Quarta-feira, 16 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 126

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

LULA INSENSÍVEL

O presidente Luiz Inácio dá às oposições, neste início de ano, o discurso que lhes faltava. PSDB e DEM viviam um estado catatônico. O pacote de impostos lhes deu sangue. Agora, podem contar com a pressão da opinião pública na mobilização nacional contra a escalada de impostos. O pior é que Lula, alma sensível, parece ter desligado os fios que conectam sua cabeça aos dutos sociais. Para complicar, Guido Mantega – que segundo ex-colegas dos tempos de USP não era bom exemplo de inteligência – colocou o presidente em maus lençóis, ao dizer que a expressão lulista contra aumento de impostos só valia para 2007.

KASSAB INSENSÍVEL

O prefeito Gilberto continua "kassando" fatos para aparecer. O que poderia ser um programa interessante – alargamento de avenidas – acaba atrapalhando a vida dos cidadãos. Na época do Natal, a capital tornou-se intransitável. Nesse ano eleitoral, promete inaugurar obras todos os dias. O velho marketing da forma aconselha-o a arquivar o paletó e a gravata. Basta camisa comprida e revirada nas mangas. A insensibilidade "kassabiana" continua a dar o que falar. Agora é o desmonte da calçada – com paralelepípedos artísticos – do SESC - Pompéia, projeto da prestigiada arquiteta Lina Bo Bardi. A quebradeira foi uma bola fora.

SERRA INSENSÍVEL

O festival de insensibilidades se expande. O governador José Serra pretende criar obstáculos para que o tucano Geraldo Alckmin seja o candidato do PSDB à prefeito de São Paulo. As únicas possibilidades que restam ao tucanato em matéria de prefeitura de capital, na eleição desse ano, são Curitiba e São Paulo. Na capital paulistana será travada a maior batalha eleitoral do país. Ora, partido sem base municipal inexiste. E, como se sabe, o PSDB continua a ser uma entidade voltada para abrigar setores da elite. Alckmin é, hoje, o perfil mais indicado para enfrentar a petista e ministra Marta Suplicy.

PRESSÃO SOBRE MARTA

O PT, por sua vez, só terá chances em São Paulo com a candidatura Marta Suplicy. Nenhum outro candidato emplaca. Por conseguinte, a pressão para que a ministra seja candidata será irresistível. Ocorre que o seu sonho é com o Palácio dos Bandeirantes em 2010. Lula será instado a entrar no jogo : é, Marta, não tem jeito. A bola está com você.

POLARIZAÇÃO

Mas o prefeito Gilberto não recuará da decisão de se candidatar. O DEM quer marcar posição e aposta que ele quebrará a polarização entre Alckmin e Marta. Pode ser, mas é muito difícil. A luta na capital exibe grupos centrais e periféricos em posições muito eqüidistantes. Prevê-se uma "onda sangrenta" de verbos, advérbios, interjeições e exclamações. É mais provável que o tucano e a petista entrem para o segundo turno. E os votos de Gilberto deverão convergir em maior número para Geraldo. Vamos acompanhar as batalhas.

NOSTRADAMUS TERÁ SEMPRE RAZÃO

Nostradamus já previra que, na abertura do terceiro milênio, um negro comandaria o país mais forte do planeta. Barack Obama começa bem o percurso nas prévias norte-americanas. Poderá ser presidente dos EUA. E se Obama perder para Hillary Clinton ? Os estudiosos de Nostradamus arranjarão maneira de dizer que, nas pegadas iniciais do terceiro milênio, a fortaleza do homem daria lugar à força portentosa da mulher na direção da maior potência ocidental. Afinal, quem vai conferir, letra por letra, sofisma por sofisma, os quase indecifráveis escritos de Nostradamus ?

REZEM POR MIM

O vice-presidente da República, José Alencar, é de uma simplicidade comovente. Não esconde a gravidade da doença que o ataca. E pede contrito: "Rezem por mim". É um homem que merece o nosso respeito. E as nossas homenagens a uma autoridade pública que não teme dizer que o pacote governamental é um "remendo".

GARIBALDI SURPREENDE

O novo presidente do Senado Federal, senador Garibaldi Alves (PMDB-RN), está surpreendendo. Prega a independência do Congresso, diz que o governo errou ao não fazer articulação adequada com o Parlamento a respeito da CPMF; continua a dizer que o Executivo exagera com o novo pacote tributário; recomenda cautela nos cortes das emendas; e pede que o governo dialogue com as oposições. Trata-se de uma expressão plena de cautela e bom senso.

O CASO LUPI

A Comissão de Ética Pública continua a insistir que o ministro Carlos Lupi deixe o ministério do Trabalho e Emprego por ser presidente do PDT. Ora, nas democracias representativas, os partidos, quando integram coligações, participam do Poder Central. Nada mais justo e legítimo que sejam representados por seus presidentes. Nas democracias parlamentaristas, a regra é a de participação plena dos chefes partidários na administração governamental. O Advogado-Geral da União, José Antonio Dias Toffoli, não vislumbra "nenhuma ilegalidade ou inconstitucionalidade na acumulação do cargo de ministro de Estado e de presidente de partido". Aconselha que se estude a questão de maneira mais profunda, com "ampla análise doutrinária, de jurisprudência e de direito comparado".

MARCÍLIO, INTERESSADO ?

A questão deveria se manter em caráter reservado, até a conclusão da apuração de prática de desrespeito às normas éticas. Mas o presidente da Comissão, Marcilio Marques Moreira, deu ampla publicidade ao tema. De acordo com o regulamento da Comissão, "eventuais conflitos de interesse, efetivos ou potenciais, que possam surgir em função do exercício das atividades profissionais de membro da Comissão, deverão ser informados aos demais membros". Ademais, o integrante que, em razão de sua atividade profissional, tiver relacionamento específico em matéria que envolva autoridade submetida ao Código de Conduta da Alta, deverá abster-se de participar de deliberação que, de qualquer modo, a afete. Marcílio faz parte do Conselho Administrativo da American BankNote (ABN), que tem contrato com o Ministério do Trabalho em valor que ultrapassa R$ 5 milhões para confecção de carteiras de trabalho. Deveria se julgar incapacitado para pedir a exoneração de alguém.

STÉDILE ESQUENTADO

Se depender de João Pedro Stédile, diretor nacional do MST, o Movimento não dará mais tréguas a Lula. Como se sabe, no ano passado, o MST foi mais contido. Ocorre que Lula fez poucas desapropriações, apenas um terço da média anual do primeiro mandato. Neste ano eleitoral, o Movimento poderá chutar o pau da barraca.

ATAQUES GRATUITOS

José Dirceu melou a roupa com que, até então, se apresentava aos distintos públicos. Parecia comedido, modesto, sem a antiga arrogância. De repente, gira a metralhadora e ataca meio mundo : Lula é atingido por uma bala disparada contra Lulinha; os gaúchos são atingidos em cheio, a partir do melhor quadro do PT, inequivocamente, o ministro da Justiça, Tarso Genro; o presidente do Senado, Garibaldi Alves, que não teve e não tem relação direta/indireta com Dirceu, é chamado de gaiato. Qual a razão ? Resumo da ópera: José Dirceu cava mais fundo o buraco da sepultura política. E poderá fechar torneiras de influência.

O SENADO E OS DECRETOS LEGISLATIVOS

O presidente do Senado, Garibaldi Alves, não convocará a Comissão Representativa do Congresso Nacional para analisar a proposta do decreto legislativo derrubando norma editada pela Receita Federal para controlar as transações financeiras. O argumento : falta de tempestividade, na medida em que os bancos só encaminharão os balancetes para a Receita daqui a seis meses. Portanto, a matéria poderá ser discutida pelo Congresso após o recesso parlamentar. Da mesma forma, não pretende transferir para a Comissão Representativa a análise do projeto de decreto legislativo do Senador Álvaro Dias destinado a suspender os efeitos do decreto presidencial que aumentou a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). O aumento deste imposto é de competência exclusiva do Executivo.

QUEM SAI GANHANDO COM O PACOTE ?

Quem sai ganhando com o pacote do governo para aumentar a carga tributária ? Alguns economistas crêem que o setor produtivo sairá ganhando, principalmente setores de valor agregado. Uma coisa é certa : a sociedade, como um todo, não agüenta mais pacote tributário que limpe o bolso dos contribuintes.

CONTANDO COM O OVO

O senador Romero Jucá parece muito ativo nos bastidores. Há dias, Merval Pereira, em comentário na Globo News, disse com todas as letras que ele se preparava para deixar a liderança do governo no Senado e assumir o governo de Roraima porque o novo governador, Anchieta Júnior, seria cassado. Ora, Merval não diria uma coisa dessas se não fosse alimentado por fontes escondidas. Membros dos Tribunais jamais diriam isso. O governador Anchieta deveria cuidar melhor dessa plantação de versão estapafúrdia.

PROPOSTA DE MICHEL TEMER

O presidente do PMDB, deputado Michel Temer, proporá esta semana ao presidente Lula que considere a idéia de convocar os chefes dos outros Poderes – Legislativo e Judiciário – os presidentes de partidos e líderes nas Casas congressuais para discutirem, conjuntamente, a proposta do Executivo na área tributária. Ele acredita que essa convocação contribuiria para melhorar a relação entre os Poderes além de democratizar as decisões.

O SENADOR LULA

Lula continua a dizer, na intimidade, que sonha em morar em Pernambuco. Leia-se : quer ser senador em sua terra natal. Dali, percorrerá o país comandando a campanha de sua patrocinada, Dilma Rousseff, à presidência da República. E esquentaria as áreas sociais – enquanto Dilma esquentaria seu lugar no Planalto – para que ele pudesse voltar pelos braços do povo em 2014. Sonhos de Lula, claro.

CONSELHO AO PRESIDENTE LULA

Esta Coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos aos políticos e governantes. Na edição anterior, o espaço foi dedicado ao ministro Guido Mantega. Hoje volta sua atenção ao presidente Luiz Inácio :

1. Dê mais atenção aos setores médios da sociedade

2. Consulte e aconselhe-se mais com os presidentes de partidos políticos que integram a coligação governista

3. Mantenha a coerência no discurso

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.