Domingo, 18 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 91

quarta-feira, 4 de abril de 2007


A MAIOR CRISE

A maior crise do governo Lula terá efeitos duradouros. Não se pense que a desmilitarização do controle do tráfego aéreo acalmará o turbilhão de mágoas e indignação que inundou espaços vitais das Forças Armadas. Lula desautorizou o ministro da Aeronáutica, proibindo punição aos sargentos amotinados. Fez isso quando estava no Aerolula ao encontro de Bush. Ao regressar, viu a coisa preta. E desdisse o que disse. Chamou os controladores de irresponsáveis. Acabou desagradando uns e outros. Lula agiu como sindicalista, não como presidente da República. Quebrou os dois eixos que balizam as Forças Armadas em todo o mundo: disciplina e hierarquia. E abriu a maior crise de seu governo.

ONDAS CONCÊNTRICAS

Ninguém duvide. O efeito provocado por ondas concêntricas que saem do meio social chegam - mais cedo ou mais tarde - às margens. Interpretando: o Apagão Aéreo age, sobretudo, sobre os setores médios da sociedade. Pega os mais abastados, que viajam muito, mas constituem um contingente menor; abarca as classes médias do último patamar, que começam a viajar de avião; e as classes médias-médias, o maior grupo. Significa dizer que as marolas revoltas no meio da lagoa formarão ondas que chegarão às margens sociais. Resultado: dentro de dois a três meses, as pesquisas acusarão o efeito cascata. Se Lula continuar reinando absoluto por cima da carne seca, pode se candidatar a Imperador Luiz I do Brasil do Terceiro Milênio. É claro que continuará a ter o apoio das massas por conta do Programa Bolsa Família. Mas verá o meio da pirâmide social se estreitar um pouco mais para ele.

CPI PARA CERCAR A INFRAERO

Se a CPI do Apagão foi acesa, a Infraero será queimada. E esse cerco poderá estrangular figuras de proa, entre elas, o ex-presidente da empresa, o hoje deputado Carlos Wilson, de Pernambuco. Comenta-se à boca pequena que sairá muita lama do buraco da Infraero. E o ambiente na Câmara será novamente o de Delegacia de Polícia. Mesmo que a formidável barreira governista - 376 parlamentares - se transforme em escudo indevassável do governo.

GERALDO NA PREFEITURA

Geraldo Alckmin correu ligeirinho em direção à cúpula tucana. Procurou limpar os entulhos do caminho em direção à Prefeitura de São Paulo. Será mesmo candidato. Sonha com o cargo. O outro G, o do prefeito Gilberto, quer continuar no cargo. Não haverá aliança entre PSDB e DEM, ex-PFL. O novo presidente do DEMocratas, deputado Felipe Maia, filho de César Maia, recebe a orientação do pai: o partido precisa ter candidatos pelo Brasil afora. Os Maia não querem fechar com Serra. Mas Gilberto Kassab confia no governador e conta com seu apoio. Serra quer ver Geraldo sem muita força. Mas se pesquisas indicarem boas possibilidades, Alckmin ganhará a posição de candidato.

MARTA E O GOVERNO PAULISTA

Marta Suplicy acaba de dizer que sonha com o governo de São Paulo. Balela. Ela quer mesmo é voltar à Prefeitura. Primeiro, porque nessa área tem mais chances de ganhar; segundo, porque no Ministério do Turismo, depois de um ano e pouco, poderá dar a coisa por vista, ou seja, sem muitos desafios, se sentirá desconfortável no cargo. Marta é corajosa, determinada. E seu grupo político não quer largar pé da Prefeitura. Os Tatto que o digam; o deputado Cândido Vaccarezza, idem. Marta tem boas chances de voltar, principalmente se o candidato da situação for Gilberto Kassab e não Geraldo Alckmin.

PF DÁ PEQUENA FOLGA

Os policiais federais até que gostariam de dar uma paradinha no serviço esta semana para continuar a justa jornada por aumento salarial, não estivesse o país inoculado pelo vírus do Apagão Aéreo. Não querem que seu movimento seja confundido com o motim dos sargentos da Aeronáutica. Mas a PF está insatisfeita. Significa que Tarso Genro terá muitas dificuldades se não der uma solução imediata ao pleito dos policiais.

FALA MALUCA DO LUPI

Semana passada, o novo ministro do Trabalho, Carlos Lupi, presidente do PDT, em entrevista a O Globo, respondendo a uma pergunta sobre sua nomeação, disse: "antes de eu ser convidado, investigaram toda a minha vida. Chegaram a ir no colégio em que estudei. Ninguém encontrou nada que agredisse minha honra. Também não sou corno e, além disso, não tenho paixão por pessoa do mesmo sexo". Que coisa, hein? Não se sabia que o governo "tributa" ministros com aqueles tributos...E mais: que linguagem mais trôpega para alguém que vai comandar o Ministério do Trabalho e do Emprego, hein?

A FORÇA DA FORÇA SINDICAL

Pois é, a CUT cede lugar à Força Sindical no comando da Pasta do Trabalho. Não se espere um ciclo de paz entre as duas Centrais. Paulinho, do PDT, ganha força. Marinho, do PT, perde um eixo importante para a construção de seu edifício político. Mas os "inhos" se encontram facilmente nos desvãos do sindicalismo, como o fazem na mobilização a favor do veto à emenda 3.

ANISTIA AOS REVOLTOSOS

Os sargentos amotinados serão processados pelo Ministério Público Militar. Mas eles esperam ser anistiados por um projeto de anistia que Lula enviaria ao Congresso. Se Lula fizer isso, causará ainda mais indignação às Forças. Se não fizer, será considerado traidor pelos controladores, a quem protegeu por ocasião do motim. Ou seja, se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. A conferir.

LULA PEDIRÁ PACIÊNCIA?

Diz-se que Lula irá à TV para pedir paciência à população. É risível. Depois de 6 meses de tumultos em aeroportos, pedir paciência é acreditar mesmo que Deus baixou no espírito presidencial.

DE PIRES NA MÃO

Até quando Waldir Pires, ministro da Defesa, defenderá o pires na mão, ou seja, continuará posando de ministro?

EFEITO CASCATA

Coronéis se recusaram a atender a ordem do brigadeiro Carlos Vuyk de Aquino para assumir o sistema do Cindacta I. Outros chefes maiores fizeram o mesmo em Curitiba, Recife e Manaus. O caos instalou-se no país ao sabor da ruptura da hierarquia. Deus Salve o Rei.

PORTEIRA FECHADA?

Lula diz que não haverá porteira fechada. Mas prometeu aos partidos, por ocasião do fechamento da aliança, que teriam inteira responsabilidade sobre as ações do Ministério. Duas falas, duas promessas, uma interrogação: onde está a verdade do presidente? Se um Ministério abrir as porteiras, não caberá ao ministro de determinado partido assumir por completo as ações comandadas por indicados de outros partidos.

STF E O APAGÃO

O STF deve decidir favoravelmente ao direito das minorias e mandar instalar a CPI do Apagão Aéreo. Arlindo Chinaglia espera pela decisão para tomar providências.

LEMBRETE

600 suboficiais, sargentos e cabos da Marinha e Aeronáutica amotinaram-se nos idos de setembro de 1963. Nos idos de março de 1964, os militares apearam Jango do poder. É claro que o Brasil, hoje, é bem diferente do país daqueles tempos sombrios. Não há, hoje, ameaças que possam alterar de maneira profunda a base institucional. Porém, cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

QUEM EMPLACARÁ?

Hillary Clinton, a senadora democrata pelo Estado de Nova Iorque, já arrecadou US$ 26 milhões para sua campanha. O pré-candidato republicano, o ex-governador Mitt Romney, US$ 23 milhões. Rudolph Giuliani, republicano, ex-prefeito de Nova Iorque, US$ 15 milhões. E o candidato de Hollywood, o senador negro Barack Obama, ainda não divulgou a arrecadação. Quem emplacará a candidatura dos partidos democrata e republicano? Há gente que aposta em Al Gore, que perdeu a parada para George W.Bush, pelo partido democrata. Carrega o discurso mais avançado, o do meio ambiente.

CONTEMPLANDO...

Espiando para cima, não se enxerga céu de brigadeiro. Olhando o mar quilômetros adiante, não se vê horizonte de marinheiro. Navegamos no meio de nuvens plúmbeas e águas turbulentas....Mas há uma fresta mostrando tempos claros nos dias de amanhã. Até porque vivemos num país ciclotímico.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.