Sexta-feira, 22 de março de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 35

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006


LULA CAPENGANDO


A entrevista de Lula, no último Fantástico da TV Globo, foi um show pirotécnico. Pedro Bial agiu como repórter. Incisivo, não se conformou com as respostas em fuga do presidente. O que ali se viu foi um entrevistado acossado, evasivo, atordoado e – ficou visível – com um olhar de extrema surpresa e medo. Não tinha respostas diretas. Sofismou. O ponto culminante e hilário foi quando disse que não sabe o que se faz no andar de baixo do Palácio do Planalto e nos Ministérios. Lula, até visualmente, pareceu um dândi perdido na escuridão.

LULA VAI PARA A REELEIÇÃO

Mas é claro que Lula será candidato à reeleição. A não ser que novas denúncias cheguem perto do coração presidencial. O PT não tem outro perfil à altura de Lula. Sangrando, o partido ainda pode sonhar com o futuro. E o futuro passa por Lula reeleito. Será difícil, mas em política não existe regra impossível. Lula será fortemente pressionado a aceitar. O que faz, hoje, é jogo de cena. Se confirmar, agora, a candidatura, antecipa o final de governo. E aumentará o cacife de aliados reais e potenciais.

TOMA-LÁ-DÁ-CÁ

A gigantesca pizza que está se formando no ambiente das CPIs tem como matéria prima a troca de favores. O PT se compromete a salvar parlamentares de outros partidos se os seus quadros também forem salvos. Dos 10 a 15 nomes com perspectiva de serem cassados, calcula-se que quase todos poderão sair ilesos. Osmar Serraglio, o relator da CPI dos Correios, já começa a acreditar que seu relatório não terá efeitos drásticos.

DIRCEU NO CALVÁRIO

A mídia dá conta da peregrinação gastro-etílico-comemorativa do ex-todo poderoso ministro José Dirceu em Betharram (França), nas cercanias dos Pirineus, recepcionado pelo romancista Paulo Coelho, autor idolatrado pela aura mística de livros vendidos em todo o mundo. Até uma feiticeira (que mora na floresta das vizinhanças) esteve presente ao rebu organizado para receber Dirceu. O ex-deputado fez questão de passar (e rezar) pelas 13 estações do Calvário, dedicando um pouco mais de tempo ao lugar da traição de Judas. R$ 1 para quem adivinhar o nome da pessoa que, nesse momento, agitou e lembrança de Dirceu.

DIRCEU NO SABÁTICO

Uma pequena informação, no pé de página, chama a atenção. Dirceu diz que curtirá dois anos sabáticos (ou seja, de férias continuadas). Como vai se sustentar ? Resposta : tem dinheiro guardado, além da proposta de um jornal carioca, que lhe ofereceu "muito dinheiro". Conclusão lógica : o homem deve ter mesmo informações muito quentes. A conferir.


VERTICALIZAÇÃO CAINDO


Como já havíamos previsto, a Verticalização deve cair. O ministro Marco Aurélio de Mello, que assumirá a presidência do TSE, acha que a identidade política dos Estados não pode ser interpretada como a realidade política da Federação ou vice-versa. A essa altura, nem mais ao PT interessa a decisão de se manter nos Estados a mesma aliança firmada no plano federal em torno das candidaturas presidenciais.


BORIS CASOY, EX-TV RECORD


É verdade que Boris Casoy inaugurou um estilo de jornalismo na TV. E que o seu ciclo na TV Record poderia estar esgotado. Ou seja, fechou um ciclo. Boris tinha independência editorial para fazer pontuação forte sobre fatos e personagens. Mas a especulação sobre a teia de interesses políticos em torno do perfil polêmico de Casoy tem até sentido. O vice-presidente da República, José Alencar, pertence ao partido dominado pela Igreja Universal – PMR – Partido Municipalista Renovador. Alencar teria pretensões ambiciosas. Boris incomodava. Basta lembrar as cobranças que fazia sobre o affaire Santo André (assassinato do prefeito Celso Daniel). O azeitamento da máquina televisiva faria parte da estratégia ? Será que o jornalista não estava mais "rendendo" o que o grupo esperava dele ? Será que se tornou um perfil caro ? Ou a saída de BC foi apenas uma questão de rotina ? P.S. Urge acompanhar de perto – com olhos de águia - os movimentos da Igreja de Edir Macedo.


QUEIMA DE PARTIDOS


A cláusula de barreira está chegando. Exigirá que os partidos, para continuarem com privilégios, obtenham pelo menos 5% dos votos para deputado federal em todo o país, e, ao mesmo tempo, 2% dos votos para deputado federal em 9 unidades da Federação. Conseguirão esses limites PSDB, PMDB, PFL e PT. Disputarão outras vagas PDT, PSB, PL, PTB, PP e PPS. Deverão perder as regalias P-Sol da senadora Heloisa Helena (ou alguém acredita que ela, como candidata, fará um estrondo no país ?), PC do B (do presidente da Câmara Aldo Rebelo), PV e outros nanicos.


OS BILHÕES DE LULA


O governo Lula vai dispor de muita grana para gastar esse ano. Terá R$ 14,7 bilhões do Orçamento deste ano, que se somarão a R$ 13 bilhões de restos a pagar. Vai haver obra para todos os lados. E quem acha que não vai haver Caixa 2 nos faturamentos e superfaturamentos do obreirismo, que levante a mão. Por favor, levantar a mão, não atirar a primeira pedra.


AUTO-SUFICIÊNCIA DE PETRÓLEO


A essa altura, a Petrobrás já está gastando por conta da farra estupenda que será feita nos próximos meses, quando anunciará a auto-suficiência no abastecimento de petróleo. Vamos ter hinos pátrios, slogans, climas agitados de civismo, tudo lembrando as “glórias” dos tempos varguistas do Petróleo é Nosso. E tome injeção de sangue eleitoral na candidatura lulista.

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.