bom negócio, mas o schollar pode ter prestígio internacional e até enriquecer, mas não confere poder interno. Um coração vaidoso e uma cabeça eloqüente só se locupletam com o poder máximo. FHC começa a prospectar as linhas do horizonte. Percebe que as nuvens envolvendo Aécio Neves e Geraldo Alckmin estão muito turvas. Percebe que o céu de brigadeiro em que corria o avião de Lula também começa a se tornar plúmbeo, da cor de chumbo. Fernando vaidoso Henrique risonho Cardoso enche os pulmões da identidade com um sopro de boas lembranças. Quem sabe? Passa a se perguntar. Manhoso, só subiria a montanha do desafio se visse Lula caindo no despenhadeiro da descrença.



A QUÍMICA DAS CHAPAS PRESIDENCIAIS


O Sudeste tem cerca de 44% dos votos. O Nordeste, cerca de 27%. Sul, com 15%, Norte e Centro-Oeste, com quase 7%, cada, totalizam o eleitorado brasileiro. Pelos números, a equação eleitoral ideal deveria juntar a fome eleitoral do Nordeste com a vontade de comer do Sudeste. Uma chapa assim composta teria 71% dos votos. É claro que essa formação não implica necessariamente vitória da chapa, até porque os perfis dos candidatos se sobrepõem ao regionalismo. Não há dúvida, porém, que candidatos de regiões puxam um discurso com maior identificação às suas comunidades. Dito isto, vale projetar as chapas: qualquer candidato do Sudeste – Lula, Alckmin, Aécio, FHC, César Maia, Garotinho – gostaria de fechar a chapa com um candidato nordestino. Quem estaria disponível no Nordeste e com perfil para compor uma chapa majoritária federal? Vamos lá: senador Tasso Jereissatti (PSDB-CE), governador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), senador Renan Calheiros (PMDB-AL), senador José Agripino Maia (PFL-RN), Marco Maciel (PFL-PE), Ciro Gomes (ingressando no PSB-CE – mas fazendo o percurso para o Rio de Janeiro). A Bahia de ACM está confusa. Mas não se deve eliminar as possibilidades do Norte, Sul e Centro-Oeste, onde quadros como Jefferson Peres, Pedro Simon e outros se destacam. Já para um candidato do Sul - Germano Rigotto – o vice poderia sair tanto do Sudeste como do Nordeste. Chapa pura ou mista? A chapa mista tem a vantagem de somar forças partidárias. A chapa pura só tem possibilidades de vitória quando os nomes que a compõem são nacionalmente admirados, com assento permanente na galeria da grandeza nacional.



REVISÃO DA CONSTITUIÇÃO COMEÇA A TER APOIOS


A Constituição Federal já conta com 51 emendas. E há muitas em tramitação. Ou seja, a nossa Carta Magna está ilegível. Para acompanhar a leitura de seus artigos e incisos, há um manual anexado. O caminho da compreensão está cheio de curvas e desvios. Por isso mesmo, a revisão constitucional ganha adeptos a cada dia. Projetos de revisão começam a ser examinados. Algumas questões também ganham consenso, como a preservação dos capítulos dos direitos sociais e individuais. Mas as coisas emperram quando se considera a questão da operacionalidade. Que estatutos serão adequados para aprovar, junto à sociedade, a revisão constitucional? A discussão será aberta nas próximas semanas. O Parlamento começa a se mobilizar.



O MARKETING PREVISÍVEL


A entrevista coletiva concedida por Lula permite divisar o que virá mais adiante em termos de marketing eleitoral: o marketing da exacerbação emotiva. Vamos ver novamente a invencionice do “Lula paz e amor”, das cantigas de crianças, do desfile de miseráveis, dos “feitos que mudaram o país” enfim, os velhos blábláblás. Vem aí novamente Duda Mendonça com seus estereótipos. O que ele e os petistas ainda não perceberam é que grande fatia do eleitorado lulista está indignada. Não votará mais em promessas. As esperanças foram enterradas no poço da descrença. E ninguém agüenta mais lorotas televisivas inventadas por Duda. Esse marketing – podem apostar – como o da Marta, funcionará como um bumerangue.
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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.