Terça-feira, 23 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 9

quarta-feira, 22 de junho de 2005

O PMDB VAI OU NÃO VAI?

O PMDB só topará aumentar o espaço no governo, caso as seguintes condições estejam garantidas: 1. o projeto do partido de candidatura própria à presidência deve ser preservado; 2. ministérios devem ser discutidos com o partido, em termos institucionais, não por via de patrocínios individuais, lendo-se aí os nomes de José Sarney e Renan Calheiros; 3. o PMDB não aceita a condição de "amante", convocada apenas em momentos especiais. Ou seja, o partido só toparia aumentar o espaço, caso a governabilidade passasse a ser discutida com ele, PMDB, significando participação no centro decisório; 4. os perfis técnicos se sobrepõem aos perfis políticos na indicação para ministérios; 5. tais condições deverão ser aprovadas pelas duas alas do partido, com voto decisivo dos 7 governadores.


UM POR TODOS, TODOS POR UM

A cúpula do PT decidiu fechar questão em torno da defesa de Delúbio, Silvio Pereira e Marcelo Sereno. Todos por um, um por todos. O sacrifício de um ou dois significaria a aceitação pública de culpa. Por isso, o partido formará um escudo de proteção coletiva. Conclusão a que se chega: Delúbio, Silvio e Marcelo só faziam o que a cúpula aprovava. José Dirceu, a se confirmar a enfática declaração de Roberto Jefferson, dava a palavra final. Dirceu disse uma vez: faço tudo combinado com o presidente Lula. A ser verdade, tira-se a conclusão: Lula sabia de tudo. E por que preservar a figura do presidente? Por questão de conveniência política. É estratégia de guerra. E guerra indireta, como as clássicas. É importante deixar Lula no governo. Vale comer pelas bordas. Fazer guerra de guerrilha. Corroer a imagem do governo até as eleições. Ganhar no voto. Esse é o jogo de interesses das oposições. Se Lula caísse, seria um deus-nos-acuda. Todos perderiam. 


OS FIOS DO ROLO

O rolo começa a ser desfiado. Previsão sobre as CPIs e investigação a cargo do Conselho de Ética e Corregedoria da Câmara: 1. profusão de denúncias e conseqüente canibalização recíproca, ou seja, a fumaça será tanta que o fogo central ficará em segundo plano. 2. questões secundárias deverão atenuar o impacto de questões centrais; 3. questões pessoais se agigantarão em detrimento de questões político-institucionais; 4. o "imbróglio" poderá gerar impasses; 5. a Câmara não tem vocação suicida – não haverá cassação de 80 pessoas, conforme prevê Jefferson; 5. a CPI dos Correios descambará no mensalão; 6. a situação mais perigosa, hoje, é a do deputado José Janene, líder do PP, sobre quem se acumulam denúncias.


APPROBATO INDIGNADO


O ex-presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, Rubens Approbato Machado, fez, possivelmente, a mais contundente peroração de sua vida na família forense, que já ultrapassa os 50 anos. Na segunda feira, por ocasião da Reunião do Conselho, Rubens mostrou toda a sua indignação contra a virulência da Polícia Federal na invasão de escritórios de advocacia, dizendo que viu muita arbitrariedade, desde os tempos da ditadura de Getúlio Vargas. Mas nada se compara aos tempos atuais, tempos em que o Brasil tem um presidente de origem popular e- pasmem – um ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, que já presidiu tanto o Conselho Federal da OAB quanto a Seccional Paulista. Resumo: os tempos de Lula e Bastos são mais virulentos e arbitrários que os tempos getulianos ou os anos pesados de chumbo dos militares. É difícil entender? Não. Muito fácil. O governo do PT gosta de pirotecnia. Trata-se de um governo que privilegia a forma em detrimento do conteúdo. É cosmética pura.Panis et circensis? Também, não. Falta pão e o circo nem trapézio tem.


ESSA COISA DE "GOLPE DAS ELITES"

Dizer que está em andamento um "golpe das elites" é a mais rematada bobagem que já li nesses tempos de extravagância petista. Lição para José Dirceu, José Genoino e adjacências: elite é uma minoria que detém o poder, em detrimento de uma maioria que dele se priva; uma classe superior que detém o poder político e o poder econômico.Simples, não? Pois bem: Lula é o presidente. O PT é o partido do governo e no governo. Conclusão: Lula e o PT detêm o poder político. O poder econômico nunca foi tão privilegiado como neste governo petista. Os bancos ganham montanhas de dinheiro. E o fator gerador é a política econômica de Palocci. Conclusão: poder econômico e poder político estão de mãos dadas. De onde vem esse golpismo? Quanta besteira, meu Deus! E ainda há pseudos analistas e políticos desmiolados que berram tal baboseira. Será o eco retardado da expressão chavista (o Chavez da vizinha Venezuela)?


FREIRAS E VESTAIS

Chamou a atenção o puxão de orelhas que Roberto Jefferson deu nos jornalistas que o entrevistaram no programa Roda Viva, da TV Cultura. Foi um dos melhores momentos da entrevista. Alguns deles passavam a impressão de que o estado de corrupção no país era algo absolutamente inédito. Escandalizados, faziam perguntas de como isso poderia ocorrer. Depois do puxão de orelhas – quando o deputado comparou-os a freiras de um convento – alguns procuraram se justificar dizendo que sua função era a de perguntar e a do deputado, a de responder. Ora, o foco jornalístico deveria ser para o como e não para o quê. Ou seja, os entrevistadores poderiam ter usado melhor seu tempo para saber como as coisas eram feitas, outros nomes do esquema, endereços, dias, horas, circunstâncias etc. A preocupação maior, porém, era a de "pegar" o deputado, flagrando alguma contradição.Isso até poderia balizar algumas perguntas, mas não deveria ser o foco central. Afinal, o pacote de denúncias de Jefferson, por si só, merece um esquadrinhamento. Outra inconveniência: as perguntas nem eram bem respondidas pelo deputado e já apareciam outras. As coisas foram ficando pela metade.


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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.