Domingo, 26 de maio de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 265

quarta-feira, 16 de março de 2011

D’água ! D’água !

Historinha dos tempos de chumbo !

Newton Coumbre, pernambucano atrevido, passava em frente ao quartel de Obuzes de Olinda, logo depois do golpe de 64, levando uma bomba d’água enrolada em jornal. Dois sentinelas, fuzis em punho, avançaram sobre ele, aos tapas e pontapés :

- O que é isso ?

- D’água ! D’água !

Mandaram jogar o embrulho no chão e levaram-no até o coronel :

- O que é que tem no embrulho ?

- Uma bomba d’água.

- Por que não disse logo e ficou dizendo "d’água" ?

- Coronel, eu dizendo só "d’água" eles me bateram tanto, se dissesse "bomba" teriam me fuzilado.

Com a verve de Sebastião Nery.

Obama no Rio

Pois é, o presidente Barack Obama falará aos brasileiros na Cinelândia, no Rio, que já foi palco de grandes manifestações libertárias. O local foi escolhido pela segurança do mais poderoso governante do mundo. Mas só terão acesso à praça pessoas com documento e sem bolsa. Ou seja, sem nada que possa causar desconfiança. O discurso de Obama será traduzido. Portanto, haverá uma boa pausa entre as frases. O que dará chance para Obama pensar e exprimir com mais calma perorações de efeito. Se não abrigar novidade, o discurso valerá apenas pelo efeito visual, estético. A semântica será usada nos ambientes mais estreitos de Brasília.

Kassab e o PDB

O prefeito Gilberto Kassab vai criar o Partido da Democracia Brasileira e dar a ele uma vida útil. A fusão com o PSB ou com o PMDB ficará para mais tarde. E, se o partido colher uma boa safra no pleito de 2012, terá condições de abrir horizontes e iniciar uma trajetória político/eleitoral. Tudo vai depender dos resultados da safra eleitoral. O PSB foi bastante questionado por membros importantes do partido, que discordaram da estratégia de fusão, defendida pelo presidente Eduardo Campos. E Kassab, por sua vez, tem dito a este consultor que quer experimentar vida nova em nova sigla. O PMDB continua a nutrir esperanças de ter o prefeito em sua casa, mas está pisando na realidade. Sabe que a migração é coisa cada vez mais difícil.

Axioma positivo I

"Ajuste seu fim aos seus meios. Uma visão clara e um raciocínio frio devem prevalecer por ocasião da escolha do objetivo da guerra. É loucura querer "abocanhar mais do que se pode mastigar" e é uma prova de sabedoria analisar os fatos friamente, embora sem perder o otimismo : a fé pode realizar o aparentemente impossível quando a ação for iniciada".

PMDB paciente

O PMDB começa a jogar no tabuleiro com as pedras que o governo Dilma lhe joga. Administra a pressão de suas bases por cargos e espaços com paciência. Já não se angustia. Demonstra jogo de cintura. Se o governo não aceita, por exemplo, nomear alguns políticos do partido para cargos técnicos, o que fazer ? O PMDB não imporá. Estão à espera de perfis como o de Geddel Vieira Lima e José Maranhão. Geddel tem mais chances que Maranhão de figurar na Diretoria da Caixa Econômica, apesar da pressão contrária do governador Jaques Wagner. O partido decidiu aguentar o fogo brando que a presidente passou para a alçada do ministro Palocci.

DEM procura rumos

O DEM arruma a casa, agora sob o comando do senador José Agripino Maia. Conseguiu sustar a intenção de quadros que já começavam a arrumar as malas, como Marco Maciel, Raimundo Colombo, Kátia Abreu, etc. Mas o partido, convenhamos, está debilitado. Sem força para fazer oposição. Bancada enxuta, discurso frouxo, desmotivação das bases, estiolado, fragmentado. Zé Agripino tem fala franca, densa e direta. Mas falta-lhe a base para os avanços do partido. Deverá fazer campanha de mobilização pelo país e atrair novos quadros. Tarefa complexa, eis que o DEM vive processo de descrédito. Exauriu-se no tempo.

Arrumando as bases

Cândido Vaccarezza, líder do Governo na Câmara, encontrou as bases governistas muito angustiadas. Com bons modos, fala mansa e ouvidos atentos, está acalmando os ânimos e conseguindo expressivas vitórias para o governo Dilma.

Conselhão

O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social tem por missão debater políticas públicas e oferecer rotas e caminhos para o país. Nesse sentido, é uma ferramenta de produção de políticas e estratégias. O Ministério de Assuntos Estratégicos é um ente que trabalha na mesma direção. Sua missão é a de pensar o Brasil. Definir rumos. Escolher alternativas. Pela lógica, as redundâncias acabam contribuindo para expansão do Custo Brasil. Por que não deixar esse Conselhão sob a égide do Ministério ? Por que duas estruturas assemelhadas ? O PT, pelo visto, não quer essa fusão porque implicaria mais força ao PMDB. Que bobagem. A César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Se a formulação de políticas está na alçada do Ministério, nada mais lógico que reúna os sistemas com a mesma identidade.

Bomba contra a Fiat !

A Venice Veículos e Peças Ltda., concessionária Fiat mais antiga do Brasil, que teve seu contrato rompido, contratou o escritório do presidente da OAB/SP, Luiz Flávio Borges D'Urso, para processar criminalmente o presidente da Fiat, sr. Cledorvino Belini, por crime contra a honra. O inquérito policial já instaurado pela Venice também investiga concorrência desleal e cartel.

Distritão e o voto em lista

Distritão ou voto em lista ? Essas duas alternativas podem ser aproveitadas pela Comissão que estuda a Reforma Política. Hoje, há fortes defensores das duas alas. Na esteira do Distritão, serão eleitos os mais votados dentro das cotas que caberão aos partidos nos Estados. Na fila do voto em lista, serão eleitos os mais votados na lista (de cima para baixo) que o partido estabelecerá. O Distritão teria o apoio de forte corrente dentro do PMDB e o voto em lista contaria com a simpatia do PT.

Apanha-se por gosto

Uma professora do Pará requereu licença-gravidez para o parto do quinto filho. O governador Magalhães Barata mandou investigar, soube que ela tinha votado com a oposição. Pegou o processo, deu o despacho : "Indeferido. Nego a licença. Gravidez não é doença. Apanha-se por gosto."

Grana para as campanhas

Financiamento público de campanha, esse parece ser o consenso isolado dentro da Reforma Política.

Guerra na arena judiciária

Os nervos estão à flor da pele na esfera dos operadores do Direito. A OAB nacional faz mobilização, dia 21 de março, em defesa do CNJ, por entender que ele sofre esvaziamento por parte do STF. A campanha da OAB causa má impressão no Supremo. Alguns ministros manifestam intensa indignação contra a campanha. O presidente da Ordem, Ophir Cavalcanti, argumenta que o objetivo do movimento é o de contribuir com a transparência do Judiciário. O presidente da AMB, desembargador Nelson Calandra, contesta as críticas da OAB ao CNJ e recebe apoio de associações de magistrados dos Estados. Wadih Damous, presidente da OAB/RJ, defende a campanha da OAB, sob o argumento de que o país precisa ter um Judiciário mais próximo da sociedade. Os ânimos estão acirrados. Mas é preocupante ver operadores do Direito digladiando-se na arena.

Axioma positivo II

"Conserve seu objeto sempre em mente quando tiver que adaptar seu plano "à situação". Recorde que existe mais de um caminho para atingir seu objetivo, mas lembre-se de que qualquer objetivo a ser conquistado deve estar relacionado com seu objetivo".

Contaminação

Autoridade de Segurança Nuclear da França (ASN) informa que as explosões ocorridas na central japonesa de Fukushima Daiichi atingiram o nível seis de gravidade em uma escala internacional que vai até sete. O Japão, até o momento, classificou os acidentes em nível quatro. A tragédia japonesa, que poderá ainda mais se agravar com a contaminação nuclear, servirá de parâmetro para avaliação da energia nuclear. No Brasil, a meta é a de implantação da Usina Angra 3. Que deverá passar por nova lupa.

Crise mundial ?

Há alguns formuladores que projetam a tragédia japonesa no cenário mundial, considerando que a máquina produtiva da terceira potência gerará impasses e dificuldades em cadeia, podendo chegar ao Brasil. A Sony já suspendeu a operação de 10 fábricas. A Toyota, maior montadora do mundo, também mandou parar atividades nas 12 unidades que tem no país. Como se sabe, autopeças, automóveis e material eletrônico predominam na pauta de vendas do Japão para o Brasil.

Axioma positivo III

Escolha a linha (ou curso de ação) de menor expectativa. Procure colocar-se no lugar do inimigo e verificar qual a linha de ação menos provável a ser prevista ou prevenida.

O futuro da previdência

O Ministério da Previdência faz seminário, hoje e amanhã, em Brasília para debater e avaliar o futuro da previdência. Conferencistas de calibres importantes serão convidados a discorrer sobre o tema. Este consultor coordenará o último painel, na quinta-feira, às 14h30, que será dedicado ao panorama da Previdência internacional.

Os amigos, os amigos

Antonio Balbino, governador da Bahia, ex-ministro, perguntou a Agamenon Magalhães, governador de Pernambuco na ditadura Vargas, que receita ele dava para uma boa administração. No começo do governo preocupe-se com você mesmo : com as características de seu programa e as possibilidades de executá-lo. No meio do governo, preocupe-se com os inimigos : com o que eles dizem, para corrigir os erros. No fim do governo, preocupe-se com seus amigos : com o que eles quiserem, para que não levem você a sair do governo deixando uma má impressão.

Rossano ou Falco ?

Não é verdade que o governo deu espaço aberto para Rossano Maranhão decidir quando poderá assumir a Secretaria de Aviação Civil. Se ele demorar mais, o segundo nome é o de Luiz Eduardo Falco, que já foi da TAM e hoje preside a Oi. Marcio Fortes, ex-ministro das Cidades, poderá ir para o Eximbank, banco de apoio às exportações.

Sem falta de Lula

O governo Dilma vai completar 100 dias. Pois bem, até o momento a ausência de Dilma, se foi percebida, não é objeto de lamentações. Lula cumpre sua agenda de conferencista, embolsando um bom dinheiro, mais que Fernando Henrique cobra por palestra e, claro, bem menos que Bill Clinton. Lula aproveita bem o estoque de carisma.

Onde estão os quadros ?

Este consultor tem conversado bastante com importantes figuras da República. Gente respeitada e respeitável. E tem ouvido deles queixas do tipo : há falta de bons quadros técnicos nos partidos. Há políticos que precisam de escada para voltar a subir. Desses, o país está locupletado. Mas os quadros técnicos são raros. Procuram-se com lupa apurada.

Partido novo ? Essa é velha

Um grupo de 181 pessoas, muitos executivos de empresas do Rio de Janeiro, quer criar o Partido Novo, que reuniria empresários. Dizem que Eike Batista estaria por trás do empreendimento. Não é crível. Eike gosta de coisas mais palatáveis. Partido de empresários, no Brasil, é uma velha piada.

Os bois e o eixo da roda

Uns bois puxavam um carro. Como o eixo da roda rangia, eles, voltando-se, assim falaram para ele : "Ó meu camarada, nós é que carregamos toda a carga, e tu é que chias ?". Assim também certos indivíduos : enquanto os outros trabalham, eles se fingem de fatigados. (Fábulas de Esopo).

Conselho ao novo comando do DEM

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos organizadores da Copa. Hoje, volta sua atenção ao novo comando do DEM :

1. O DEM precisa renascer das cinzas. Para tanto, precisa voltar às ruas das pequenas e médias cidades do interiorzão do país e sair de lá para os grandes centros com uma baciada apreciável de votos.

2. Para ganhar a confiança do eleitorado das pequenas e médias cidades, o partido haverá de calçar as sandálias da humildade, arrumar um discurso crível e atrair novos grupamentos.

3. O DEM se diz fiel escudeiro do discurso liberal no país. Em que consiste esse discurso ? Qual a proposta que tem para dimensionar o tamanho do Estado ? O que deve ficar nas mãos do Estado e o que deve ser privatizado ?

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.