Terça-feira, 20 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 43

quarta-feira, 8 de março de 2006

A DOBRADINHA TUCANA

Que é especulação, não há dúvida. Mas é uma especulação com cara de verdade. José Serra sairia da Prefeitura para disputar o governo e Geraldo Alckmin teria o caminho livre para concorrer à presidência. Seria uma boa jogada. Os tucanos não têm um bom candidato para o governo de São Paulo. Serra seria a solução. Geraldo tem maior potencial de crescimento do que o prefeito e, ainda, menor rejeição. Portanto, os tucanos sairiam numa boa da crise. E Geraldo Alckmin poderia comprovar que sabe sair de baixo e ganhar uma eleição. Lula é favorito. Mas quem nega a possibilidade de sair por cima numa campanha eleitoral ilustrada com dólares na cueca de petistas ?

A DESCULPA DE SERRA

A justificativa de Serra para sair da Prefeitura e disputar o governo não seria tão criticada. Permaneceria em São Paulo, perto dos problemas da municipalidade. Hoje, 50% dos paulistanos não querem que se afaste para disputar a presidência. E o prefeito, sem dúvida, enfrentaria um terceiro turno com Marta Suplicy. Para esta, o ideal seria que Serra deixasse a Prefeitura e concorresse à Presidência da República. Bateria nele, dizendo que não cumpriu o compromisso, atestado em cartório. Mas, no governo, o que iria dizer ? Serra poderá alegar que ficará em São Paulo, que deixou o governo nas mãos do vice, que o Estado e Prefeitura continuariam a trabalhar juntos etc. Mas o prefeito encontrará muitas barreiras, entre as quais a crítica por não ter um eixo, um programa-mor, uma idéia-central na Prefeitura. O programa-forte de Serra é o cofre. Arrumou as contas. Até aí tudo bem. Só que o acerto de contas pesou sobre as costas dos prestadores de serviços da Prefeitura. Que tiveram de suportar um calote.

FITAS ANUNCIADAS

Esta Coluna bem que antecipou a existência de fitas e mais fitas que expandem a esfera da corrupção. E tem mais. Haja munição!

MAIS UM POLÍTICO NA RODA

O senador Romero Jucá (PMDB-RR) tem uma ficha política cheia de curvas. Há processos contra ele no Conselho de Ética do Senado. Agora, apareceu uma fita com o depoimento de seu motorista, Roberto Marques, confessando ter sacado dinheiro do valerioduto. Jucá tentou se justificar dizendo que o motorista teria sido induzido por um assessor do governador de Roraima, Ottomar Pinto, a ler, em voz alta, uma nota previamente preparada para comprometê-lo. Questões : ler uma nota em voz alta a título de quê ? Para testar a performance vocal ? Ademais, um texto com diálogos entre o motorista e o interlocutor é bem diferente do que um texto corrido. Uma coisa é a narrativa sem interrupções e cacoetes de linguagem, outra coisa é uma interlocução entre duas pessoas.

CONFUNDIRAM OS BOBs ?

Problemas : o tal Roberto Marques, conhecido como Bob, apontado como sendo amigo de José Dirceu, se defende dizendo que cometeram uma “injustiça” contra ele. E o próprio ex-ministro José Dirceu promete reabrir seu caso junto ao STF, alegando que houve um erro de pessoa, quando o relator do processo no Conselho de Ética referiu-se a seu amigo Roberto Marques. Teriam confundido seu amigo com o outro Roberto Marques, amigo do senador Jucá. Ora, a questão pode ser resolvida, por meio da identificação da assinatura de quem pegou os R$ 50 mil no caixa do Banco Rural. O senador, que é candidato ao governo de RR, está no meio da roda. Se for comprovado que o Marques do valerioduto é o seu amigo, babau, dificilmente tem chances de continuar no páreo para o governo de RR.

VERTICALIZAÇÃO E CRISE

Se a verticalização for mantida pelo STF, a crise política abrirá mais um braço, desta feita, entre o Poder Legislativo e o Poder Judiciário. A questão ultrapassará a fronteira técnica, cujos limites abrigam o conceito da anualidade – para efeito de aplicação da lei – e a interpretação sobre a imediata vigência de uma Emenda Constitucional. Interessante é verificar que o mundo jurídico se reparte. Os pareceres contemplam as duas visões. O ex-ministro Paulo Brossard dará o tom do Congresso. Mais uma proposta de emenda constitucional, agora alterando o princípio da anualidade, seria desastrosa para o tecido institucional.

O PROJETO DO PMDB E LULA

Já se diz que Lula começa a desistir da quebra da verticalização, ante a possibilidade de o PMDB desistir, mais adiante, da candidatura própria. Analisemos. O PMDB marcou as prévias partidárias para 19 de março. Garotinho deve ganhar. Vitorioso, seria o candidato a ser consagrado pelo partido na Convenção de junho. Ocorre que a verticalização prejudica o projeto do PMDB de eleger cerca de 15 governadores. Para isso, o partido contaria com apoios de todos os lados. Com verticalização, isso não seria possível. E aí Garotinho poderia ser rifado. Sem candidato, o PMDB continuaria a fazer alianças a torto e a direito. E Lula, no plano federal, teria maiores chances de contar com o rolo compressor peemedebista.

SEM VERTICALIZAÇÃO

Se a verticalização cair no STF, o alívio será sentido principalmente junto aos partidos pequenos, que se esforçarão para vencer os obstáculos da cláusula de barreira : 5% dos votos apurados para a Câmara Federal em todo o território nacional para terem direito aos recursos do Fundo Partidário e ao tempo de mídia eletrônica. O PMDB ficaria mais confortável. O PT, menos confortável, porque aposta da polarização com o PSDB. O PFL também ficaria mais acomodado. Os partidos médios temem perder parcelas de suas bancadas. Com razão. Alguns até poderão desaparecer.

E A NOVA CARTA DO PT, HEIN ?

A nova Carta do PT ao Povo Brasileiro será um caso complicado. Fará críticas à política econômica do governo Lula ? Pedirá mudanças ? E se Lula não aceitar as críticas? Como será uma carta pedindo apoio a Lula, mas exigindo mudanças ? Lula ficará calado ?

PALOCCI NA RODA ?

Quem foi que disse que o ministro Antônio Palocci saiu da roda ? Se saiu, ameaça voltar. O depoimento do delegado Benedito Antonio Valencise sobre a gestão de Palocci na Prefeitura de Ribeirão Preto será muito quente. E o ministro começa a perder o lugar de coordenador da campanha de Lula.

LULA COMO PINGÜIM

Diz-se que Lula recusou usar casaca na recepção que lhe dará a rainha da Inglaterra. Teme parecer com um pingüim. Usará paletó comum. E mesmo o tradicional nó inglês da gravata não vingará. Prefere aquele nó grosso, que sufoca o pescoço. O cabra tem personalidade. Vamos aguardar as fotos.

RODA VIVA, 10

Esta coluna fez, há semanas, críticas ao Programa Roda Viva da TV Cultura, na esteira da observação de que alguns entrevistadores tomam muito tempo, diminuindo o espaço do entrevistado. E sugeriu menos entrevistadores como forma de conferir maior visibilidade ao entrevistado. Mas o programa de segunda-feira merece um elogio público. Estava ali um médico, de altíssimo nível, dr. Miguel Srougi, urologista, respondendo de forma simples, sem firulas e meios termos, todas as questões. Uma belíssima aula. O programa merece um 10 com louvor. Se há uma crítica, não vai para os jornalistas, mas para um dos médicos presentes, que se estendeu nas considerações, antes de fazer uma pergunta singela.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.