Terça-feira, 17 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 424

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Em cinco anos, tudo pode ocorrer

Abro a coluna com uma historinha de sabedoria :

Um poderoso sultão, sábio entre os sábios, possuía um camelo muito inteligente. Obedecia a todas as ordens que nem precisavam ser emitidas de viva voz. Faltava-lhe apenas o dom da palavra. Esse detalhe entristecia, sobremaneira, o sultão. Um dia, decidiu convocar o grande conselho e chamou o Grão-Vizir.

- Quero que ensine meu camelo a falar !

- Mas isso é impossível.

- Cortem-lhe a cabeça ! Tragam-me o adjunto !

Mesma afirmação do desejo sultanesco, mesma resposta, mesma sentença. A cena repetiu-se diversas vezes e cabeças rolaram. Exasperado, o sultão declarou.

- Aquele que ensinar meu camelo a falar será meu Grão-Vizir.

Silêncio ! O sultão repetiu a exortação. Eis que surgiu um humilde ajudante de cozinheiro. Disse :

-Dá-me, ó incomparável senhor, um prazo de cinco anos, e farei falar teu camelo.

Estupefação geral. Seguida do cumprimento da promessa.

-Doravante, és meu Grão-Vizir ! Com direito a palácios, mordomias e riquezas. Mas se falhares, sabes o que te espera !

- Bem sei !

Encantado, o jovem fez profunda reverência e saiu correndo para dar a boa notícia à esposa.

- Infeliz, acabas de assinar tua condenação.

- Não é bem assim, meu bem. Pedi cinco anos. Você sabe que muitas coisas poderão acontecer em cinco anos : morre o camelo, morre o filho do camelo, morre o sultão.

(Fábula enviada pelo atento Alexandru Solomon, que arremata : "nada a ver com a AP 470, o Petrolão, etc.")

Segunda fase do petrolão

Vem por aí a segunda fase do petrolão. Vejamos os próximos passos : o ministro relator, Teori Zavascki, chama para si os processos envolvendo nomes de parlamentares. Começa a colher depoimentos e provas. A seguir, faz seu relatório, que é julgado em plenário. Tempo para essa operação : de três a cinco meses. Ou seja, teremos um primeiro trimestre de 2015 sob a fumaça do óleo da Petrobras encobrindo os céus de Brasília.

Alternativas

O cenário do que poderia ocorrer ainda não está claro. Vejamos algumas hipóteses : a. condenação de alguns réus pelo STF e/ou absolvição de outros ; b. encaminhamento dos processos às Casas Congressuais ; c. análise dos casos pelas mesas diretoras do Senado e da Câmara ; d. envio da situação às Comissões de Ética ; e. decisão de cassação de mandatos pela própria mesa dirigente da Casa congressual ; f. condenação ou absolvição dos casos pelos plenários.

Repercussão

O balão da opinião pública será inflado, nos próximos meses, pela operação política abrigando os nomeados pelo petrolão. Será mais uma onda desfavorável à representação política. A onda se espraiará pelo território sob o signo de um tempo cheio de apertos : cortes de gorduras, escassez, política econômica rígida, inflação no teto da meta. Portanto, não esperemos otimismo ou qualquer folga no bolso. O Produto Nacional Bruto da Felicidade entrará em queda. Ruim para o país.

Tempos de controle

Podemos enxergar uma luz no fim do túnel : maiores e melhores controles sobre a vida institucional. Ou seja, as estruturas do poder público ganharão lupas mais potentes. Nesse sentido, ainda é possível divisar um país sendo passado a limpo, com seus tumores extirpados pela lâmina da lei. A conferir.

Políticos na corda bamba

Os políticos não poderão ultrapassar a linha do bom senso. Pretenderão aumentar suas fatias no bolo do poder, mas deverão lutar por esta meta sem muito estardalhaço. Quer dizer, deverão conter seu ímpeto sob pena de sofrerem puxões de orelha dos movimentos organizados e de setores que afiarão seus aríetes. O Brasil continuará assistindo as manifestações de rua e o clamor por mudanças.

Dilma mutante

Pode ser que a presidente não altere seu comportamento na frente da política. Caso continue imune aos apelos e pressões que partem das representações na Câmara e no Senado, abrirá rombos nos costados do governo. Mais provável que tenhamos, no segundo mandato, uma presidente Dilma mais flexível, menos rígida no trato com os políticos, mais aberta ao diálogo e mais intensa na articulação.

PT, mais à esquerda

Já o PT deverá promover uma guinada à esquerda. No primeiro mandato, viu-se obrigado a entrar forte nos espaços centrais, deixando de lado antigas bandeiras. Agora, sob sugestões de Lula e de alas do partido, o PT quer resgatar a chama dos seus primeiros anos de vida. Não será uma tarefa fácil, eis que as fogueiras do mensalão e do petrolão ainda dispõem de muito combustível para queimar sua imagem. Mas o partido, mesmo assim, tentará passar um esmalte em seu escopo, na tentativa de se fazer diferenciado. O PT ficou pasteurizado.

Tucanos e caciques

Os tucanos, por sua vez, terão muita dificuldade de trocar a exuberante roupagem de caciques por modestas vestes de índios. O partido é uma plêiade de celebridades. Não aprendeu, ainda, a comer o pão requentado das massas. Prefere os brioches dos palácios. Por isso, é pouco provável que o PSDB vista a embotada camiseta oposicionista. Vai sempre preferir a última camisa da moda, a calça de grife.

Ferraz no comando dos navios

Marco Ferraz é o novo presidente executivo da CLIA/Abremar. Um dos mais qualificados perfis do TRADE, Marco deixa a Braztoa com uma das mais densas folhas de serviços prestadas ao turismo nacional. Junta experiência, profundo conhecimento dos problemas e situações dos setores que compõem o conglomerado do Turismo (nacional e internacional), alta performance na frente da articulação política, a par de muita simpatia pessoal. Os cruzeiros marítimos no Brasil terão no novo presidente executivo uma ajustada bússola para navegar em águas menos borrascosas.

Fusões partidárias

Teremos entre quatro a cinco blocos partidários na Câmara Federal, durante a próxima legislatura, maneira inteligente para abrir espaços de poder e uniformizar as linguagens.

Lula à espreita

Quem conversou com Lula nos últimos tempos, cochicha : o guru do PT está treinando todos os dias para voltar a frequentar palanques. Será o comandante das ruas do governo Dilma. A cara do governo perante as massas. Fiquei de orelha em pé com essa observação. Temo que Lula antecipe muito o pleito de 2018.

Padilha no turismo ?

O ex-deputado Eliseu Padilha, pessoa que está ao lado direito do vice-presidente Michel Temer, poderá vir a ser ministro do Turismo. Trata-se de um exímio organizador.

É o Brasil

O TRE/RR cassou o mandato do governador Chico Rodrigues (PSB). Chico era vice-governador e assumiu por ocasião da renúncia do governador Anchieta Filho. O TRE empossou no lugar de Chico Rodrigues o presidente da Assembleia, o deputado Chico Guerra. Que deixou de ter os votos computados, obtidos no pleito de outubro passado, por ter caído na ficha suja. Ou seja, assume hoje um governador de ficha suja. Só mesmo por essas plagas isso acontece.

Feldman na CBF

O ex-deputado Walter Feldman, que foi tucano e ultimamente era porta-voz da Rede Sustentabilidade, de Marina Silva, está dando um giro de 180 graus em sua vida profissional. Vai para a CBF com o objetivo de colaborar com o esforço de modernização da entidade, segundo se depreende de sua explicação. Trata-se de um esforçado quadro da política. Sabe fazer articulação.

Jango envenenado ?

As circunstâncias que cercaram a morte de Jango Goulart (um infarto agudo do miocárdio) até justificam uma análise toxicológica no corpo do ex-presidente. Mas encontrar alguma substância venenosa após 37 anos da morte é tão difícil quanto encontrar uma agulha no palheiro. P. S. O material colhido foi submetido a cerca de 700 mil substâncias. Ufa !

Fator previdenciário

O PT defende o fim do fator previdenciário, mecanismo que desestimula aposentadorias precoces – e quer, ainda, adotar a jornada de trabalho de 40 horas semanais. Com essa defesa o partido tem como objetivo reaproximar-se dos movimentos sociais. Aliás, o PT também quer desbancar o PDT da cadeira no Ministério do Trabalho. Quer emplacar um dos seus como ministro da Pasta.

Balança comercial

O saldo da balança comercial, segundo Boletim do Bradesco, ficou negativo em US$ 2,350 bilhões em novembro, de acordo com dados divulgados ontem pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. As exportações somaram US$ 15,646 bilhões no mês passado, recuando 25%, quando consideramos a comparação entre as médias diárias de 2014 com novembro do ano passado. Todas as categorias atuaram nesse sentido : foram registradas quedas de 31,7% em manufaturados (devido a óleos combustíveis, materiais de transporte e açúcar refinado) ; de 25% em básicos (devido aos grupos soja e minérios, com quedas de 45% em ambos) ; e de 6,2% em semimanufaturados (devido a ferro fundido, açúcar em bruto e ouro em forma semimanufaturada). Por sua vez, as importações chegaram a US$ 18 bilhões, mostrando retração de 6% ante novembro de 2013.

Ambições !

Fecho a coluna com uma pitoresca historinha enviada pelo amigo Luis Costa :

Eduardo, promissor jovem advogado, descobriu que herdaria uma fortuna quando seu pai morresse devido a uma doença terminal. Decidiu, então, que era momento para encontrar uma mulher que fosse sua companheira para a vida fácil que se avizinhava. Assim, numa determinada noite, foi até ao bar onde se encontrava com amigas e amigos advogados, e lá conheceu uma bela mulher, a mais linda que já tinha visto em toda a sua vida. Sua extraordinária beleza, o porte elegante, o corpo curvilíneo, a inteligência, a maneira de falar, deixaram-no sem respiração.

- Eu posso parecer um advogado comum - disse-lhe, enquanto iniciava o diálogo para a conquista da musa - mas, dentro de dois ou três meses, o meu pai vai morrer, e eu herdarei 20 milhões de euros.

Impressionada, a bela jovem foi para casa com ele naquela noite. Três dias depois, tornou-se sua madrasta !

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.