Segunda-feira, 26 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 41

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

LEVANTA A POEIRA


O PT está comemorando os 26 anos de vida sob a melodia do sambinha "levanta, sacode a poeira e dá volta por cima". Mesmo com Lula subindo nas pesquisas, é muito cedo para festejar. Há muitas curvas pela frente. Na primeira, o PT vai ter de se alinhar à política econômica do governo. Na segunda, terá de recuperar o discurso perdido. Já não é dono exclusivo da ética. Na terceira curva, procurará um discurso mais pragmático para substituir a proposta socialista. Afinal de contas, que socialismo o partido ainda pensa em desfraldar ? Nas curvas da campanha, se defrontará com coisitas como mensalão, valerioduto, delubioduto, etc. Conseguirá refazer a bancada de 90 deputados ? Vai ser difícil dar a volta por cima. Sacudir poeira pesada leva tempo.

PONTOS NA FRENTE

A última pesquisa CNT/Sensus coloca Lula 10 pontos na frente de Serra no segundo turno. Não é coisa que surpreende. Há mais de um mês que o presidente fatura fatos positivos. Economia vai bem, Bolsa Família segura as margens sociais, inaugurações pipocam por todos os lados, enquanto Lula, mais magro e faceiro, vai desfilando um bom humor nunca visto. Na outra margem, tucanos se bicam para fechar posições entre Serra e Alckmin, aquele mais preparado, porém mais sujeito às intempéries, este, mais light, porém com melhores condições de crescer em campanha. Lula, correndo sozinho, cercado de coisas boas, é para estar na frente mesmo. Se não, a campanha seria sem graça.

PARA ONDE VAI A BIRUTA ?

O empresariado está ansioso para saber qual a direção da biruta. A pergunta que mais se ouve de um empresário é : quem será o candidato do PSDB, Serra ou Alckmin ? E o complemento da pergunta : e quem tem mais condições de ganhar de Lula ? Nenhuma resposta satisfaz a curiosidade dos empresários.

AFIF NAS ÁGUAS DE MARÇO

Guilherme Afif espera as águas de março. Diz que está no seu cantinho, disposto a ir à luta se for convocado para a batalha pelo governo de São Paulo. O diabo é que o PFL já está com a Prefeitura de Serra (por dois anos) ou com final de governo de Alckmin nas mãos. O que tira a chance de Afif.

QUÉRCIA NAS ÁGUAS DE ABRIL

Se a decisão dependesse exclusivamente de sua vontade, Orestes Quércia não seria candidato ao governo de São Paulo. A família não quer. Ele não gostaria de voltar ao centro da liça, pelo tipo de campanha que se faz hoje. Mas as bases peemedebistas querem vê-lo candidato. E Quércia ouve muito as bases. Sabe que uma candidatura do PMDB ao governo contribui para fazer uma bancada apreciável de parlamentares. Espera por abril.

CLASSES MÉDIAS CONTINUAM DESCOLADAS

Se as classes C, D e E abrem os braços para Lula, o mesmo não ocorre com a classe média. Mais racional, não se abala ante os ventos favoráveis a Lula. Ao contrário, afasta-se mais quando vê o presidente usando o poder da caneta no caderno da pré-campanha. Acompanha a crise. Lê jornais. Vejam o que aconteceu com Marta Suplicy. A inauguração de obras no ano eleitoral não fez a classe média arredar um milímetro de seu posicionamento contrário à ex-prefeita.

A CAMPANHA PELA TV GLOBO

A cúpula jornalística da TV Globo reuniu-se, no Rio de Janeiro, com os presidentes de partidos políticos para acertar a cobertura de campanha. A emissora compromete-se a fazer uma cobertura ética e isenta. Mais ainda : vai abrir espaços para os candidatos a presidente nos principais telejornais. Mas quer preferência. E jogou pesado. Exigiu que os presidentes de partidos presentes assinassem compromisso de preferência pela TV Globo. O deputado Michel Temer, ponderado, fez ver que aquilo seria um atestado de submissão dos partidos ao grupo Globo. O que deveria ser um compromisso com a Globo acabou sendo uma comunicação sobre a estrutura que a emissora usará na campanha. Para se ter uma idéia, William Bonner e Fátima Bernardes ancorarão o programa pelo Brasil afora, a partir de 15 cidades estrategicamente escolhidas. Até os debates já estão agendados.

PMDB VAI TER CANDIDATO

Por maior que seja o esforço da dupla Sarney-Renan para evitar que o PMDB tenha candidato à presidência da República, tudo indica que as bases partidárias consolidarão a decisão da última Convenção, ou seja, vai haver, sim, candidatura própria. Garotinho montou um esquema de telemarketing que já contatou milhares de convencionais. Rigotto confia em sua identidade mais peemedebista. Começou tarde sua pré-campanha. Hoje, os presidentes dos diretórios estaduais do partido discutem em Brasília o formato das prévias. Questão polêmica : o peso do voto dos governadores e das lideranças e o peso de convencionais sem expressão partidária.

RODA VIVA COM MUITA RODA

Semana passada critiquei o formato do programa Roda Viva. Disse que estava saturado. E está mesmo. Ante alguns e-mails pró e contra ao ponto de vista, reafirmo. Muitos entrevistadores acabam “horizontalizando” a entrevista. A possibilidade de rebater, aprofundar, dissecar o tema é pequena. As rodadas de perguntas criam um ambiente superficial. Há quem ache Roda Viva o melhor programa de entrevistas do Brasil. Na pasmaceira geral, é até possível. Mas, convenhamos, o formato arena-espetáculo seguramente não propicia verticalização temática.

O PT PROCESSANDO FHC

Será um espetáculo hilário ver o PT processando Fernando Henrique. O PT vai dizer que não rouba. FHC vai juntar massa informativa da mídia para dizer o contrário. E, para arrematar, poderá dizer que o próprio Lula reconhece o roubo, quando diz: “errar é humano”. Vai querer que Lula explique onde o PT errou. A propósito: será que o PT vai mesmo processar FHC ou faz onda ?

CAMPANHA INDEFINIDA

Afinal de contas, como será a campanha eleitoral ? O que será permitido, o que será proibido ? O parecer do deputado Moreira Franco, proibindo o uso de brindes como camisetas, bonés, canetas, chaveiros, além de showmícios, telemarketing e out-doors, tem 40 emendas e 4 subemendas a serem debatidas em plenário. O projeto, convenhamos, não moralizará a campanha.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.