Sexta-feira, 19 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 76

quarta-feira, 8 de novembro de 2006


LULA VAI À CAÇA

Refeitas as energias, com a prainha isolada, Lula vai à caça dos aliados. Quer fazer uma coalizão parlamentar. Que não cometa o pecado de dezembro de 2002, quando desfez, publicamente, o acordo feito entre José Dirceu (então poderoso Chefe da Casa Civil) e Michel Temer, presidente do PMDB, pelo qual este partido entraria cheio no governo. Que a coalizão parlamentar seja tão bem que não se transforme em coalizão "pra lamentar". Precisa garantir aos partidos decisão nas políticas públicas. E os partidos devem dividir as responsabilidades pela ação governamental.

QUEM VENCERÁ A QUEDA DE BRAÇO

Lula vai deixar Henrique Meirelles na presidência do Banco Central, mas vai tirar alguns diretores considerados muito burocráticos. Quer aliviar o arrocho fiscal, ou seja, vai tentar baixar juros para manter a promessa de crescimento em torno de 5% do PIB. Muito bem. Mas a carga de gastos prevista para 2007, inclusive com a manutenção do Bolsa-Família para 11,5 milhões de famílias, pode estourar o orçamento. Ao mesmo tempo, promete-se freio nos gastos sociais. Se isso ocorrer, os contingentes lulistas protegidos pelo cobertor social vão se queixar do "frio" fora de hora. Leitura à vista: Lula ficará entre a cruz e a caldeirinha.

O MAIÔ DE DONA MARISA

A primeira dama poderia ter sido mais recatada. O maiô com a estrelona vermelha do PT, que desfilou na prainha deserta, ao lado do presidente descansando, foi uma logotipia extravagante com jeito de deboche. O PT foi bem votado, vale lembrar. Daí a ser elevado às alturas – melhor dizendo, elevado ao meio do corpo – parece um exagero do tamanho da crença de que continua a ser o ícone da ética. A propósito, a estrela vermelha plantada nos jardins do Palácio da Alvorada pegou muito mal. Mas a primeira dama teima em reconhecer o erro do passado.

VOLTANDO AOS PRINCÍPIOS

"Quando uma República está corrompida, não se pode remediar nenhum dos males que nascem, a não ser eliminando a corrupção e voltando aos princípios. Qualquer coisa ou é inútil ou é um novo mal". Essa lição é do velho Montesquieu, em "Do Espírito das Leis". Atualíssima.

ENTRE A BORDUNA DOS CACIQUES E O TACAPE DOS ÍNDIOS

O PMDB entrará firme e unido no governo Lula. Mas entrará forte ? Isso vai depender das pastas que conquistar. Ministérios pequenos não interessam ao partido. Para atrapalhar, há as figuras de Renan Calheiros e José Sarney, dois senadores que fazem a cabeça presidencial em matéria de PMDB. Pois bem : Renan quer se reeleger presidente do Senado. Para que isso ocorra, o partido, que fez a maior bancada de deputados (1989) terá de ceder a presidência da Câmara a outro partido. Sarney, por sua vez, quer uma cadeira ministerial para a filha derrotada, Roseana, que entraria no PMDB. Mas a sigla não aceita que ela entre no ministério usando seu guarda-chuva. Ou seja, Lula está entre a borduna dos caciques e o tacape dos índios.

GEDDEL NA CÂMARA ?

Esta coluna previu que Renan teria melhores condições de ser presidente do Senado do que Geddel Vieira Lima ser presidente da Câmara. Mas o baiano leva facilmente o apoio da ala oposicionista do PMDB, sendo um dos poucos nomes a unir o partido. Por isso, fazemos uma revisão das projeções. Renan continua a ter maior cacife, mas Geddel conta com os índios da Câmara, que, convenhamos, fazem mais barulho do que a banda do Senado.

GOVERNADORES FAZEM O CERCO

Na última Veja, Marcelo Carneiro apresentou o Lulômetro, com notas de 0 a 5 aos governadores. A maior nota coube aos petistas e a menor a José Serra, com perfil de maior opositor. A média, tirada por três análises – entre as quais uma feita por mim –, mostra que Lula iniciará o segundo mandato com o apoio de 20 governadores. Mas a fatura deverá ser alta. Os governadores querem melhorar o Caixa formado pelo ICMS. Alguns querem uma boa compensação. Lula quer que os governadores influenciem as bancadas federais. Vamos ver um cinturão de pressões por todos os lados.

BRIGAS NO PT

Lula vai reduzir o espaço do PT. E os vitoriosos do partido querem tomar o lugar dos derrotados. As tendências partidárias estão em pé de guerra : DS, Movimento PT, Campo Majoritário começam a preparar as armas. O médico Arlindo Chinaglia, da tendência centrista Movimento PT, quer ser ministro da saúde, mesmo ministério ambicionado pelo PMDB. Marta briga pelo Ministério das Cidades. O PT nordestino, este sim, ganhará um bom espaço. E a DS, Democracia Socialista, radical de esquerda, deverá diminuir de tamanho no Ministério, apesar de contar com a figura do deputado Walter Pinheiro (BA). Vamos assistir à luta de camarote.

SANTANA SEM ESCRÚPULOS

João Santana, o marqueteiro de Lula, chutou o pau da barraca. Contou tudo. Disse que iludiu o eleitorado. Usou o discurso da "privataria" contra Alckmin porque o inconsciente coletivo guardava a fé nacionalista. Usou e abusou dos simbolismos sagrados da alma coletiva. Foi corajoso. Marqueteiro que mostra as cartas do jogo ou quer aparecer como o grande vitorioso ou quer dizer o seguinte: "Não tenham ilusões, senhores. Somos todos manipuladores. Ganhamos a campanha com um feixe de ilusões". E Viva o Brasil!

JOBIM NA JUSTIÇA

Nelson Jobim está quase "sagrado" ministro da Justiça, "consagrado" que será pelo próprio PMDB. Quando presidente do STF, Jobim foi acusado de ser politiqueiro. Negou veementemente. Como ministro da Justiça, poderá ser um grande advogado do presidente. O que negará. A política anda nas curvas da versão para driblar as retas da verdade. Mas poderá ser um grande ministro da Justiça. Quem sabe....!

ROSEANA VAI, ROSEANA VEM

Roseana Sarney vai para o Ministério ? Se entrar, não será pela porta do PMDB, mas pela via do coração do pai, José Sarney, e pelo sentido de agradecimento de Lula aos "feitos" do senador na seara peemedebista. Ministério Roseânico seria algo como o do Meio Ambiente (que cairia melhor nos braços do irmão Zequinha Sarney, do PV), o das Mulheres. O Ministério das Cidades, o preferido, não deverá escapar das mãos de Marta Suplicy. A não ser que ... a briga do PT, a pressão do Sarney e o agradecimento de Lula tenham uma dimensão maior do que a nossa vista alcança.

NOVO RE-PARTIDO

Diz-se que José Serra está querendo formar um novo partido. Se não costurar as alas, essa sigla nascerá re-partida. O PPS de Roberto Freire, a banda mais conceitual do PMDB, com acentuação de esquerda, e os social-democratas do tucanato seriam bem abrigados sob a nova sigla. Serra tem medo de Aécio Neves e se prepara para engrossar a legenda para 2010. Aécio (esta Coluna já previu) poderá ser candidato à presidência pelo PMDB. Por isso, seria interessante desinflar, desde já, essa sigla. Serra tem cacife para tanto. Governará o Estado mais forte da Federação.

ORGANICOM

Hoje à noite, na Assembléia Legislativa, estarei abrindo o evento de Lançamento da Revista Brasileira de Comunicação Organizacional e Relações Públicas, com uma palestra sobre "Comunicação Pública e Governamental". Trata-se de uma Revista editada pela Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação Organizacional e RP, dirigida pela Profª Margarida Kunsch.

ÁGUA NO FEIJÃO

No Catete, o repórter pergunta a Getulio Vargas: "Presidente, para vencer na política o que é preciso ?" O velho tascou : "Muita coisa, meu filho. Boa memória, por exemplo. A política é como água no feijão. O que não presta flutua. O que é bom repousa no fundo". Daqui a seis meses, vamos ver quem estará flutuando e quem repousará no fundo. A conferir.

100 ANOS DE ASSESSORIA DE IMPRENSA

Sexta-feira, dia 10, estarei abrindo o Seminário Internacional "Eficiência e Práticas em 100 Anos de Assessoria de Imprensa", promovido pelo Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo e com programação que abriga as experiências na América do Norte, Europa, Ásia e América Latina. Será no World Trade Center São Paulo, Av. Nações Unidas, 12.551, a partir das 9 horas.

DOSSIÊ, QUE DOSSIÊ ?

Quem se lembra do tal dossiê falso contra os tucanos ? O interesse pelo caso foi pro brejo. Os integrantes da CPI que apura o caso estão desconsolados com a falta de interesse social a respeito do tema.

VOTO DISTRITAL

O voto distrital será um dos primeiros estatutos em discussão na pauta da reforma política. Tem tudo para ser aprovado. Há um busílis : como se definirá o distrito ? Vai ser uma briga de gente grande. E armada. Porque muita gente vai perder com o uso desse tipo de ferramenta. Útil para a democracia.

DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS ?

Um turco se encontrou com um canibal, a quem acusou : "Sois muito cruéis, comeis os cativos que fazeis na guerra". O canibal retrucou : "O que fazeis dos vossos ?". O turco respondeu : "Nós os matamos, mas depois que estão mortos, não os comemos". O velho Montesquieu não perde a tirada : "Parece-me que não há povo que não tenha sua crueldade particular".

CONSCIÊNCIA NEGRA

O dia da Consciência Negra, 20 de novembro, me motiva para, em plena segunda-feira, homenagear todos os grupos e contingentes discriminados, desde os amarelos asiáticos aos cinzentos que trabalham com a fuligem em minas de carvão, aos brancos de medo da violência das cidades, entrando pela consciência dos verdes que lutam para salvar o planeta e chegando até a floresta dos pálidos de fome na África do lado de lá do oceano e nas pequenas áfricas próximas aos nossos estômagos. Não há povo que não tenha sua maneira particular de comemorar a discriminação.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.