Quarta-feira, 26 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 612

quarta-feira, 20 de março de 2019

Abro a coluna com Franco Montoro

Depois de deixar governo e Parlamento, Franco Montoro passou a se dedicar ao Instituto Latino-Americano – ILAM. Na condição de presidente, foi a um almoço organizado por grupo de professores da USP no restaurante do campus. Como se sabe, Montoro tinha dislexia, momentos em que confundia nomes. A conversa fluía bem. A certa altura, ele se surpreendeu ao saber que este consultor era potiguar e parente de queridos amigos dele, João Faustino e Sônia. Montoro e dona Lucy foram padrinhos de casamento de uma das filhas do casal. De repente, lá vem a pergunta:

– Como está o Agrário?

Passo a lupa na mente e lamento ignorar a identidade da figura. Mudamos de assunto. O Agrário continua a frequentar a minha cuca. De repente, Eureka. Agrário? Agrário? Não seria o Urbano?

Tomo a iniciativa:

– Governador, será que o senhor não confundiu o Agrário com o Urbano?

– Ah, é claro, é claro. Desculpe. Como vai o Urbano?

Francisco Urbano era presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. Um potiguar muito conhecido nos universos sindicalista e político. Montoro havia confundido o espaço rural com a geografia urbana.

Franco Montoro: exemplo de Honradez e Dignidade.

Estado de sístole

Infelizmente, aquele respirar mais solto, com lufadas de ar entrando e saindo dos pulmões, ainda não acontece. O país continua em estado de contração. A respiração é contida, às vezes a impressão é de falta de fôlego para que o caminhante possa continuar a jornada. Pois assim é: a reforma da Previdência está na pauta central da política, mas o corredor por onde passará é longo. Os políticos querem saber quando entrarão na malha administrativa, indicando quadros e ocupando cargos. A economia está vacilante. A Bolsa bateu os 100 mil pontos, mas anda como caranguejo, prá lá e prá cá. Grandes interrogações assomam.

A diástole virá?

Quando entraremos no clima de descontração? A tensão que permeia o tecido social resulta não apenas das indefinições na frente da política, mas por força de um comportamento do presidente Bolsonaro em querer continuar com a beligerância que guiou sua campanha. O chefe do Estado usa rotineiramente o Twitter para fustigar adversários, todos aqueles que não simpatizam com suas ideias. O ferrão bolsonariano cutuca ânimos e eleva o estado de espírito de seu exército. Os filhos contribuem para avolumar esse arsenal de guerra, usando sua expressão como extensão do tiroteio adotado pelo pai.

O que pretende Bolsonaro

O presidente se posiciona como um soldado da causa ultraconservadora que o elegeu: um homem simples, que usa jargões populares, posicionando-se contra as elites, defendendo os valores da família, posicionando-se contra o aborto, a escola sem partido, a ideologia de gêneros, a favor do armamento da sociedade, combatendo comunistas (geralmente os petistas), defendendo a ortodoxia na economia liberal, contra o "toma-lá-dá-cá" na política, ancorando o governo nas bancadas temáticas, a partir das bancadas dos 3 Bs: Boi, Bala e Bíblia (ruralistas, armamentistas e evangélicos). Até quando adotará esse figurino – que dispensa a articulação com partidos e líderes?

Os filhos versus Mourão

A tensão toma corpo ainda na arena onde o general Hamilton Mourão se locomove. O vice-presidente domina bem o campo da expressão, dando explicações, arrematando o pensamento do presidente Bolsonaro, dando a ele uma interpretação bem mais palatável do que sugere a rispidez de algumas tiradas presidenciais. Mourão é uma pilastra do poder moderador. Explica, põe panos quentes, não quer entrar em briga, como acentua em relação ao filósofo Olavo de Carvalho, o guru da família Bolsonaro, que o chama de "idiota". Noutros tempos, o general Mourão certamente devolveria com juros e correção monetária as imprecações do professor online. Mas o vice quer, claramente, ser um paredão contra os exageros radicais de pensamento e linguagem emitidos pela língua ferina do núcleo familiar e de outros componentes do governo.

E o poder bélico?

Bolsonaro soltou a língua. Entre os elogios aos EUA, o presidente brasileiro enalteceu a "capacidade bélica" da nação americana. Teria pensado nisso para "libertar" os venezuelanos da opressão do governo Maduro? Essa o general Mourão se esquiva de comentar...

Generais seguram o tranco

O fato é que os generais Mourão, Heleno, da Segurança Institucional, Carlos Cruz, da Secretaria de Governo, Floriano Peixoto, da Secretaria Geral da Presidência e Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, formam um escudo de proteção ao presidente. Estão preocupados com a radicalização que ainda toma conta de apreciável banda do governo, temem uma posição do país que possa comprometer suas relações com China e países árabes, tentam trazer o governo mais para o centro, a par de uma ação com vistas ao apaziguamento de ânimos insuflados desde os tempos de campanha. Os generais querem ser fiadores de tempos de paz e harmonia.

Bolsonaros versus Mourão

Há uma acentuada dose de desconfiança nutrida principalmente pelos filhos políticos do presidente, a partir do mais intrépido, Carlos, em relação ao general Mourão. Como este tem se revelado um comunicador de muito bom senso, pode passar a impressão de que promove a "festa da imprensa", sendo bem tratado e bem acolhido por jornalistas que o entrevistam. É natural que essa capacidade de Mourão de abordar temas complexos com a língua bem aprumada e sem rancor gera ciúmes. E há até suspeição, como se viu tempos atrás, de que certas pessoas torceriam para que o presidente Bolsonaro não tivesse boa recuperação. A frase foi despejada pelo filho Carlos quando o presidente se recuperava da facada. O alvo, segundo se diz, seria Mourão.

Rompante

Até o presente momento, o vice-presidente tem se comportado como hábil interlocutor, ouvido por políticos, respeitado por empresários, enfim, inserindo o governo em espaços centrais da sociedade. Mas até quando continuará a linguagem errática, inclusive com vitupérios, com que alguns tratam o general Mourão? Até quando o sangue da indignação não será mais contido e o general passe a usar o fio da navalha para responder aos seus críticos, como o filósofo Olavo?

Caindo a ficha

O governo Bolsonaro ainda não viu a ficha cair. E quando isso ocorrer, vai ter que enfrentar a real politik. Se ele pensa que pode iniciar uma nova era na política, vai se decepcionar. Poderá, até, ser o presidente da transição entre duas eras: a do presidencialismo de coalizão e a da meritocracia. Mas não conseguirá governar sem partidos ou, se for o caso, sem uma bancada de apoio no Congresso. Não se muda uma cultura política da noite para o dia. Bolsonaro vai cair na real. E esse sinal já apareceu quando acertou com Rodrigo Maia, presidente da Câmara, o fluxo da reforma da Previdência. Rodrigo é a chave do portão.

Quando?

É mais provável que a reforma passe pelas casas congressuais no mês de agosto.

Paulo Guedes

Paulo Guedes tem se desdobrado para agradar aos políticos. Mas há uma ameaça pairando acima de nossas cabeças: se a reforma da Previdência não atravessar o Rubicão, o todo poderoso ministro da Economia pedirá o chapéu. A confissão teria sido feita por sua filha, Paula Drumond Guedes, de 35 anos, formada pela Universidade do Sul da Califórnia e com MBA em Wharton.

O trio conservador

A ministra Damares Alves, da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, é uma das mais prestigiadas pelo presidente Bolsonaro. Ao contrário do ministro da Educação, Vélez Rodriguez, teólogo, filósofo, ensaísta e professor colombiano naturalizado brasileiro. O terceiro eixo da ala ultraconservadora é o chanceler Ernesto Araújo, que tem usado as redes sociais para pontuar sobre os rumos do Brasil.

Reciprocidade

O Brasil acaba de abolir o visto de entrada no país para norte-americanos, canadenses, japoneses e australianos. Como diz o decreto no Diário Oficial, trata-se de uma decisão unilateral. Espera-se que, em algum tempo, haja reciprocidade. Este consultor não acredita que os EUA façam o mesmo que o Brasil fez.

Abdenur

Os sinais de uma política externa "altamente ideológica" dados pelo governo do presidente Bolsonaro, que se encontrou ontem com Donald Trump, podem afastar o Brasil de outras nações e ser "profundamente negativos" para os interesses do país. Essa é a visão do embaixador aposentado Roberto Abdenur, que comandou a embaixada brasileira nos Estados Unidos de 2004 a 2006.

STF na berlinda

Nunca se viu nas páginas dos Poderes uma onda tão forte contra o Supremo Tribunal Federal. As redes sociais se enchem de críticas. Alguns ministros, isoladamente, são alvo de intenso tiroteio. Vai ser preciso esforço monumental para que a nossa mais alta Corte volte a gozar de respeito e prestígio.

Um pouco de história

No ano 64 a. C., Quinto Túlio Cícero enviava ao irmão, o grande tribuno e advogado Cícero – protagonista de episódios marcantes por ocasião do fim do sistema republicano e da implantação do Império Romano – uma carta que considero o primeiro manual organizado de marketing eleitoral da história. Ali, Quinto Túlio orientava Cícero sobre comportamentos, atitudes, ações e programa de governo para o consulado, que era o pleito disputado, sem esquecer as abordagens psicológicas do discurso, como a lembrança sobre a esperança, esse valor tão valorizado no Brasil que tem se firmado como base para eleições vitoriosas: "Três são as coisas que levam os homens a se sentir cativados e dispostos a dar o apoio eleitoral: um favor, uma esperança ou a simpatia espontânea".

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.