Terça-feira, 26 de março de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 28

quarta-feira, 9 de novembro de 2005


LULANDO 1

O presidente da República, mais uma vez, demonstrou sua capacidade de lular na crise, ou seja, desfilar nos palanques da política sem atentar para os apupos da platéia. Sua entrevista no Roda Viva foi uma peça no ideário do Narcisismo de Estado. Lula acredita na mentira que, há tempos, procura ele mesmo internalizar no seu sistema cognitivo. Acaba acreditando na realidade do falso retrato que propõe à admiração das massas, desde o primeiro momento em que subiu ao podium do poder central. Mergulhando em autocontemplação, chega, pasmem, a dizer que nada está comprovado em relação a Waldomiro Diniz, mesmo depois de o país ter presenciado, em take de TV, o assessor de José Dirceu recebendo propina.

LULANDO 2

Uma questão de lógica: primeiro, Lula proclama, na Europa, na célebre entrevista parisiense, que o Caixa 2 é coisa comum na cultura política nacional. Foi um modo de inocentar o seu partido. Ou seja, o PT fez o que todos os partidos fazem. Agora, o presidente diz que o Caixa 2 é condenável. E ante a evidência de uso do Caixa 2 - pagamento de Duda Mendonça no exterior, dinheiro tirado de estatais etc - o presidente prossegue lulando, ou seja
, surfando na crise, quando faz a peroração : não tem nada a ver com Duda, não está provado que o PT usou recursos não contabilizados - coisa que o próprio Delúbio ("o nosso Delúbio", na expressão do presidente) reconhece. A lógica de Lula é a mesma que inspirava o marechal Idi Amin Dada, que se autonomeou Imperador de Ghana e que falava constantemente com Deus. Quando lhe era indagado quantas vezes realizava esse encontro, o ex-cabo do exército britânico dizia solene : "tantas vezes quando se fizer necessário".

LULANDO 3


Pois é, o verbo lular entrou na química do presidente Bush e verbo bushar fez o caminho de volta em direção a Lula. Os dois verbos se encontraram nos corações de dois presidentes aflitos. Ambos cozinham seus pratos na fogueira da crise. O mais direitista dos presidentes norte-americanos da contemporaneidade, ícone das teses mais conservadora
s
- e das causas das elites - e perfil de vanguarda da linha dura mundial, é o queridinho do presidente que se arvora defensor dos interesses dos mais necessitados da Humanidade. E vice-versa. Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia....!

EXCESSO LITÚRGICO E CORTESIA

É claro que o presidente deve preservar a liturgia do cargo. Mas o palavreado usado pelo presidente quando está em palanque destoa. Metáforas e cacoetes de linguagem adoçam seus lábios. Agora, para dar uma entrevista, do tipo coletiva, o presidente fica mais engalanado do que pavão entrando num salão de festas de Lu
ís XIV. Brasão da República, de um lado, bandeira brasileira, de outro, jornalistas fazendo reverências em semicírculo, davam à cena um ar de solenidade improvisada dos tempos das velhas Republiquetas da América Latina. O ar solene, o clima de coisa sagrada, não combinava com a falta de Ss dos finais de palavras. E algumas perguntas mais pareciam sair dos bufões da corte dos Luíses. Temos, porém, de reconhecer o brio de Heródoto Barbeiro e Augusto Nunes.

O AVIÃO DE COLNAGHI

Se o próprio ex-presidente do PT, José Genoino, garante que viajou para Ribeirão Preto, ao lado do ministro Antonio Palocci, em um jatinho de Roberto Conalghi, o mesmo que cedeu a aeronave para transporte de "três caixas"
( dólares ou rum ?) de Brasília para São Paulo, por que o ministro da Fazenda insiste em negar ter usado a aeronave ? Blindar Palocci até faz sentido, mas com mentiras tão deslavadas, ah, isso não.

QUE BEBIDA CARA
!

Eis a pergunta
: se era bebida mesmo o que havia nas três caixas trazidas de Brasília para São Paulo por Vladimir Poletto, ex-assessor de Palocci, por que o proprietário da iguaria iria usar um avião de um amigo do ministro da Fazenda para transportar algo que poderia ser comprado mais barato em São Paulo do que nos supermercados de Brasília ? Mais ainda : por que cargas d'água, Poletto quis desembarcar noaeroporto dos Amarais, em Campinas, em vez de Viracopos, como estava programado ?

O LIXO NA BOCA DA CORRUPÇÃO

O Ministério Público do Estado de São Paulo quer saber porque a Prefeitura Municipal dispensou a licitação na contratação de serviços de varrição para a capital pela segunda vez via contrato emergencial. Os contratos têm duração até abril de 2006, com um valor total de R$ 122 milhões, sendo realizados com a maioria das empresas suspeitas de irregularidades na gestão de Marta Suplicy. Há quem suspeite de que as coisas estão sendo encomendadas para beneficiar o mesmo grupo que faz a varrição. O lixo continua na boca da corrupção.

O VICE DE LULA

Se Lula quer um perfil do PMDB para compor sua chapa, como vice, vai ter de fazer muito esforço. O partido terá, tudo indica, candidato próprio à presidência da República. O ex-governador Garotinho, com tempo e dinheiro, está correndo o Brasil semeando sua candidatura à presidente. O governador Germano Rigotto, do RS, também é pré-candidato.
O presidente Michel Temer não arreda pé da candidatura própria. E para complicar a vida de Lula, até o momento, continua a valer a verticalização. Que inviabiliza a hipótese de acerto entre PMDB e PT.

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A coluna Porandubas Políticas, integrante do site Migalhas (www.migalhas.com.br), é assinada pelo respeitado jornalista Gaudêncio Torquato, e atualizada semanalmente com as mais exclusivas informações do cenário político nacional.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.