Quinta-feira, 17 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 437

quarta-feira, 25 de março de 2015

Não sabe que não sabe

Abro a coluna com um pequeno conto. Sobre pessoas que desconhecem o que se passa a seu redor. Como é o caso de ilustres figuras da nossa política. Conto uma parábola : "há pessoas que não conseguem perceber o que se passa ao seu redor. Não veem que não veem, não sabem que não sabem". Pequeno relato. Zé caiu em um poço e está a 10 metros de profundidade. Olhava para os céus e não viu o buraco. Desesperado, começou a escalar as paredes. Sobe um centímetro e escorrega. Passou o dia fazendo tentativas. As energias começaram a faltar. No dia seguinte, alguém que passava pelo lugar ouviu um barulho. Olhou para o fundo do poço. Enxergou o vulto de Zé. Correu e pegou uma corda. Lançou-a no buraco. Concentrado em seu trabalho, esbaforido, cansado, Zé não ouve o grito da pessoa : "pegue a corda, pegue a corda". Surdo, sem perceber a realidade, Zé continua a tarefa de escalar, sem sucesso, as paredes. O homem na beira do poço joga uma pedra. Zé sente a dor e olha para cima, irritado, sem compreender nada. Grita furioso :

– O que você quer ? Não vê que estou ocupado ?

O desconhecido se surpreende e volta a aconselhar :

– Aí tem a corda, pegue-a, que eu puxo.

Zé, mais irritado ainda, responde sem olhar para cima :

– Não vê que estou ocupado, ó cara. Não tenho tempo para me preocupar com sua corda.

E recomeça seu trabalho.

Parábola : "Zé não vê que não vê, não sabe que não sabe".

A maior crise

O Brasil vive a maior crise de sua contemporaneidade. Quais os fatores que justificam tal hipótese ? Uma confluência de crises : a crise econômica, a crise política e do sistema partidário, a crise do petrolão, a crise social, a crise hídrica, a crise energética e a crise de gestão, com impacto sério na governabilidade. Analisemos cada uma.

A economia

A economia é a locomotiva do trem. Se faltar nela combustível, o trem fica parado. Se tiver pouco combustível, o trem dá solavancos e pode descarrilar. A locomotiva é quem puxa o trem Brasil, composto por seus carros : o PIB, a inflação, o emprego/desemprego, a política, a avaliação positiva/negativa dos governantes, o Produto Nacional Bruto da Felicidade/Infelicidade. Pois bem : começa a faltar óleo na locomotiva. As contas públicas estão desconjuntadas. O Estado gasta mais que arrecada.

Trem descarrilando

A ameaça de o trem descarrilar é real, abrindo espaço para corpos jogados fora dos carros : desemprego em massa, inflação chegando aos dois dígitos, recessão econômica, bolso mais vazio fazendo roncar o estômago das massas, cofres secos, setores produtivos em retração a partir da indústria com queda prevista de 5% para o ano e assim por diante. Um carro vai levando de roldão o outro.

A política

O primeiro carro a sofrer abalos é o da política, nesse caso, impulsionado para fora dos trilhos por causa do petrolão, que produz a lista de Janot, uma relação de nomes que deverá ser ampliada nas próximas semanas. O rebuliço na frente política dará ao Congresso um gigantesco escudo corporativista. Os presidentes das duas casas congressuais, na esteira de seus poderes, estabelecem uma pauta de grandes temas para votação. E exibem certa independência diante do Executivo, mudando o curso das tradicionais relações, quando o Congresso se postava como poder convalidador.

Réus políticos

O STF vai aprofundar as investigações sobre os políticos indiciados, enquanto o juiz Sérgio Moro começa a inserir empresários na lista de réus, tirando-os da faixa de indiciados. As novas delações premiadas – que são previstas, sob a pressão das famílias que não querem ver seus chefes purgando anos e anos na prisão – tendem a adensar as provas e a expandir a relação de réus. A expectativa é que nomes mais poderosos que os atuais envolvidos possam ser relacionados. A CPI da Petrobras na Câmara, por sua vez, funcionará como palco da espetacularização política, com tendência a contemporizar com os quadros políticos.

Sociedade de costas

A sociedade está de costas para a mandatária-mor e também para os políticos. As pesquisas mostram que 65% desaprovam a presidente Dilma e nunca foi tão evidente a distância entre a representação política e os grupamentos sociais. Portanto, a esfera da governança e da política vive dias de aperto. Formidável pressão social é exercida sobre os Poderes Executivo e Legislativo. O Poder Judiciário sai com imagem melhor.

Esgotamento de um ciclo

A crise política aponta para o esgotamento do modelo de presidencialismo de coalizão. A partilha dos cargos e espaços na administração pública gera fortes arestas junto aos partidos e estiola a força do Executivo. Portanto, o ciclo da partilha do poder está a exigir novos condicionamentos, abordagens mais avançadas. A estrutura governativa é lerda e paquidérmica, a mostrar que seu modelo é ultrapassado. Daí a sugestão de enxugamento da máquina. Que conta até com o apoio do PMDB, o maior partido da base, a pregar a redução de 39 para 20 ministérios.

Centros de comando

Multiplicam-se os centros de comando político, o que dificulta a tarefa de repartição de espaço, a cargo da presidente Dilma. O esgarçamento da base situacionista causa dores de cabeça, não havendo mais a tradicional fidelidade dos conjuntos parlamentares. E, sob uma economia que ameaça estrangular as veias produtivas da nação, os políticos também se afastam da arena governativa. Tentam se afastar da contaminação que impregna o corpo do Executivo.

A frente das ruas

A animosidade toma conta dos grupamentos sociais. Os movimentos se adensam e se espalham, com tendência a pontuar sobre matérias específicas. Os ânimos acirrados ocupam as redes sociais para uma guerrilha expressiva, observando-se maiores quantidades de falas contrárias ao governo. O rechaço à política toma conta de todos os setores. O repúdio à presidente e ao governo que comanda atinge os píncaros. A movimentação social mostra-se mais madura, crítica e consciente do que a grande mobilização de junho de 2003. Naquela ocasião, acendeu-se a faísca. De lá para cá, tonéis de gasolina com a "graxa" do propinoduto da Petrobras esticaram o tamanho das fogueiras.

A água e a energia

Apesar de chuvas intermitentes em grande parte do país, a partir do Sudeste, os reservatórios continuam muito abaixo de suas potencialidades. O racionamento não está fora das probabilidades e, na sequência, os apagões de energia também constituem ameaça. O aumento no preço da energia – em torno de 40% - podendo, ainda, ser mais alto, em julho, é outro elo da corrente da indignação.

Bo+ba+co+ca ameaçada

A equação que uso – Bolso, Barriga, Coração, Cabeça – começa a ser desfeita. As margens sociais já dão pulos de raiva quando constatam a carestia de vida. A feirinha de rua aumenta preços de hortifrutigranjeiros, crise alimentada pela greve dos caminhoneiros. As barrigas, então, começam a roncar e a enfurecer os corações. As cabeças decidem ir ruas para se manifestar. Pais e mães levando seus filhos. Portanto, não apenas as elites afluem às avenidas das grandes e médias cidades. O povo das classes mais necessitadas está também de olho aceso.

A governabilidade

Não por acaso, o país parece ingovernável. Os serviços públicos são precários, a violência ganha as ruas das grandes cidades e se espraia pelos fundões, amedrontando as populações. O Bolsa Família já deu tudo o que tinha de dar em matéria de lucro eleitoral. As famílias pobres já o incorporaram ao seu orçamento. E a inflação corrói sua força. Daí a exigência por serviços públicos mais qualificados. Os partidos estão sem rumo. Não sabem o que e como aprovar as medidas de ajuste econômico propostas pelo ministro Joaquim Levy. Os setores produtivos gritam contra mais impostos. Exigem que o governo corte profundamente suas gorduras.

O que fazer ?

O governo, por sua vez, está entre a cruz e a caldeirinha. Se cortar benefícios de trabalhadores, como prevêem as MPs 664 e 665, terá de enfrentar os tratores das centrais sindicais. Se cortar as desonerações concedidas a setores produtivos, ouvirá o clamor de frentes de produção que já padecem sob a falta de competitividade da indústria brasileira. O que fazer ? Negociar, negociar, chegar a um mínimo de consenso.

O outono da matriarca

Estamos no outono. Época de folhas caindo. Tempo de descenso. Seria também o outono da matriarca ? O termo, aqui, não tem sentido pejorativo. Apenas é utilizado como expressão para destacar sua índole autoritária, dura, fechada em torno de si mesma ? Este analista da política não tem resposta. Por enquanto. Vamos esperar pelo andar da carruagem ou, em outros termos, pela continuidade das investigações do petrolão.

Poema do beco

Fecho esta Leitura com o Poema do Beco, do imortal Manuel Bandeira :

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte ?

— O que eu vejo é o beco.

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.