Sábado, 20 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 77

quarta-feira, 29 de novembro de 2006


COALIZÃO MAIS DENSA

A coalizão governamental para sustentar o segundo mandato do presidente Lula é costurada com fios mais fortes do que a realizada em 2002. Lula participa diretamente das conversas. E tem um auxiliar com boa sensibilidade política: o ministro de Relações Institucionais, Tarso Genro, o melhor quadro do PT. Depois de consolidada, a base governista poderá abrigar entre 320 a 330 parlamentares, um grupamento considerável. O eixo da coalizão é o compromisso mais firme dos partidos com as políticas públicas do governo.

TARSO GENRO

Tarso Genro pensa alto. Propõe uma ampla coalizão suprapartidária para encaminhamento e discussão da reforma política. Crê que a aprovação da reforma política só se dará com o apoio das oposições. Defende a idéia de que o oposicionismo não arrefeça suas forças e deixe de fazer oposição, mas alerta para o fato de que matérias de interesse nacional carecem de amplo entendimento entre os partidos. Tarso tem sido a grata surpresa desses tempos de desconfiança e incredulidade. Em almoço, semana passada, no SEAC-SP, tivemos oportunidade de trocar idéias a respeito dos horizontes que se descortinarão ao país em 2007.

PT CHEIO DE AMBIÇÃO

Lula fez o alerta aos petistas : vocês têm de resgatar o ideário ético. Mais : devem se contentar com as gordas fatias que detêm na administração federal. O governo terá de ampliar os espaços do PMDB e dar boa acolhida aos outros aliados. Mas o PT quer continuar com o maior filão. Tem direito, convenhamos. Mesmo não fazendo o mesmo número de parlamentares do PMDB, ganhou a maior votação. E conta com o presidente Lula. Agora, quer também a presidência da Câmara. Muito difícil. O partido deveria se conformar com os ministérios e espaços da área social. A briga promete.

JARBAS E OS INDEPENDENTES DO PMDB

Jarbas Vasconcelos, que deixa o governo de Pernambuco para assumir uma cadeira de senador, passou os últimos anos no esconderijo regional. Já presidiu o PMDB e até parecia conformado em permanecer na surdina. Que nada. O novo senador quer liderar a bancada independente do PMDB na Câmara Alta. Diz que conta com seis senadores. Mas três deles, pelo menos, os senadores Garibaldi Alves (PMDB-RN), Joaquim Roriz (PMDB-DF) e Mão Santa (PMDB-PI) não fazem a linha de independência irrestrita. Estão dispostos a uma conversa. No fundo, a aparente oposição de alguns senadores se relaciona às questiúnculas regionais. Ressaca de campanha.

SERRA / AÉCIO, CHAPA PURO SANGUE ?

José Serra nem assumiu o governo de São Paulo e já é motivo de densa especulação. Desta feita, teria acertado com Aécio Neves o fim da reeleição. Em 2010, Serra encabeçaria a chapa para a presidência com Aécio Neves na vice. Em 2014, seria a vez do mineiro. É difícil acreditar. Aécio é tão mineiro quanto o avô Tancredo. Tem um olho no norte, outro no sul. Se o cavalo passar pela frente, pulará na montaria de 2010. Acerto com quatro anos de antecedência vale tanto quanto uma nota de R$ 4.

SERRA EM 100 DIAS

Imaginei que os tais programas de governo para 100 dias eram coisa do passado. Algo como factóides para chamar a atenção da população. Tentavam exprimir um ideário apontando para questões emergenciais, saneamento das contas, limpeza de canais, enxugamento administrativo, enfim, seriedade e zelo. Geralmente, essa programação de 100 dias era desfraldada por candidatos oposicionistas que venciam eleições. Eis que José Serra ressuscita o defunto. Mesmo não querendo, transmite a idéia de que o governo Geraldo Alckmin/Cláudio Lembo foi um desastre. E que o Estado de São Paulo vive uma calamidade. Se em 100 dias Serra criar um diferencial forte, será o início do take off, a decolagem para 2010.

GARCIA E A IMPRENSA

Marco Aurélio Garcia, o presidente do PT, quanto mais diz que não tem nada contra a imprensa, mais a condena. A razão é simples : no meio da defesa, faz acusações. Sobra a impressão de que o teor negativo é mais denso que o fio positivo.

GEDDEL E EUNÍCIO

Na disputa entre os peemedebistas Geddel Vieira Lima e Eunício Oliveira para presidir a Câmara dos Deputados, o baiano leva a melhor. O cearense Eunício não tem muita simpatia junto à bancada. Mas a presidência, dependendo da boa costura do presidente Luiz Inácio, poderá permanecer mesmo com Aldo Rebelo.

APAGÃO AÉREO

O que será da massa de turista que amargará horas nos aeroportos no final de ano ? Pois o "apagão aéreo", acreditem, só será "apagado" (nesse caso, equacionado) com soluções que abriguem melhores condições de trabalho e salariais para os controladores de vôo. Qualquer outra iniciativa, mesmo a de cunho militar, poderá causar boicote. Punição não é solução. É paliativo.

NOVA ABERTURA DOS PORTOS

Em 1808, o Brasil inaugurou a abertura dos portos e acabou com o monopólio do comércio português. O país precisa de uma nova abertura dos portos, desta feita no campo da reestruturação da infra-estrutura portuária. Os nossos portos são lastimáveis no que diz respeito ao turismo. Temos um dos maiores potenciais do mundo no campo do turismo. Um dos mais belos litorais do planeta. Mas, no interiorzão do país, lá pelo Planalto Central, concentra-se o maior oceano burocrático do mundo, onde águas turvas de portarias, resoluções e normas de conselhos se fundem à ambição de fiscais corruptos e grupos de controle que fazem tudo para fechar os portos aos cruzeiros marítimos. Mesmo comprimidos pela exagerada burocracia, os cruzeiros de final de ano aliviarão milhares de turistas que temem passar horas a fio nos aeroportos.

AGRIPINO CEDERÁ A RENAN ?

José Agripino, o aguerrido líder do PFL no Senado, quer disputar com Renan Calheiros a presidência do Senado. Mas teme perder o apoio dos tucanos. Confiar no tucanato é complicado. Trata-se de um tipo de ave que gosta de contemplar as próprias penas. Renan, por sua vez, tem o apoio de Lula e muitos espaços na administração federal. Agripino garante que vai lutar. Mas não tem vocação para suicida.

PIZZA, PIZZA E MAIS PIZZA

Que a pizza tinha uma grande camada de mussarela, já se sabia. Pensava-se, porém, que serviria não mais que uns 20 parlamentares. Que nada. São 70 parlamentares cujos processos estão praticamente parados nas instâncias parlamentares. Três senadores acabam de comer fatias grossas da pizza senatoriana. No Brasil, é assim : cometa o crime hoje, enrole o caso na folha seca do tempo e, depois de amanhã, abra o pacote da absolvição. Comemore com muita pizza.

A IMAGEM DA PRESIDENTE

A poderosa ministra presidente do Supremo Tribunal Federal quer aumentar os salários dos ministros e integrantes do Conselho Nacional de Justiça. Nem bem o país saiu da crise do mensalão e as altas Cortes já discutem aumentos dos supersalários. Não tem nada a ver uma coisa com outra, dizem alguns. Tem, sim. Trata-se de zelar pela res publica e seus valores. Aumentar salários em tempos de descrédito nas instituições parece um contra-senso. A boa imagem da ministra Ellen vai para o beléléu. Se já não foi.

CABRAL, O ECUMÊNICO

Sérgio Cabral, eleito governador do Rio de Janeiro, é o mais ecumênico dos peemedebistas. Abriga no secretariado pessoas do PT, PV, PFL e PSDB, ou seja, Benedita da Silva, Carlos Luppi, José Paulo Conde e Eduardo Paes, que são potenciais candidatos a prefeito do Rio de Janeiro. O que pretende Cabral ? Redescobrir o Brasil e atrair todos os índios, dando a eles espelhinhos de presentes ?

E ALCKMIN, HEIN ?

O que fará Geraldo Alckmin ? Diz-se que fará um "intensivão" no Exterior. É interessante. Sai da ressaca eleitoral, deixa os parceiros limpando a poeira e reorganizando o tucanato. Quando voltar, poderá ser candidato a prefeito. Não quer. Por hoje. Amanhã, quando lhe mostrarem as pesquisas que o deixarão léguas na frente de Gilberto Kassab, dirá: "se o povo me quer como candidato, não posso negar". Kassab não tem boa imagem de administrador. Pegou nele a pecha que também "queimou" a imagem de Marta Suplicy, a de pessoa com cabeça que só pensa em imposto.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.