Terça-feira, 17 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 40

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006


RODA “VIVACACIANA”

Fernando Henrique já não tem mais novidades a contar. E os entrevistadores já não se esforçam para escarafunchar as idéias do ex-presidente. Foi assim a entrevista de FHC no programa de entrevistas Roda Viva, da TV Cultura. Esse programa já deu o que tinha de dar. Esgotou-se como modelo. O que se viu, na segunda à noite, foi um eco de vozes sobre perguntas e respostas há muito conhecidas. Os jornalistas fizeram perguntas que FHC já cansou de responder. Com o agravante de que o respeito pela figura do ex-presidente certamente conteve maior ímpeto dos entrevistadores. Ademais, FHC sabe tirar de letra, ou melhor, com sobra de letras, todas as questões que lhe são endereçadas. Dribla a pergunta, contorna a resposta, atenua qualquer impacto e, ao final, resta um xarope meio insosso. Um programa acaciano, com o termo significando, aqui, ingênuo, não pomposo.

SERRA, ENTRE A CORAGEM E O MEDO

José Serra, o prefeito de São Paulo, só não será o tucano candidato à presidente da República, se rejeitar todos os apelos nesse sentido. Firmou-se na posição, mesmo contra todas as projeções de que tem imagem mais velha que a de Geraldo Alckmin e, portanto, com maiores flancos para bombardeio. Serra está ajustando o sistema cognitivo à equação: “Se perder a eleição para Lula, tchau, vida pública. Se ganhar, um céu de horizontes azuis se abre”. Serra poderá sair da Prefeitura, consagrado, no meio do segundo mandato, como um candidato fortíssimo à presidência em 2010. Mas pensa em antecipar este horizonte. Está inseguro entre assumir a coragem e enfrentar o medo. A política é um dos empreendimentos mais arriscados. Serra gosta de arriscar ? Olhem para sua história.

ALCKMIN, ENTRE A CRUZ E A CALDEIRINHA

Geraldo Alckmin, o governador de São Paulo, é refém de José Serra. A esta altura, sabe que a maior base tucana já optou por Serra. Que viaja aos Estados Unidos, em companhia do vice, Gilberto Kassab, em mais uma indicação de que poderá estar passando a administração ao pefelista. Para Alckmin, há duas alternativas, caso Serra aceite a candidatura : ficar até o final do governo ou sair para enfrentar Eduardo Suplicy, que reina absoluto na postulação ao Senado. Alckmin é o único que poderá derrotar Suplicy. A aflição : se decidir ser candidato a algo, tem de sair até o começo de abril.

PFL POR CIMA DA CARNE SECA

Se Serra e Alckmin saírem (presidência e senado), o PFL estará por cima da carne seca. Quem diria, hein, o velho PEFELÊ de guerra comandando as maiores estruturas administrativas do País, nos campos estadual e municipal. Tudo pode acontecer na política. Até o ex-quase-todo-nordestino PFL se transformar em partido paulista-paulistano.

AFIF SOBRA

Se isso ocorrer, Guilherme Afif perde a vez. O PSDB exigirá que o PFL dê apoio a seus candidatos à presidência da República e ao Senado, em São Paulo.

AGRIPINO SE FORTALECE

Quem deve ganhar com a decisão tucana – seja Serra ou Alckmin – é o senador José Agripino, do PFL do Rio Grande do Norte. Sabe-se que José Serra preferiria contar com Jorge Bornhausen, senador do PFL de Santa Catarina e presidente nacional do partido, enquanto a preferência de Alckmin recairia sobre Agripino. Mas a equação de vitória passa pela integração Sudeste/Nordeste. Seria pouco palatável uma chapa Sudeste/Sul. O José, que já foi governador do RN, sai, portanto, na frente. Mas nem sempre a lógica prevalece.

A LISTA DE DIMAS

A lista com nomes que teriam sido amparados financeiramente pelo ex-presidente de Furnas, Dimas Toledo, apadrinhado pelo governador Aécio Neves, contem minúcias que geram desconfiança. Quem dá dinheiro procura esconder detalhes. Ali estão nomes que efetivamente receberam grana, como o próprio Roberto Jefferson, que confessou o crime, parlamentares com endereço estadual errado, pessoas que não se candidataram em 2002, entre outros. Ou seja, o autor da farsa misturou verdades com mentiras, na esteira do refrão “todos são farinha do mesmo saco”. Pergunta: A quem interessa mais usar essa tática ?

LULA EM ALTO ASTRAL

Lula vive momentos de bom astral. Menos pesado, mais suave, menos agressivo, mais feliz. Lula recupera parcela dos votos perdidos. Votos do fundão. A pesquisa mostra que a classe média continua arredia. Discurso para o estômago não faz muito a cabeça dos segmentos médios. Para estes, a expressão deve estar focada, isso mesmo, na cabeça, ou seja, o discurso é e sempre será racional.

FURLAN DE OLHO NA FIESP

O ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, está de olho na FIESP. É um dos poucos com passaporte para viajar em um eventual segundo mandato de Lula. Mas olha para a FIESP, caso o petista vá para a casa. Mesmo com a arrumação feita por Paulo Skaf, que sabe mexer com os pauzinhos da articulação, Furlan é um peso pesado que tem todas as condições de ganhar na FIESP. Com um diferencial: juntaria as entidades irmãs CIESP e FIESP, dirigidas por Cláudio Vaz e Paulo Skaf. Tem muito jogo pela frente.

DESTERCEIRIZAÇÃO PREOCUPA SETOR DE SERVIÇOS

O governo Lula tem incentivado a desterceirização de serviços. Como se sabe, a terceirização de serviços é considerada uma tendência irreversível em todos os quadrantes. Os setores produtivos utilizam a terceirização como parte da solução de seus problemas, na medida em que esta propicia ganhos de produtividade mais elevados, maior eficiência e mais criatividade. Os governos, em todas as esferas, também começam a adotar fortemente a terceirização. Mas o governo petista, influenciado por alguns sindicatos, incham a máquina governamental com apadrinhados e massas amorfas. Milhares de terceirizados cedem lugar a funcionários que logo, logo, ingressam nos espaços adormecidos da burocracia. Os sindicatos e associações de serviços planejam ações de forte impacto contra o retrocesso do governo Lula.

FÉ NA JUSTIÇA

A desembargadora aposentada Ana Tereza Murrieta, do Pará, acusada pelo Ministério Público de movimentar 157 contas no Banco do Estado do Pará para receber depósitos feitos em juízo durante processos, desviando R$ 3 milhões, foi condenada em primeira instância a 12 anos, 11 meses e 10 dias de prisão. Pode ser que continue solta, graças aos recursos que impetrará. Mas que o conceito de Justiça está melhorando, ah, isso está.

A CLASSE MÉDIA VAI AO PARAÍSO?

Lula está preparando uma ação de impacto para abrir as portas do paraíso à classe média. Algo como amparo às dívidas bancárias. O Banco Central já teria sido instado a trabalhar nesse projeto.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.