Sexta-feira, 22 de março de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 5

quarta-feira, 25 de maio de 2005

DEVASSA DA PF NÃO SERÁ ESCUDO

Quem pensa que a devassa que a Polícia Federal fará nos Correios será um escudo para proteger o governo Lula se engana. Não é a forma que, nesse caso, poderá ajudar o governo. É a substância, no caso, o resultado da investigação. Se as fraudes forem comprovadas, o governo não poderá dizer que não tem nada a ver com isso. Tem, sim. Afinal de contas, os nomes dos envolvidos são patrocinados por partidos, e, evidentemente, aprovados pelo governo. Se a CPI for adiante, o governo poderá ver antecipado o tom do debate eleitoral. A corrupção imantará a imagem do governo Lula. E não vai adiantar muito a propaganda mendoncista. (Duda Mendonça). O povo está vacinado. Olhem a população nas ruas de Porto Velho, Rondônia, indignada, brandindo discursos contra as autoridades. O Brasil está mudando. Mas a alavancagem cívica não vem de cima, mas de baixo, nascida nas bases sociais. Começo a enxergar um imenso buraco no meio da sociedade, que comporta o perfil de um candidato asséptico, honesto, experiente, bom de discurso, capaz de mobilizar imensos contingentes. Mais adiante, posso nomear um ou outro perfil. A questão é: quem tem bom perfil, não quer enfrentar a velha política.

AÉCIO OU GERALDO?

Há uma recorrente pergunta que me fazem: quem seria o melhor candidato tucano? Aécio Neves ou Geraldo Alckmin? Cada um tem qualidades e defeitos. Parece-me que Aécio exibe arrojo, disposição, vontade. Faz um governo exemplar, segundo se comenta, a partir do saneamento das finanças estaduais. O Estado dispõe, hoje, de uma montanha de recursos para investimentos. Ou seja, Aécio poderá usar uma ampla agenda positiva para fazer decolar sua candidatura. Mas é jovem e pode esperar a próxima eleição presidencial, na medida em que tem bem garantida a reeleição. Alckmin exibe perfil equilibrado. Tem fama de bom gerente. Mas começa uma pré-campanha errada. Os primeiros cartazes com a indicação da candidatura pregam: O Brasil precisa de um gerente. Geraldo para Presidente. Errado. O Brasil, hoje, precisa muito mais que um gerente. Precisa de um perfil iluminado pela ética, pela honestidade pessoal, comprometido com programas sociais fortes. Essa coisa de “vender”/embalar um candidato com qualificações adjetivas cheira a bolor. Ou seja, a pré-campanha de Geraldo começa errada. São Paulo está chegando aos 40 milhões de habitantes. E o que Geraldo tem a dizer ao maior contingente eleitoral do país? Certamente não é o aspecto gerencial que apresentará, na medida em que a FEBEM poderá desmontar o seu discurso. O Pacote do Bem que acaba de apresentar ao empresariado pode ser uma boa alavanca. Caso o pãozinho de final de linha consiga ter preço menor. E, mais ainda, caso o ultimo cidadão da última cidade paulista consiga identificar quem foi o paizão da idéia. Geraldo, sabe-se, não tem sistema de comunicação à altura do governo de São Paulo.Se conseguir ser ousado, determinado, firme e com programas bem claros, Alckmin poderá até avançar. Diz-se que, em se tratando de um homem de perfil tão pouco afeito a arrojos, mudar é tarefa quase impossível.

O EMPRESARIADO VAI ÀS COMPRAS

Pois é. O empresariado é muito pouco representado no Congresso Nacional. Os trabalhadores dão de 10 a zero na representação empresarial. A razão? Porque os trabalhadores organizados pensam e agem politicamente. Porque os trabalhadores, mesmo com as divisões entre contingentes – CUT, Força Sindical – conseguem eleger bancadas expressivas. A linguagem dessas bancadas atinge diretamente o estômago das massas. Os empresários, ao contrário, usam uma linguagem cifrada (com cifrões) para seus bolsos. Sabe-se que o empresariado, principalmente o pequeno empresariado, está no fundo do poço. E não tem adiantado o discurso de defesa dos micro, pequenos e médios empresários – que fazem a grandeza produtiva do Brasil. Estrangulado, cercado de impostos, tributos e muita burocracia, o empresariado pequeno começa a perder as esperanças. Essa é a razão pela qual movimentos de empresários acendem a vigilância, iniciando uma mobilização que poderá vir fortalecer a bancada empresarial na próxima legislatura. Ou seja, o empresariado está começando a perceber que vale a pena ir às compras no supermercado dos votos.

DIRCEU PEGA A TOALHA

As oposições desafiam o governo a José Dirceu pega a toalha. Vai à luta. Telefona para presidentes de partidos, fala com deputados, mostra as inconveniências de uma CPI, nesse momento, argumentando com a velha questão da governabilidade. Ou seja, na prática José Dirceu está assumindo a coordenação política do Governo. Esse será o seu maior teste. Se conseguir abortar a CPI dos Correios, receberá um abraço comovido de Lula, com a oferta: pega esse trem, que é todo seu. O trem é, claro, a coordenação política. Aldo Rebelo não vai ficar na rua da amargura. Será bem contemplado.

JEFFERSON VAI À LUTA

O deputado Roberto Jefferson, que está no centro das denúncias sobre corrupção nos Correios, não será facilmente derrubado. Usa expressão de advogado. Sabe lidar com o contraditório. Consegue juntar os contrários. Basta ver que era um candidato representante da direita, ex-trator de Collor. Hoje, orgulha-se de ser amigo de Lula e este, por sua vez, presta ampla solidariedade ao amigo. Lula cometeu um dos maiores erros de um mandatário: antecipar o julgamento. Se Jefferson for entrar no paredão, como Lula vai se explicar? O presidente se precipitou. Mas Jefferson não o deixará com a brocha na mão. Tem cacife para colocar mais gente no caso de gatos, caso a CPI vá adiante. É de esperar.

CASSOL CASSADO?

O episódio de Rondônia não ficará apenas na investigação sobre propinas cobradas pelos deputados estaduais ao governador tucano Ivo Cassol. Os deputados agirão com sentido de corpo. E ninguém quer ir para o buraco sozinho. Dizem que Cassol tem uma ficha não muito limpa, desde os tempos em que era prefeito. O Ministério Público está fazendo uma devassa geral e, a esta altura, já se começa a dizer que Cassol será cassado. A conferir.

UMA VERGONHA

A Câmara dos Deputados está parada. Uma vergonha. Atravancada por Medidas Provisórias. Faz muito tempo que não vota nada. E o que faz o rústico Severino? Atirar para todos os lados. E até barganhar. O homem não tem nenhum escrúpulo. Diz o que quer para quem não quer ouvir. Cobra o que deseja para quem não quer abrir mão do que tem. Severino é a ponta de lança da política como escada para o favorecimento pessoal. Trata-se do perfil, por excelência, do coronel da política da República Velha. O pior é que ele se acha isso mesmo.
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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.