Quinta-feira, 17 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 99

quarta-feira, 6 de junho de 2007

MALHA CORPORATIVA

Renan Calheiros será salvo pela malha corporativa. Não passa de três o número de senadores que gostaria de tirar Calheiros da cadeira presidencial do Senado. Mas nem estes têm coragem de acusá-lo. O senador alagoano sabe ouvir. E, como confessor, abre o coração para atender os pedidos dos infiéis. Atende a todos. Inclusive, a um ou outro que poderia ser mais oposicionista. Eis um caso em que o corporativismo se alia ao compadrismo para fazer a Festa do Perdão.

INVERSÃO DE SITUAÇÕES

A coisa tem certa comicidade. Renan fez tudo para encobrir a "paternidade não programada", fruto do relacionamento com a jornalista Mônica Veloso. Descoberto o "causo", Calheiros faz tudo para "desencalhar" as informações, no fluxo e contra-fluxo de insinuações, acusações e defesas. Documentos antes secretos, agora, tomam um banho nas fontes da publicização.

PF NA CASA DO VAVÁ

Pois é, entraram na casa do Vavá. Parece até letra de música carnavalesca. Mas a Operação para flagrar a máfia dos caça-níqueis não apurou nada na casa do irmão de Lula. Por que a Polícia Federal entrou na residência ? Teria havido informação de que Vavá guardava caça-níqueis ? Esperavam encontrar quilos de documentos mostrando fraudes ? Parece até marketing. Ou seja, o Governo Lula é um exemplo de independência. Noutros termos : "Lula manda prender o irmão". Isso é justiça. Isso é Direito. Isso é Cidadania. Vavá, porém, não foi preso. Não encontraram nada. E o saldo fica por conta de manchetes que não atestam o que queriam atestar. E assim caminha o Brasil.

100 MIL SERVIDORES PARADOS

Pois é, o Brasil caminha parado. Como é que é ? É isso. Cerca de 100 mil servidores federais estão em greve. Mas o Brasil caminha. Até parece que esses milhares de servidores são dispensáveis. O impacto dessas greves sobre a rotina das pessoas é quase zero. Já o impacto sobre certas áreas é estrondoso. Vejam abaixo.

IBAMA PARADO

Trata-se de um imbróglio que será, logo, resolvido. 3.060 dos 3.400 servidores do Ibama estão em greve. A ministra Marina Silva prometeu ao presidente Lula providenciar a licença para a construção do complexo hidrelétrico no rio Madeira. Lula cobrou essa licença com veemência. Mas a licença não sairá imediatamente. Lula garante que, quando regressar da Índia, mandará iniciar as obras, com licença ou sem licença. Vamos ver como o presidente da República agirá em um caso típico em que o "mando" do comandante-chefe se depara com o "desmando" de subordinados. A conferir.

TROCA-TROCA

O Tribunal Superior Eleitoral já se pronunciou contra o troca-troca partidário. Avisou que os "trânsfugas", termo que usou para designar os parlamentares que trocam de partido, poderão ser punidos. Mas o aviso caiu no baú do esquecimento. Parlamentares continuam a mudar de sigla. E assim caminha o Brasil da impunidade.

CHÁVEZ NA BERLINDA

É pouco provável que o Senado brasileiro breque a entrada da Venezuela no Mercosul. A querela foi por conta do "mimo" com que o coronel Hugo Chávez brindou a Câmara Alta : "O senado brasileiro age como papagaio do Congresso americano". Os senadores se revoltaram e ameaçam boicotar a votação do protocolo que prevê a adesão da Venezuela ao bloco do Mercosul. Lula dará as cartas finais. O dito será jogado no lixo do não dito.

CHÁVEZ FECHA TV E PT APROVA

E o velho PT de guerra marca posição em favor de Chávez quanto à não renovação de licença da RCTV. Fez nota dando razão ao comandante. Colocando as coisas no devido lugar : é natural a não renovação de licenças para emissoras de TV e rádio, que são concessões do governo. A não renovação é uma prática dos países democráticos. Ocorre que, na Venezuela, o fator político se superpõe ao fator técnico. Nas democracias contemporâneas, a não concessão se dá em função de questões técnicas ou de flagrantes de ilícitos. Seria este o caso da Venezuela ? Seguramente, não.

PERIGOSO TERRENO DA GALHOFA

A estudantada da USP começa a ingressar no perigoso terreno da galhofa. A ocupação da Reitoria ultrapassa a medida do bom senso. Serra perdeu a vez para interferir com força. O diálogo que abriu chegou tarde. Deveria ter sondado antes de fazer os tais decretos que são interpretados como "ameaça à autonomia universitária". E, assim, a galhofa entra em cena explícita : "o casamento da Reitora Suely Vilela com o secretário Aristodemo Pinotti", encenado pela alunada festiva, de madrugada, é a extensão mais evidente do despropósito a que chegou essa ocupação da Reitoria. E assim caminha o Brasil baderneiro.

600 BILHÕES DE REAIS PELA JANELA

É verdade ? É, sim. O vice-presidente da República, no exercício da presidência – com a viagem de Lula para a Índia – afirmou em alto e bom som : o Brasil jogou R$ 600 bilhões pela janela. Foi o que pagou de juros no primeiro governo Lula. Critica a taxa Selic a 12,5%. O país avançaria milhares de quilômetros em direção ao futuro caso tivesse investido aquela montanha de dinheiro em saúde, educação, estradas, saneamento, casas populares, segurança pública. E Lula, o que acha, hein ? Deve sorrir de orelha a orelha. E, como agrado, nomeia Mangabeira Unger para o "Ministério Aloprado" – a tal Secretaria do Longo Prazo, a pedido de quem ? Do próprio vice-presidente da República, José de Alencar. E assim caminha o Brasil do faz-de-contas.

SERRA CAI

O governador José Serra começa a descer o despenhadeiro da política. Poderá se recuperar, mais adiante, mas a impressão, hoje, é a de um perfil hesitante, que se sobrepõe à imagem do experiente e qualificado administrador. Serra desce a montanha em decorrência da inabilidade na condução da ocupação da Reitoria da USP. Os setores médios estranham o comportamento abúlico do governador.

CIRO DESANCA

Que Ciro Gomes tem o pavio curto, sabe-se. Agora, desanca o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, que se diz contrário ao suprimento de gás subsidiado para a siderúrgica a ser construída no Ceará. Ciro fala em canalhice quando se refere a Gabrielli. E inicia uma trajetória para se fixar nas bordas da esquerda, de onde espera ser guindado à posição de pré-candidato à presidência da República pelo seu PSB e entorno.

CUIDADO, GOVERNADORES

A PF tem muito gás para gastar. Vem mais Operação por aí, desta feita para conferir as benesses, vícios, jogadas, artimanhas e conluios de governadores e dirigentes de Assembléias Legislativas.

INFORMALIDADE CRESCE

Eis um dado que mostra a necessidade de o Governo reorganizar a legislação trabalhista. Os trabalhadores informais passaram, em 2005, a representar 47,9% da mão-de-obra. Por que não incentiva o mercado formal amparando a Terceirização de Serviços e o Trabalho Temporário, que são modalidades formais, e que podem se tornar fortes alavancas do emprego ? Lula já disse que gostaria de ver flexibilizada a legislação trabalhista. Com a palavra, o ministro do Trabalho e Emprego, o pedetista Carlos Lupi.

MANGABEIRA VEM AÍ

Quando o ministro "SEALOPRADO" (Secretaria de Assuntos de Longo Prazo) Mangabeira Unger tomar posse, poderemos assistir a uma solenidade risível : um sotaque "carregadíssimo" de americano se desculpando do passado anti-lulista e prometendo dar ao país a cartilha para leitura do futuro.

REFORMAS TRABALHISTA E SINDICAL ?

O ministro Carlos Lupi promete driblar as questões polêmicas que as reformas trabalhista e sindical certamente abririam no Congresso e viabilizá-las por meio de Medidas Provisórias. A emenda será pior do que o soneto. A conferir.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.