Domingo, 20 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 82

terça-feira, 23 de janeiro de 2007


LEGISLATIVO PAULISTA

O prefeito Gilberto Kassab puxou o tapete de seu amigo Rodrigo Garcia, atual presidente da Assembléia Legislativa, que sonha em permanecer no cargo. Como o sonho de Kassab é a candidatura à prefeitura, em 2008, faz tudo para agradar ao governador José Serra, trabalhando pela eleição do tucano Vaz Lima à presidência do Legislativo paulista. Kassab sonha alto, mas o candidato mais viável à Prefeitura aponta para o nome do ex-governador Geraldo Alckmin, que não pretende ficar quatro anos sem mandato. O PSDB vai romper, assim, o casamento com o PFL.

PAPAI SABE TUDO

Álvaro Uribe, presidente colombiano, não gostou da observação feita pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, de que o acordo entre os Estados Unidos e a Colômbia não beneficiava a população do país. Quando chegou o momento de falar, por ocasião do Encontro do Mercosul, no Rio de Janeiro, semana passada, Uribe deu um forte puxão nas orelhas de Morales. Falou quase 20 minutos, chamando a atenção de Evo para as circunstâncias do acordo e a condição colombiana. Quem deu o troco foi seu defensor e patrocinador, Hugo Chávez. Ao tomar as dores do presidente boliviano, Chávez argumentou que o discurso de Uribe foi “desproporcional” à “pequena” crítica feita por Morales, que ouviu, calado, as perorações. O comandante venezuelano saiu-se, mais uma vez, como histrião. Obteve da mídia a atenção desejada.

FESTIVAL DE BESTEIRAS

Por ocasião da cobertura em torno da cratera aberta na estação Pinheiros da linha 4 do Metrô, as emissoras de TV esmeraram-se em “puxar” os eventos, em alguns momentos, sob um monumental festival de abobrinhas. No meio das especulações, uma chamou a atenção pelo inusitado “furo jornalístico”. Um repórter, no meio da tarde, que cobria o fato para o programa da apresentadora Sônia Abrão, anunciou o “furo”, referendado por Abrão, após insistente repetição: “a Van, de tão comprimida pelo barro, ficou do tamanho de 50 centímetros”. Um microônibus resumido a meio metro. Óbvia conclusão: as ferragens, o motor e a lataria dissolveram-se.

A BRIGA SÓ AGORA VAI COMEÇAR

Depois da eleição do presidente da Câmara, em 1º de fevereiro, o presidente Lula formará o Ministério. Espera-se que organize um Ministério de perfil mais técnico para operar o PAC – Programa de Aceleração do Crescimento. Mas se fizer isso, rachará a base de apoio que, com muito custo, tenta compor. Entre 10 a 12 ministérios seriam fatiados com os políticos. Por isso, o cenário de lutas está sendo preparado. Quem não for contemplado com fatias que considere fartas, abrirá o arsenal de armas. O céu de brigadeiro, breve, poderá ficar plúmbeo.

GABEIRA E O DISTRITAL

O deputado carioca Fernando Gabeira, perfil sério e ético, defende o voto distrital misto, nos termos que este colunista tem pregado: um voto para o candidato mais próximo ao eleitor e um voto ao representante mais comprometido com questões nacionais. É o caso da Alemanha. Ocorre que, entre nós, o busílis está na dimensão do distrito: onde começa e termina um distrito?

URNAS FRAUDADAS?

Há uma denúncia grave no ar, a de que as urnas eletrônicas das últimas eleições no Estado de Alagoas foram fraudadas. A denúncia foi feita com base em laudo técnico patrocinado pelo candidato derrotado, o empresário João Lira, e realizado por um Instituto considerado idôneo. Lira, na véspera da eleição, tinha praticamente os mesmos índices do candidato vitorioso, o tucano Teotônio Vilela, que acabou ganhando com quase o dobro dos votos. O Tribunal Superior Eleitoral garante que as falhas não comprometem o resultado geral das eleições alagoanas. Mas seu presidente, ministro Marco Aurélio, considera séria a denúncia. E pediu averiguações. Ao se comprovar a fraude, cai por terra um símbolo de respeito das eleições brasileiras: a urna eletrônica.

A LUTA NA CÂMARA

A entrada do deputado Gustavo Fruet, tucano, na disputa pela presidência da Câmara, esquenta o embate e contribui para a democracia. Trata-se de um parlamentar oposicionista, cuja bandeira é a da defesa do Parlamento, significando menos subordinação ao Executivo, pautas substantivas e controles éticos. Fruet participará do debate na TV Câmara. Aldo e Fruet darão combate à Chinaglia, ao qual tentarão imprimir a marca de compromisso com os velhos esquemas. Ocorre que o médico petista é, até o momento, o favorito. Se o debate na emissora estatal escapar para a mídia massiva e chegar no seio da opinião pública, Chinaglia perderá o favoritismo, prevendo-se que a campanha tenha um 2º turno. Nesse caso, Rebelo poderá levar a melhor.

BUCCI, ADMINISTRAÇÃO DEMOCRÁTICA

Eugênio Bucci, presidente do sistema Radiobrás, faz uma administração avançada. Não confunde os meios de comunicação do Estado como veículos de propaganda do Governo. Tem lutado com unhas e dentes para defender o escopo de uma comunicação mais democrática, menos engajada com partidos e ideologias e, sobretudo, mais plural. Merece o respeito de quem milita no sistema brasileiro de comunicação.

PAC, PRIMEIRAS IMPRESSÕES

O Programa de Aceleração do Crescimento foi lançado com muita pompa. O volume de R$ 503 bilhões a serem aplicados até 2010 é seguramente apreciável. Mas a descrição cansativa dos ministros Guido Mantega e Dilma Rousseff das estratégias, projetos e ações mais pareceu um bê-á-bá simplório de economês. O fraseado, meio lido meio interpretado, foi cansativo. Dona Marisa piscou o olho algumas vezes, sinalizando sono.

UM TOM MAIS CRÍTICO

Quem esperava elogios rasgados ao PACote, ficou decepcionado. O tom crítico foi mais forte. Governadores reclamam que não foram ouvidos. Economistas garantem que as medidas não serão suficientes para garantir um crescimento de 5%. Empresários gostariam de ver coisas mais arrojadas e a turma do agronegócio ficou a ver navios. Nada lhes foi oferecido. E a Previdência? Nem foi citada. A impressão geral é a de um grande remendo em cima de roupa velha. Os recursos da União ganharam um roteiro. O dinheiro novo – que efetivamente vai entrar – é pouco. A Petrobras é a responsável pela maior parte das ações.

SE DER CERTO....

Especula-se que se o PACote der certo, Lula bancará uma mudança constitucional para garantir um terceiro mandato. Observação: a maior fatia dos recursos contemplará as regiões que votaram maciçamente em Luiz Inácio, principalmente o Norte e o Nordeste. Este colunista não crê na possibilidade de um terceiro mandato, pelo menos por duas razões: o ambiente político-institucional reagiria com dureza, com o apoio das classes médias, e o PACote será furado, por não atingir a meta do crescimento acelerado.

AÉCIO NEVES, MAIS ÁCIDO QUE SERRA

Aécio Neves foi mais ácido que José Serra na crítica ao PACote. Queixa-se da forma como foi embrulhado sem as mãos dos governadores. Neves quer, desde já, marcar presença no segundo mandato de Lula.

SELIC COM 0,25 OU 0,5%?

O ministro Guido Mantega cobrou publicamente queda maior da taxa Selic. A reunião do COPOM, na quarta-feira, será um teste de resistência para Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. Se baixar pouco, ficará a impressão de que não colabora com o PACote. Se baixar um pouco mais, será um aliado de primeira hora. Façam suas apostas.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.