Quarta-feira, 20 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 449

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Abro a coluna lembrando a campanha para prefeito de SP. Debate Folha/Globo em 11 de novembro de 1985. Fernando Henrique, senador, e o ex-presidente Jânio Quadros. Historinha colecionada por José Luiz Silva em seu Jânio Quadros e os Nordestinos de São Paulo.

- Boris Casoy : – Senador, o senhor acredita em Deus ?

- FHC : – Essa pergunta, o senhor disse que não me faria.

...estou abrindo uma chance para a crença em Deus.

O caso entrou na boca do povo pela poesia de cordel :

Dessa vez vou ser sincero
Suporto qualquer defeito
Me venha de qualquer jeito
Que eu apoio e tolero
Somente o que eu não quero
É pensamento barato
Não quero jogar no mato
O voto dos sonhos meus
Se você não crê em Deus
Pra mim não é candidato

(Coriolano Sérgio)

Mas já no dia seguinte, na região do centro de SP - Barão de Itapetininga, 7 de abril, Dom José de Barros, Praça Ramos – escutavam-se os repentistas :

"Juro por Nossa Senhora
Por Padre Ciço Romão
São Cosme, São Damião,
Por Jesus de Pirapora,
Santa Mônica, Santa Aurora,
E por São Judas Tadeu,
São Jó, São Bartolomeu,
São Francisco e São Gaspar
Nem pense que eu vou votar
Num homem que é ateu".

Fernando Henrique, que chegou a sentar na cadeira de prefeito, antecipando a votação, perdeu para Jânio. Que teve de espanar a cadeira... Jânio venceu com 39,3% dos votos válidos, contra 35,3% de FHC e 20,7% de Eduardo Suplicy.

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Desabafo de Lula

A frase surpreendeu : O PT está velho e petista só pensa em cargo. Foi isso que Lula disse, em desabafo, antes de ontem, na esteira de outra crítica feita um pouco antes ao governo, ao lado da autocrítica : "o PT está no volume morto, o governo Dilma está no volume morto e eu mesmo estou no volume morto." Afinal, qual o significado deste desabafo ? Vamos lá : primeiro, um recado à Dilma : cuidado, estamos todos no mesmo barco ; segundo, um recado à militância, algo como : vamos ter de refazer o partido. Temos de resgatar nossas bandeiras. Terceiro : o reconhecimento de que o partido tem errado, mas sempre é hora de reconstruir caminhos.

Freud explica

É perceptível que a rápida deterioração da economia brasileira minou a confiança de quem produz e de quem consome. Não à toa, a recuperação da confiança é um dos temas mais sensíveis do momento. Calejados, empresários e a população observam, cabreiros, o desenrolar dos erros que se acumularam nos últimos anos. Por isso, assistir o matreiríssimo ex-presidente Lula abrir sem pudor o bico e desancar o governo de sua pupila, expondo sua contrariedade, como tem feito para as mais variadas plateias nos últimos dias, enche nossas cacholas de interrogações. Reconquistar a confiança já é um processo lento, de tal forma que a mãozinha que Lula está dando deixa encafifado até aquele renomado psicanalista austríaco.

Nota burra

Os senadores do PT, como se quisessem fazer um desagravo ao ex-presidente Lula, produziram uma nota de solidariedade. Acusando todos que são contra o PT de cultivar ódio a ele. Fizeram, mais uma vez, ode ao bolorento refrão : nós e eles. Ora, a separação do Brasil em dois pedaços tem sido feita pelo próprio PT e Lula. E o que disseram sobre as críticas de seu guru ao governo e aos petistas ? Nada, absolutamente nada. Passaram por cima disso. Se estão solidários com Lula, apenas reforçam as acusações que ele faz aos correligionários. Ou seja, dizem que eles, senadores petistas (ou eles são diferentes ?), só querem saber de cargos. Que interpretação outra pode ser feita ?

No fundo do poço

O PT chegou ao fundo do poço. O governo, em matéria de imagem, sofre as consequências deste ciclo de escândalos. O partido está batendo testa com o PSDB em matéria de prestígio. Antigamente, estava quilômetros à distância de outros. O governo, por sua vez, bate na trave dos 10% de avaliação positiva, só comparável ao governo Collor, por ocasião do impeachment. Pode se recuperar ? Sim, mas não no curto prazo. Portanto, qualquer recuperação poderá surgir lá pelos idos de 2017/2018. Vamos atravessar a campanha municipal de 2016 com o PT em declínio.

Efeitos

Ante tal perspectiva, o que poderá ocorrer ? Um afastamento de partidos da base do governo, com o PT isolando-se na campanha municipal do próximo ano ; a saída de quadros do partido, principalmente na esfera municipal. Muitos serão tentados a deixar a sigla pela janela aberta de 30 dias, aprovada no âmbito da reforma política. Essa resolução precisa ser votada em segundo turno pela Câmara. 30 dias depois de sancionada, abre-se uma janela para que deputados federais, deputados estaduais e vereadores possam trocar de partido. O texto exclui a possibilidade de que os deputados federais que mudarem de partido tenham portabilidade, ou seja, levem consigo proporcionalmente o tempo de TV e o fundo partidário. Deve ser também ser aprovada pelo Senado em retornar à Câmara para que a reforma se complete. Para valer em 2016, deve ser aprovada até princípio de outubro, um ano antes das eleições.

Vacas gordas, vacas magras

Não faz muito tempo, o Brasil convivia com o fantasma da sobrecarga no consumo de energia elétrica. Chegamos a importar energia dos hermanos argentinos para minimizar o risco de apagões. Nos três primeiros meses de 2014, a demanda por energia por parte das famílias crescia a um ritmo de 6% e a da indústria acumulava alta 1,3% em 12 meses. Este mês, com o freio de mão puxado, o país registrou, no último domingo, o menor consumo de energia desde 2012. Alguém duvida que os tempos agora são outros ?

Tranquilidade para poucos

Analistas econômicos já trabalham com a expectativa de que o desemprego chegue, no final do ano, ao patamar de 9%. Quase o dobro da taxa de 5%, quando o IBGE apontava um quadro de pleno emprego no Brasil, em meados do ano passado. A situação se deteriorou de tal forma e em tão pouco tempo, que, no contexto atual, só três setores conseguem respirar aliviados : agronegócio, tecnologia da informação e parte da área da saúde. Essa parada súbita assusta principalmente por estarmos nos referindo a uma economia de 200 milhões de potenciais consumidores.

Parceria no meio

O PMDB e os partidos de centro esquerda, incluindo o PSDB dos tucanos, abrem a possibilidade de uma parceria em 2016, uma espécie de união de quase todos contra o PT. Se chegarem à conclusão de que esta saída seria absolutamente necessária para dar um fim ao ciclo petista, torna-se bastante viável.

Estado-espetáculo

A OAB/SP reagiu de maneira contundente contra a invasão do escritório jurídico da Odebrecht, por ocasião da prisão do presidente do Grupo, Marcelo. Há uma lei que criminaliza a invasão de escritórios de advogados. Por esta lei, o sigilo do trabalho dos advogados é inviolável e eles só podem ser objeto de busca e apreensão se acusados diretamente de ilícitos. "Houve, sim, uma violação", diz Airton Martins da Costa, da comissão de direitos e prerrogativas da OAB/SP.

Campanha contra corrupção

A OAB/SP lançou nesta segunda-feira uma campanha contra a corrupção, com 11 pontos de destaque. O ato contou com a participação do movimento Ministério Público Democrático, representado pelo seu presidente, Roberto Livianu. Compareceu o presidente licenciado da entidade, Marcos da Costa, que se recupera do grave acidente ocorrido há dois meses. Foi muito aplaudido. A vice-presidente em exercício, Ivette Senise Ferreira, explica o fenômeno : "a corrupção retrata a ausência de institucionalização política eficiente e eficaz, sob uma cultura em que os homens públicos subordinam seus papéis a demandas exógenas, ainda mais em um país, como o Brasil, em que o campo de interesses privados invade frequentemente o espaço da res publica, dando vazão ao patrimonialismo, tronco da árvore dos ismos que floresce no terreno da corrupção : familismo, grupismo, mandonismo, nepotismo, caciquismo, neo-coronelismo, fisiologismo".

Pontos

Entre os pontos que integram a plataforma da Campanha, estão : Criação de Programa Nacional de Combate à Burocracia em todos os níveis da administração pública ; Aprimoramento do aparato legislativo quanto às licitações públicas ; Prioridade, no Parlamento, à tramitação dos projetos de novos Códigos Penal e de Processo Penal ; Redução substancial dos cargos e funções de livre provimento e nomeação ; Vedação, aos ocupantes de cargos eletivos do Poder Legislativo, de afastamento durante o mandato para o exercício de cargos de confiança em outros poderes, sem perda do respectivo mandato ; Autonomia financeira e administrativa dos órgãos de controle interno da administração pública ; Definição de regras claras e procedimentos transparentes para o financiamento de campanhas eleitorais ; Fortalecimento institucional e estrutural das Agências Reguladoras.

Incêndio no alemoa

A Câmara Municipal de Cubatão instalou Comissão Parlamentar para apurar as condições em que se deram o incêndio no tanque da Ultracargo, em abril último. Para dar assistência à empresa foi contratado Luiz Flávio Borges D'Urso, da D'Urso e Borges Advogados Associados. Duas audiências públicas já foram realizadas e D'Urso assegura que a empresa fez tudo o que estava a seu alcance para controlar o fogo e suas consequências, lembrando que, felizmente, tal desastre não provocou vítimas.

Horizontes da Prefeitura-SP

O Instituto Paraná de Pesquisas acaba de fazer uma pesquisa para a prefeitura de São Paulo. Um dos cenários é este : o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), ficaria em terceiro lugar, com 13,8% das intenções de voto ; o deputado Federal Celso Russomanno (PRB) lidera a pesquisa, com 40,8%, e a senadora Marta Suplicy, pré-candidata do PSB, aparece na segunda posição, com 18%. Numa lista apresentada para os eleitores com apenas os nomes dos filiados do PSDB, o resultado foi o seguinte : Bruno Covas (18,9%), Aloysio Nunes (18,1%), Ricardo Tripoli (11%), Andrea Matarazzo (9,7%), João Doria (5%) e José Anibal (4,8%). Os eleitores que não sabem registraram 12,3% e nenhum, 20,2%.

Testemunho para a história

Idos de maio de 1965. Iniciava minha vida jornalística, na Sucursal do Jornal do Brasil, em Recife. Primeira cobertura de peso que o JB me encomendou : acompanhar a caravana da Sudene que iria ao interior do Piauí para assistir o desvio do rio Parnaíba no lugar em que seria construída a Barragem de Boa Esperança. A energia da Barragem iria atender imensa parcela do Nordeste, a partir do Maranhão, Piauí e Ceará. Uma bomba explodiu e as rochas separadas mudaram a vazão do rio, numa cerimônia presidida pelo então marechal presidente Castelo Branco. Sob o intenso medo que batia nos nossos ânimos (os anos duros de chumbo estavam apenas começando), aproximei-me do então ministro Extraordinário de Coordenação dos Organismos Regionais, general Cordeiro de Farias, que se mostrava muito cordato com os jornalistas. A ele me apresentei como jornalista do JB, na época o melhor jornal do país, e me sentindo encorajado narrei este episódio :

– General, sou natural de Luis Gomes, RN, fronteira com a Paraíba e o Ceará. A caravana Prestes passou por minha cidade. Meu pai, Gaudêncio, tinha uma loja de tecidos e cereais. Todos os seus produtos foram confiscados em nome da Revolução. Meu pai guardava no cofre uma mensagem de Luis Carlos Prestes comprometendo-se a ressarcir todas as despesas quando a Revolução saísse vitoriosa.

O que o jovem quer saber ?

O velho general, simpático, recordava-se da passagem por Luis Gomes e também por outra Serra do oeste potiguar, São Miguel. E explicou porque o general Juarez Távora ficara no Ceará, enquanto outros comandantes já se encontravam na Paraíba, lá pelas bandas de Piancó.

Animado, lembrei a ele uma historinha que meu pai me contava :

– Em um grupinho na frente da loja, conversavam Prestes, Cordeiro e mais duas pessoas. Curioso, aproxime-me para ouvir o que diziam entre si. De repente, o comandante Prestes me vê e pergunta :

– O que o jovem curioso quer saber ?

– Apressei o passo e sai de fininho.

Meu pai era fã entusiasmado da Coluna Prestes.

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.