Domingo, 18 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 52

quarta-feira, 10 de maio de 2006


ITAMAR, O DÚBIO

O ex-presidente Itamar Franco carrega a dúvida na cachola. Diz que lutará até o fim pela candidatura própria do PMDB à presidência da República. Prometeu ao deputado Michel Temer que irá a Brasília, dia 13, sábado, para a Convenção do partido. Tem o apoio de Quércia, que condiciona sua candidatura ao governo de São Paulo apenas se Itamar for o candidato peemedebista à presidência. Mas há quem garanta : mesmo se ganhar a Convenção, Itamar desistirá. Receia ser cristianizado, como foi o velho Ulysses, quando candidato ao mesmo cargo.

GAROTINHO, A FOME E A CONVENÇÃO

O ex-governador Garotinho também prometeu ao presidente do PMDB, Michel Temer, que comparecerá à Convenção. Mas como sair da greve? Hoje, quarta-feira, amigos e correligionários farão um movimento, com barulho, em sua defesa. Michel Temer fará um apelo para que deixe a greve de fome em benefício da própria saúde. Garotinho não tem outra saída. Diante dos apelos, sairá da greve e chegará a Brasília, 6 quilos menos gordo, com cara de vítima e de sacrificado. Tudo indica que a Convenção sepultará a idéia de candidatura própria do PMDB.

MAS E A CONVENÇÃO DE JUNHO ?

Ocorre que está marcada para junho a Convenção que decidirá, em definitivo, sobre a candidatura do partido, aprovada na Convenção de 8 de dezembro de 2004. O Superior Tribunal de Justiça julgou, recentemente, o mérito daquela decisão, dando ganho de causa à oposição. Como se recorda, a decisão foi inicialmente questionada pela banda governista do partido, liderada por Renan Calheiros. O ex-presidente do STJ, Edson Vidigal, acolheu a representação, também de interesse de seu patrocinador, José Sarney. Portanto, a Convenção de junho dará a palavra final. Dica fundamental : se esta Convenção de sábado sepultar a candidatura própria, será difícil, para não dizer impossível, ressuscitá-la em junho.

LULA IMPÁVIDO (I)

Lula continua impávido. Como teflon, nada gruda nele. A bomba jogada por Silvio Pereira nem chamuscou a roupa. Por quê ? Respostas : 1) Lula continua falando para as massas, passando por cima do centro social; 2) Os escândalos foram banalizados e até os mais bárbaros não geram impacto; 3) As massas têm dificuldade de assimilar o imbróglio que envolve o sistema político – imaginam, até, que ladrões e corruptos tramam contra Lula; 4) Lula continua a desfraldar a bandeira do pobre que chegou ao Palácio do Planalto – isso comove;

LULA IMPÁVIDO (II)

5) O presidente assumiu uma agenda positiva, de realizações e inaugurações, enquanto a agenda política é negativa, escandalosa; 6) A visibilidade de Lula é muito maior que a de todos os seus adversários, pela cobertura que a mídia confere à liturgia presidencial; 7) Lula transforma argumentos contrários a ele em bastiões de defesa – Exemplo : a paulada que o Brasil levou da Bolívia, com a expropriação da Petrobras (isso mesmo, expropriação) chega nas massas dessa forma: "O gás não vai aumentar, os pobres vão continuar com o gás barato etc". O povão não sabe o que é Bolívia, mas sente quando o gás aperta o bolso.

GERALDO PÁLIDO (I)

No contraponto, Geraldo Alckmin continua pálido. Por que não cresce nas pesquisas ? Respostas : 1) A campanha de rua e a propaganda eleitoral não começaram; 2) O perfil de Geraldo, de harmonia e equilíbrio, é canibalizado pela tormenta ao redor; 3) A pré-campanha tucana está meio bagunçada: não há discurso (um eixo); a estrutura inexiste (Geraldo está praticamente só); a logística é frágil (falta de agilidade na locomoção). Todos os dias, aparece lenha na fogueira da crise. Geraldo parece mais bombeiro. O que mais surpreende é a ausência de um discurso. A fala de Alckmin é obvia: críticas adjetivadas, propostas acacianas ("vamos resolver isso e aquilo", mas sem fundamentação) e boas intenções. Destas, o inferno está cheio.

GERALDO PÁLIDO (II)

Se José Serra não tivesse tanto interesse (inconfessável) de ver Geraldo amargando uma derrota para Lula; se Aécio Neves não torcesse tanto (inconfessável) para ver Geraldo na lona, em outubro próximo, as coisas seriam muito diferentes. Serra e Aécio alimentam sonhos de disputar a presidência em 2010. O horizonte ficaria mais claro para eles com a vitória de Lula. Por essa falta de rubor no rosto de dois tucanos emplumados, Alckmin continua pálido.

E FIDEL, HEIN ?

Depois de receber os comandantes Hugo Chávez e Evo Morales que, em Cuba, trocaram figurinhas sobre a estratégia de nacionalização, de cunho populista, que se implanta na Bolívia, Fidel Castro passou a alimentar o velho sonho de derrubar o "imperialismo norte-americano", menos com arroubo de oratória e mais com os dólares gerados por petróleo e gás dos países amigos da América do Sul. Para atrapalhar a confabulação, uma informação quente da revista Forbes, considerada a bíblia da análise das grandes fortunas no mundo. Pois bem, a revista diz com todas as letras que Fidel tem uma fortuna de US$ 900 milhões, maior que a da rainha da Inglaterra, Elizabeth II, que tem US$ 500 milhões. Entre os chefes de Estados mais ricos, Fidel é o nono. A séria e crível revista Forbes mente ? Pouco provável.

MARTA VAI TRILHAR A CURVA

Marta Suplicy perdeu para o senador Aloizio Mercadante a vaga para disputar o governo do Estado. E, incrível, não pretende ser candidata à deputada federal pelo PT. Teria uma grande votação e poderia puxar votos para a legenda. Quais as razões de Marta para ficar fora do pleito ? O discurso, caros(as) leitores(as). A ex-prefeita tinha um afiado discurso contra Serra : traiu os paulistanos, depois de se comprometer, por documento passado em cartório, que ficaria os quatros anos na administração. Comenta, a boca pequena, que Mercadante não poderá criticar Serra por essa razão, eis que o senador, caso seja eleito governador, deixará o mandato no Senado pela metade. Por isso, Marta não quer ser deputada. Dentro de dois anos e pouco, será candidatíssima à prefeita de São Paulo. Eleita deputada, perderia o discurso. Não gostaria de ser acusada de deixar o mandato no meio. Por isso, prefere trilhar uma curva em vez de uma reta.

MAIS UM EXAGERO

A Constituição Federal é clara: Medida Provisória só deve ser usada in extremis, na hipótese de urgência e relevância. Pergunta : onde estão a urgência e a relevância para justificar o uso de Medidas Provisórias promovendo alterações nas legislações trabalhista e sindical ? Reconhecer Central Sindical é questão de urgência e relevância ? Criar um Conselho Nacional de Relações de Trabalho é coisa urgente ? Lula, Lula, Lula, onde está o bom senso ?

SILVIO E O AVISO

Silvio Pereira, o ex-todo-poderoso secretário do PT, avisou : vocês tenham cuidado, posso soltar os cachorros. Silvio está estressado ? Pode ser. Silvio foi abandonado ? Pode ser. Silvio está mentindo ? Pode ser. Mas a história de Silvio Pereira no PT é seu próprio escudo. Uma pessoa estressada, abandonada, está mais próxima de um desabafo contando a verdade do que de um desatino interpretando a mentira. Se "Silvinho" – termo carinhoso usado pelo companheiro presidente – abrir mais a boca, uma aposta merece ser feita : Lula continuará ou não exibindo a capacidade de desgrudar da crise ?

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.