Segunda-feira, 19 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 349

quarta-feira, 6 de março de 2013

Enxergando tudo verde

Os cientistas envolvidos com o estudo da agropecuária garantem que o gado bovino somente visualiza uma cor, a escura. Mas o fazendeiro (falecido) Honorim Medeiros, da Fazenda Pedra do Sino, em Caicó, não foi na conversa e, com o respaldo do seu próprio rebanho, jogou por terra a tese dos doutores em zootecnia. Foi na seca dos anos 50. Exauridos todos os recursos de pastagem, o gado rejeitava os restos do capim seco, duro, esturricado, preferindo apenas a torta de algodão, verdinha, fresquinha, ótimo sabor. Honorim vivia preocupadíssimo, aperreado, sem mais saber o que fazer :

- Tô lascado, desse jeito vou alisar !

Matutou, matutou, e, criativo, bolou a ideia genial. Foi até a Paribana, casa comercial do amigo Antonio da Viola e fez uma inflacionada compra, deixando o comerciante boquiaberto :

- Tem óculos de carnaval ? Pois então me dá todo o estoque, todos da cor verde (antigamente, eram comuns os óculos de plástico, com alças de elásticos, usados exclusivamente no período momesco).

O fazendeiro levou-os para a Pedra do Sino e fantasiou o rebanho. Na volta à cidade, o amigo quer saber dos resultados :

- Como é Honorim, deu certo ?

O fazendeiro abriu um sorriso de orelha a orelha e deu a nova :

- Mas, home, é um milagre. O gado tá comendo até as cercas e os mourões das porteiras !

(Quem conta em Segura Essa é Orlando Rodrigues)

O diabo se prepara

A presidente Dilma começa a lubrificar as armas do seu arsenal. A partir da linguagem, equipamento pesado em uma campanha. Nesta semana, na Paraíba, deu mostras de que vai atirar forte : "podemos fazer o diabo na hora da eleição, mas, no exercício do mandato, temos que nos respeitar, pois fomos eleitos pelo voto direto". A presidente, mesmo sem querer usar a linguagem de campanha, na verdade já está disparando chumbo grosso. O alvo é Aécio Neves, o tucano que começa a atirar no governo, com estilhaços atingindo Eduardo Campos, o governador pernambucano que, por enquanto, permanece na base governista. O verbo mais popular de Dilma é inspirado na verve de Lula.

Eliot

"Somente aqueles que se arriscam ir longe são capazes de saber até onde podem chegar". T.S. Eliot

Danos ao país

A campanha antecipada ocasionará sérios danos ao país, pois as agendas serão embasadas pelo espírito eleitoral. Prioridades se invertem. As ações governativas são atropeladas pelo marketing eleitoreiro. Dos quatro eventuais candidatos, apenas a ambientalista ex-senadora Marina Silva está mais contida. Aécio começa a despejar suas baterias. Eduardo Campos bate forte na tecla do pequeno crescimento e acena para os sindicalistas. E a presidente Dilma começa a correr o país. Sob o empuxo do comandante Luiz Inácio.

Vinícius

"A vida é a arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida...". "Viver é Amar". "Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure". Vinicius de Moraes, o poetinha.

É muito cedo, porém...

É muito cedo para desenhar cenários. Mas nada impede que tentemos uma expressão sobre potenciais de eventuais candidaturas. É pouco provável a aliança entre Aécio Neves e Eduardo Campos, como muitos defendem. Entre esses muitos, estão tucanos interessados em colocar o governador de PE na chapa do mineiro, como vice, e oposicionistas que sonham em destronar o petismo/Lula/Dilma do poder central. Pois bem, é pouco provável uma aliança entre ambos. Porque já fizeram as contas e chegaram à conclusão de que, separados, terão melhores condições de empurrar a eleição para o segundo turno. Os dois e mais os votos de Marina Silva poderiam tirar a vitória do governismo no primeiro turno.

Millôr

A palavra bem humorada de Millôr Fernandes : "o preço da fidelidade é a eterna vigilância". "O cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria prima". "Eu sei do que estou falando. Tirando isso, não sei mais nada". "O dinheiro não é tudo. Tudo é a falta de dinheiro". "Às vezes, você está discutindo com um imbecil... e ele também". "O Brasil ? Ah, está condenado à esperança".

Fatores de cada um

Dilma contará com o fortalecimento dos bolsões sociais (garantia de estômago satisfeito) e melhoria nos patamares de crescimento. Algo em torno de 3% a 3,5% de crescimento em 2013/2014 seria suficiente para garantir a continuidade. Enquanto a equação do voto for garantida (bolso, estômago, coração, cabeça), a posição de nossa mandatária-mor não será ameaçada. Aécio Neves seria elevado em cenário de destroço econômico, significando crescimento zero, desemprego em massa, inflação em alta, clima de instabilidade geral. Ademais, carece de um discurso convincente, denso, capaz de mobilizar e animar os contingentes eleitorais. Se ficar apenas no diagnóstico – coisa comum entre os tucanos – ficará defasado. Deve ainda ter cuidado com a artilharia de críticas que baterá nos costados pessoais.

O novo, o charmoso

Eduardo Campos apresenta grande potencial de crescimento. Principalmente se ganhar bom espaço midiático, a partir das alianças. Quem o conhece sabe que não encarna o perfil da inovação, da modernidade (trata-se de um herdeiro do coronel Arraes), mas, pela boa apresentação pessoal, pode vir a ser considerado o de maior assepsia política. O fato de não ser conhecido garantirá boa penetração e avaliação junto a segmentos mais jovens. Mas o PSB não tem palanques abertos no Sudeste e no Sul, regiões de alta densidade eleitoral. Por isso mesmo, procurará se ancorar na fosforescência midiática. Claro, em cenário de baixo crescimento e deterioração econômica. Já Marina Silva terá um eleitorado fiel, mais orgânico e com apoio em setores bem organizados nas frentes sociais. Encarnará o conceito de renovação/depuração.

Chico

"Saudade é o revés de um parto. Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu". Chico Buarque nos brinda com Saudade, palavra que só a beleza poética da língua portuguesa conhece.

O sindicalismo de oportunidades

Nunca o sindicalismo brasileiro ganhou tanta oportunidade para se expandir e fortalecer quanto nesses tempos comandados pelo PT. Pois bem, o petismo fez subir às alturas não apenas a bandeira da CUT, mas as flâmulas de todas as Centrais. Que recebem uma fortuna para fazer pressão (causar má impressão), barganhar e ganhar espaços na administração federal. Vamos lá : o sindicalismo tomou conta da área do trabalho. É quem dá as cartas. Mas se mostra frequentemente contra o governo do qual faz parte. Ou seja, faz oposição a ele mesmo. Jogo inteligente, não ? (Quem não se lembra do Lula presidente reverberando contra o governo que ele mesmo comandava ?)

Bandeiras sindicais

O que defendem as Centrais Sindicais ? Algumas questões são bastante concretas : redução da jornada de trabalho, fim do fator previdenciário, reforma agrária (apesar da polêmica e divisões de abordagens que o tema sugere), ratificação da Convenção da OIT que impede demissão imotivada e regulamentação de outra Convenção que estabelece negociação coletiva no serviço público. Outras propostas descambam para o terreno do discurso mais abrangente, distanciando-se de posições fechadas, como igualdade de oportunidades para homens e mulheres, valorização dos aposentados, etc.

E o ministério, hein ?

Veja-se o Ministério do Trabalho. Foi entregue ao deputado Brizola Neto, um bom perfil, do PDT gaúcho, endossado pela Força Sindical, comandada pelo deputado Paulinho (PDT/SP). O PDT é um partido rachado. O comando é do ex-ministro Carlos Lupi. Brizola quer apagar os vestígios por ele deixados na pasta. Lupi, que faz parte da base governista, tenta resistir. O sindicalismo organiza grande passeata em Brasília para pressionar o governo. O PDT ameaça uma greve geral nos portos. Tudo por conta da MP que cassa a autonomia dos Estados em relação aos portos, tirando o poder do Órgão Gestor de Mão de Obra, enquanto os sindicalistas defendem a continuidade dessa autonomia. Tal prerrogativa passaria a ser da União.

Campos na jogada

Eduardo Campos entra nessa onda e defende a autonomia estadual. Paulinho da Força, que integra a base governista, alia-se ao governador de PE, e atira forte contra o governo. O samba do crioulo doido se completa quando se sabe que o ministro dos Portos, Leônidas Cristino, pertence aos quadros do PSB, tendo sido indicado pelos irmãos Gomes (Cid e Ciro), do CE. E assim caminha o Brasil... !

PMDB e PT nos Estados

PMDB e PT intentam apresentar candidatos ao governo em todos os Estados da Federação. Essa é a estratégia de adensamento do poder. Mais governadores implicarão mais deputados Federais, mais senadores, mais prefeitos e vereadores. Alongamento do ciclo do poder partidário. Mas é possível que, em alguns Estados, haja recuo de um e de outro parceiro para amparar a aliança.

No Rio

Pezão, pelo PMDB, e Lindberg, pelo PT, irão às urnas. Sem chance de parceria PT/PMDB. O PMDB do Rio ameaça não apoiar Dilma. Este consultor não crê na hipótese de Cabral vir a apoiar Aécio Neves.

No RS

Diz-se que Tarso Genro, o governador, quer ser candidato a senador. Não quer administrar um Estado sem recursos. A senadora do PP, Ana Amélia, é forte candidata ao governo. Beto Albuquerque, o líder do PSB de Eduardo Campos, também é candidato.

Em SC

Raimundo Colombo, do PSD de Kassab, é candidato à reeleição. Os tucanos deverão ir com o senador Paulo Bauer, enquanto Ângela Amin será candidata ao Senado.

Em MG

O PT deverá fechar posição em torno do ministro Fernando Pimentel, enquanto Clésio Andrade tentará ser o candidato do PMDB. Newton Cardoso, o deputado e ex-governador, será candidato ao Senado pelo PMDB.

Em PE

Todos apostam na ficha do ministro Fernando Bezerra, como candidato do governador Eduardo Campos.

No RN

Uma incógnita : o senador Garibaldi Alves, muito bem avaliado como ministro, toparia voltar ao governo ? Este consultor acredita que não. E o seu filho, Walter Alves, deputado estadual ? Já tem idade para ser candidato (32 anos), mas aconselham-no a pegar mais experiência. E o presidente da Câmara, Henrique Alves ? Mais uma incógnita.

Garrote e garoto

Voz melosa como poucos, o professor Gumercindo Amorim era mestre em português, lecionando nas escolas em Currais Novos, onde gozava de grande prestígio. Como locutor de rádio, na Brejuí, vez ou outra escorregava :

- Atenção, garrote perdido. Procura-se um garrote trajando calça curta azul marinho, camisa de algodão, branca, conga azul com meias brancas, cabelo busca pé, aproximadamente 10 anos de idade. Quem souber do paradeiro, favor informar aqui na Brejuí ou na residência dos pais do mesmo na Avenida Desembargador Tomaz Salustino, que será bem gratificado.

O sonoplasta, que também redigia os avisos para a leitura dos locutores, percebeu o trocadilho e sinalizou. Sem perder a compostura, eis de novo Gumercindo :

- Mais uma vez, atenção. Retificando o aviso lido há pouco. Onde se lê garrote, leia-se ga-ro-to !

(Essa é também de Orlando Rodrigues)

Conselho às Centrais Sindicais

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos aos gurus do PT, Lula, e do PSDB, FHC. Hoje, dedica sua atenção às Centrais Sindicais :

1. O movimento sindicalista faz parte de uma sociedade democrática. Mas o sindicalismo não pode e não deve dormir eternamente nos cobertores do Estado.

2. É importante saber o que reivindicar, o que defender, o que propor. É irresponsável defender uma agenda que não condiz com as sensíveis economias da contemporaneidade.

3. É preciso saber recuar e não apenas fustigar as instituições. O mundo atual cultiva os valores da racionalidade, flexibilidade, diálogo, contemporização, respeito à ordem constituída. Tentem zelar por este escopo.

____________

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.