Sexta-feira, 23 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 119

quarta-feira, 31 de outubro de 2007


O QUINTO DEGRAU

"Garibaldi, na escada de 10 degraus que conduz à presidência do Senado, você até onde chegou ?" O senador potiguar, ex-governador do RN por duas vezes, responde modesto : "O quarto, nem cheguei ao quinto". Se chegar ao quinto, tem 50% de chances de ficar no lugar de Renan Calheiros. Passou uma hora e meia conversando com Lula. Foi uma conversa franca, principalmente ao explicar sua conduta independente na CPI dos Bingos. Garibaldi Alves participará, na próxima segunda-feira à tarde, de teleconferência patrocinada pela Consultoria de Mailson da Nóbrega, Tendências.

A BOIADA DE MARANHÃO

Quem também está no páreo disputando a cadeira da presidência da Câmara Alta é o senador José Maranhão, que também já comandou a Paraíba por duas vezes. Há quem não o veja na reta final. O senador tem uma boiada bem maior que a de Renan. Teria inflado o patrimônio em 8 anos. É o que está na mídia. Ademais, Maranhão quer voltar ao governo da Paraíba e só pensa em apear do cargo o tucano Cássio Cunha Lima. A decisão será tomada, breve, pelo TSE. Como se prevê, há muita curva pelo caminho.

TIÃO VAI BEM

Enquanto as negociações entopem os ouvidos, Tião Viana, o presidente interino do Senado, dá mostras de competência na articulação. Acalmou os ânimos e dirige com serenidade os trabalhos. Sob seu comando, a CPMF deverá ir a plenário na Casa.

CPMF, ALTERAÇÃO EM JANEIRO

Pois é, as negociações indicam que eventual diminuição na alíquota (hoje de 0,38%) da CPMF poderá ocorrer em janeiro de 2008. O governo tende a aceitar a hipótese. Tucanos e democratas ainda batem o pé. Mas o acordo virá pela pressão a favor dos governadores. Os Estados acreditam que terão uma lasquinha da Contribuição.

UMA LIÇÃO DE BRASIL

Jorge Gerdau é um ícone do empreendedorismo brasileiro. Uma hora e meia de conversa com este empresário é uma verdadeira aula de Brasil. Sua receita para o Brasil abriga conceitos de elevação da taxa de investimentos, controle dos gastos do governo, diminuição da carga tributária, gestão pública eficaz, aumento da produtividade e uma base de valores. Recordamos os tempos passados quando a palavra carregava a força da verdade e do compromisso. Meu pai, eu disse, quando assumia um compromisso não precisava assinar nada. E ele : "Construí minha empresa sobre uma base de valores". Seus negócios, neles inspirados, se espalham, hoje, por muitas regiões do mundo.

E A POLÍTICA ?

O DEM até pensa em lançar seu nome como candidato à presidência da República. Sem chances. Do alto de sua sabedoria, dr. Jorge ensina : "Os orientais dizem que depois de cinco quadras de 12 anos – depois dos 60 – precisamos sair da vanguarda para a retaguarda, de onde poderemos ajudar os outros a cumprir as suas tarefas e a realizar os seus ideais".

O FOCO É A CLASSE MÉDIA

Agora, o foco é a classe média. O governo Lula tenta cooptar a simpatia da classe média organizando programas voltados para seu bolso. O FGTS abrirá créditos para que integrantes dos setores médios possam adquirir a casa própria com financiamento facilitado. A base da pirâmide é toda lulista. O topo nada em um oceano de ganhos. Faltava a classe média.

TERCEIRO MANDATO

Não há dúvida que um plebiscito, nesses tempos de ampla cooptação, daria larga vitória à mudança constitucional com vistas a um terceiro mandato presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva. Lula, porém, reage à idéia. Seria uma coisa vergonhosa para a nossa democracia. Doze anos no poder abrem espaço para a instalação de um império de ditadores. Nas atuais condições do mundo democrático, um mandatário sairia pelas portas do fundo caso permanecesse tanto tempo.

E POR QUE A IDÉIA ?

Mas setores petistas trabalham com a hipótese. O deputado Devanir Ribeiro, ex-sindicalista, tenta levantar a bandeira do plebiscito. E essa tentativa passa a ocorrer depois de conversa reservada entre o presidente e um grupinho mais chegado a ele. Será que o presidente teria autorizado algum balão de ensaio ? Tudo leva a crer que, com a idéia do plebiscito, setores do PT desejam criar cacife para futuras negociações. Se a emenda tem condições de ser aprovada pelo voto popular, por que não patrociná-la ? Tem sentido.

O AFFAIRE LANCELOTTI

A Igreja Católica decidiu ir à luta para defender o padre Júlio Lancelotti, vítima de extorsão. Os acusados denunciam o padre por pedofilia. É um caso e tanto. O novo cardeal brasileiro, arcebispo de São Paulo, d. Odilo faz a defesa pública do padre. Uma questão permanece no ar : como alguém inocente entra no jogo perverso da extorsão ? Não seria o caso de denunciar o fato na origem ? Se o padre for inocente, a Igreja e o padre terão fortalecidas suas ações na área dos Direitos Humanos. E se a imagem do padre for borrada ?

A UNIVERSAL PERVERSA

A Igreja Universal, que deve ter montanhas de pecados, haja vista a lista de denúncias sobre os negócios do bispo Edir e sua troupe, quer tirar partido do caso Lancelotti. Até parece que desconhece a voz dura de Cristo dirigida àqueles que queriam apedrejar Maria Madalena : "quem nunca pecou, que atire a primeira pedra".

A BOLA DA VEZ

Se as projeções da mídia acertarem, a bola da vez será Romero Jucá, senador pelo PMDB e líder do governo no Senado. O último caso envolvendo Jucá foi a prisão de dirigentes da FUNASA, em Roraima, patrocinados por ele, dentro da operação Metástase, da Polícia Federal. A revista Época dá a dica : depois de Renan, Jucá. Antes, a revista Veja mostrara o senador por trás de situações nebulosas de aquisição de emissoras de rádio e TV naquele Estado. A conferir.

ECOS DA TERCEIRIZAÇÃO

O Fórum da Terceirização, patrocinado pelo SEAC-SP, deixa alguns ecos : dentro de uma economia liberal, regular contratos entre entes do mercado constitui um despropósito, mas, diante de ameaças e pressões sofridas pelos segmentos de prestação de serviços terceirizados, a necessidade de legislação própria é imprescindível; parcelas sindicais, principalmente Centrais, combatem a terceirização, porque esta enfraquece alguns de seus sindicatos; no combate, teimam em confundir precarização do trabalho com terceirização, que remunera com salários das categorias e cumpre as obrigações legais, fiscais e tributárias; deverá sair de um consenso a legislação para a área.

O XEQUE-MATE DO EXECUTIVO

A idéia da terceirização está madura no espaço do Poder Executivo. Já não existem grandes obstáculos para sua regulamentação. Há, isso sim, discordância sobre aspectos pontuais. Se demorar muito a tramitação de projeto de lei na esfera do Legislativo, o secretário de Relações do Trabalho, Luiz Antônio Medeiros, diz com exclusividade à esta Coluna : "Chamarei todos os interessados – trabalhadores e empresários – e chegaremos a um consenso. E, como resultado, poderemos chegar a uma Medida Provisória." Esse é o xeque-mate do Governo. Daí a sugestão : apressem-se, senhores parlamentares da Subcomissão de Serviços.

CARDOZO BEM NA FOTO

O deputado José Eduardo Cardozo está bem na foto da disputa para a presidência do PT. Seja qual for o resultado e os nomes dos dois candidatos a entrarem no segundo turno (ele poderá ser um deles), o professor Cardozo sairá fortalecido porque seu perfil expressa mudança, avanço, oxigênio nas veias quase entupidas do velho Partido dos Trabalhadores.

INTIMIDADE EXPOSTA

Dona Verônica, mulher do senador Renan Calheiros, abriu o bico e descreveu os fatos mais recentes da intimidade com o presidente licenciado do Senado. Mônica Bergamo aproveitou a deixa e deu uma coluna especial na segunda-feira. Saiu-se bem. Mas o resultado não é satisfatório : o affaire Renan continuará abrindo espaços na mídia e nas bocas fofoqueiras graças a mais este episódio de desejo explícito de visibilidade pública. A liturgia do poder vai, mais uma vez, para o brejo.

A DUREZA DE SARNEY

O senador José Sarney é considerado um perfil apaziguador. Não se ouve dele publicamente palavra que possa ferir os ouvidos do interlocutor. Mas o ex-presidente da República decidiu engrossar. Pede (e lutará por isso) para que o Senado não aprove o ingresso da Venezuela no Mercosul. Enxerga no comandante do país vizinho a embocadura do ditador. Por esta causa, bato palmas para o senador.

E CABRAL, HEIN ? QUANTA BOBAGEM

Gente inexperiente cai sempre na armadilha da palavra. Foi o que aconteceu com o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que conseguiu produzir a maior besteira verborrágica dos últimos tempos : as favelas são fábricas de marginais. Esqueceu de dizer que a marginalidade não é exclusividade das favelas; que a marginalidade decorre da inação ou da ineficiência das políticas públicas; que o sangue do favelado é contaminado pela sujeira da agulha enfiado nele pelos braços do Estado.

MARINHO ARRUMA O TRAJETO

Luiz Marinho quer porque quer ser prefeito de São Bernardo do Campo, berço de Lula e do velho PT. Todos os finais de semana, promove encontros e participa de eventos. Tem uma Cordilheira bem na sua frente : Maurício Soares, ex-prefeito, perfil muito querido e candidato do atual prefeito William Dib. Ademais, Marinho é ministro de uma Pasta no fundo do poço, a da Previdência. Vai ser difícil agüentar a parada, mesmo com a ajuda do amigo Lula.

A RAINHA CRISTINA

A vitória da Rainha Cristina, na Argentina, acende o farol de alguns perfis femininos, mas o foco de Dilma Rousseff será o mais forte. Algumas pessoas lembram o nome de dona Marisa Letícia. Ou querem fazer graça ou querem esculachar.

CONSELHOS AOS CANDIDATOS

Esta Coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos aos políticos e governantes. Na semana passada, o espaço foi dedicado ao senador Tião Viana, presidente interino do Senado. Hoje, volta sua atenção aos eventuais candidatos a prefeitos em 2008 :

1. É hora de sentir o pulso do eleitorado.

2. É útil mapear o universo organizativo das cidades.

3. É bom começar a ordenar um programa de trabalho pautado pelos critérios da racionalidade, operacionalidade, viabilidade, objetividade e simplicidade.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.