Sexta-feira, 22 de março de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 38

quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

VERTICALIZAÇÃO DEVERÁ CAIR

Como já prevíamos nesta Coluna, a Verticalização está prestes a cair por acordo entre os partidos (Porandubas políticas – 30/11/05 – “Prazo fatal” – clique aqui). O PSDB, mesmo a favor, deverá liberar sua bancada para derrubar esse instrumento que obrigaria os partidos, nos Estados, a adotar a mesma aliança feita no plano federal. E o PT deverá se conter mais, apesar do próprio interesse de Lula em pregar liberação geral para as alianças. O PMDB liderou esse processo. Ontem, à noite, a Câmara aprovou em primeiro turno (por 343 votos contra 143) a Emenda Constitucional que pretende dar cabo da Verticalização.

QUEM GANHA, QUEM PERDE

O PT perde com a quebra da verticalização, pois será obrigado a ceder espaços nos Estados a candidaturas mais fortes, que deverá apoiar. O sonho de Lula é ter parcela do PMDB a favor de sua candidatura, o que obrigaria o PT a apoiar nomes de peemedebistas em alguns Estados. O PMDB ganha com a quebra da verticalização, pois tem 15 nomes viáveis como candidatos a governador. O PFL, idem, pois poderá fazer alianças com o PMDB e outros partidos, mesmo fechando aliança, no plano federal, com o PSDB. O PSDB perde, pois será obrigado a ceder espaços para outros candidatos nos Estados. Os partidos pequenos ganham porque terão possibilidade de acender uma vela a Deus e outra ao diabo.

LULA LEVANTA-SE

Lula está se levantando no ringue, depois do bombardeio das CPIs e denúncias atingindo seus próximos. Corre aos Estados, monta palanques, faz discursos eleitoreiros, usa rede nacional de TV e rádio, enfim, cumpre a tal chamada agenda positiva e amplia a visibilidade. Só poderia mesmo se levantar. Está sendo vivíssimo. Quer deixar para junho a decisão final sobre sua candidatura. Claro, é uma maneira de burlar a ética. Não é proibido por lei de inaugurar obras ou, como ele diz, colher os frutos depois da água que colocou nos canteiros e jardins do país. Eticamente, o ato de correr Estados para montar palanques é condenável. Ocorre que FHC também fez o mesmo. Ou seja, Lula antecipa a campanha, como presidente-candidato, enquanto a indefinição partidária não chega a nomes. Lula aproveita espaços vazios.

ALCKMIN SOBE, SERRA DESCE

José Serra desce a serra e Geraldo Alckmin sobe a montanha. Serra está preso à administração paulista. Alckmin se solta das amarras governamentais e vai ao Nordeste para dizer que é baiano (risos!). A razão? Seus descendentes são portugueses. Logo... Na comunidade negra, poderia dizer que é africano. E nos Estados de maior população indígena, poderia resgatar os cromossomos índios. O que a política é capaz de fazer, hein? Saindo da esfera da galhofa para o terreno firme, Geraldo tem maior potencial de crescimento do que José. Aquele é mais asséptico, este, mais borrado. Por favor, é uma metáfora. Quer dizer que aquele, menos conhecido, tem flancos mais fechados para o ataque. Este, muito conhecido, tem flancos mais abertos às críticas. Agora, que José Serra é mais preparado, ah, isso é. Mas em política, nem sempre os melhores são os maiores.

QUEM TEM MEDO DE DUDA ?

Duda Mendonça é a bola da vez da denúncia. Trata-se de um profissional reconhecidamente competente. Ganhou muitas partidas políticas e perdeu, também, muitas. Ganhou muita grana. Com trabalho, urge reconhecer. Duda não tem papas na língua. Quem o conhece, sabe que diz o que pensa. Certamente, cometeu erros, pelos quais deverá pagar. Mas se continuarem a tratar Duda Mendonça como um dos bodes expiatórios da República, não tenham dúvida : Duda vai botar pra quebrar, ou seja, vai abrir o bico e contar o que sabe. Ganhou dinheiro de políticos de muitos partidos. E alguns perfis estão no centro das denúncias. Há gente com medo de Duda.

A PESQUISA DA REVISTA ISTOÉ

Pesquisa é coisa que não se discute. E o IBOPE é um instituto de renome, comandado, na área técnica, por uma competente profissional, Márcia Cavallari. A IstoÉ, por sua vez, é uma de nossas três grandes revistas semanais. Portanto, devemos acreditar na pesquisa que mostra Lula subindo e Serra descendo. É apenas o retrato de um bom momento para Lula. Até aí tudo bem. Agora, dizer que só o primeiro turno interessa, para efeito de avaliação, é cortar a verdade pela metade. Afirmar que o segundo turno daria margem a especulação, idem, é confundir verbos com advérbios. A mesma relação de nomes pesquisados no primeiro turno deverá servir à moldura do segundo turno. Ou seja, se temos uma eleição em dois turnos, a pesquisa deverá cobrir as probabilidades nos dois turnos, usando os mesmos nomes. O segundo turno afunila as respostas: fulano ou sicrano, fulano ou beltrano e, ainda, beltrano e sicrano. Ou isso não é lógico?

PALOCCI NA CPI

Está chegando o dia “D” de Palocci. Hoje seria o dia do depoimento na CPI dos Correios, que serviria à consagração ou à condenação. Na data que será remarcada, se ele for bem poderá ser forte candidato a coordenador da campanha de Lula. Se tiver desempenho medíocre, sairá do Ministério para ser candidato a deputado federal.

CASSAÇÕES

A Câmara Federal deverá ser submetida a seu primeiro grande teste, em 2006, com o início do processo de cassação dos nomes indicados pela Comissão de Ética. Cada caso é um caso, estão dizendo. Querem dizer que Roberto Brant, do PFL mineiro, por exemplo, poderá ser cassado. O mesmo se diz de João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara. É difícil fazer qualquer projeção. Há uma coisa chamada opinião pública. Um nome absolvido poderá ser seguido de um nome condenado. A recíproca é verdadeira. Em política, curvas e retas estão muito próximas.

MAIS FITAS RODANDO

Conta-se que há mais fitas gravadas escancarando conversas entre Delúbio e Marcos Valério. Coisas de arrepiar. Ouve-se de alguém importante: “Quem acha que o clima está esfriando, pode esperar uma quentura para as próximas semanas”. A conferir.

VALÉRIO IRÁ ATÉ ONDE ?

Uma pessoa isolada, triste, amargurada, acusada, que passa a simbolizar o duto da corrupção, não tem muita coisa mais a perder na textura da imagem. Marcos Valério é esta pessoa. No estágio em que se encontra, só mesmo o purgatório poderá fazer bem a seu espírito. E purgar, nesse caso, significa confessar, abrir o jogo, contar o que sabe, apontar, indicar, constatar. Poderia passar pelos filtros da opinião pública que ele, Valério, deu uma de valente.

_____________

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.