Terça-feira, 23 de abril de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 136

quarta-feira, 26 de março de 2008

DOSSIÊS, A FARSA

O dossiê que a revista Veja divulgou, dando conta do uso de cartões corporativos por dona Ruth Cardoso e pelo ex-presidente Fernando Henrique, abriu mais uma crise (pequena, é verdade) entre governistas e oposicionistas. O ministro Tarso Genro, da Justiça, tentou justificar : apenas atendemos um pedido do TCU. O Tribunal de Contas da União desmente. Não pediu nada. A ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, tentou consertar a mancada, ligou para a ex-primeira dama desmentindo o feito. Ficou pior a emenda que o soneto. Os tucanos querem, agora, escancarar a porta : conferir as contas da intimidade presidencial, nos tempos de FHC e da atual administração. Mas o PT formou um escudo para encobrir a rede do cartão corporativo.

CONTA POR CONTA

É evidente que os tempos são outros. Naquela época, quase ninguém se dava conta da existência de cartão corporativo. Hoje, esse instrumento passou a ser sinônimo de desonestidade, tramóia, corrupção. E o uso do cartão para comprar coisas da intimidade, no espaço do governo petista, cria mais impacto, é mais escandaloso.

KASSAB VERSUS ALCKMIN

A querela se acirra. Gilberto Kassab não quer recuar. Geraldo Alckmin não quer desistir. Sérgio Guerra, presidente dos tucanos, veio a São Paulo, mas volta a Brasília de bolsos vazios. Quem tem razão nessa história ? O deputado estadual Ricardo Montoro, secretário de Participação e Parceria da Prefeitura de São Paulo, defende a candidatura de Kassab. Mas não fecha os ouvidos ao argumento : o PSDB não pode deixar de ter candidato no maior colégio eleitoral do país, que é São Paulo. E, ante o argumento de que não há nenhuma afinidade ideológico-doutrinária entre PSDB e DEM, rebate : os escopos doutrinários dos partidos brasileiros foram jogados no lixo. Não existem. Por isso, temos de fazer as alianças das conveniências e das circunstâncias.

CIRCUNSTÂNCIAS E CONVENIÊNCIAS ?

Mas, falando em conveniências, Geraldo Alckmin tem grandes possibilidades de levar a melhor e, portanto, deveria aproveitar as circunstâncias. Ao que o secretário responde : as circunstâncias favorecem Kassab. Basta ver a pergunta espontânea nas pesquisas de intenção de voto : Kassab está em primeiro lugar. O deputado esquece que nem sempre a resposta espontânea corresponde à resposta estimulada. O voto no dia da eleição é estimulado. De qualquer modo, não se pode desprezar a base argumentativa do deputado Montoro, cujo sobrenome honra a política brasileira. Franco Montoro : que perfil grande e digno!

TUCANOS E PETISTAS

O Diretório Nacional do PT ameaça obstruir a aliança entre petistas e tucanos para eleger Marcio Lacerda (PSB) prefeito de Belo Horizonte. O nome é patrocinado pelo governador tucano e pelo alcaide petista Fernando Pimentel, que pretende ser governador em 2010 com o apoio de Aécio. E este, por sua vez, quer sair candidato à presidente da República com o apoio de Lula. A ponte inicial da grande articulação levaria na base os tijolos construídos este ano na campanha municipal da capital mineira. Mas o PT nacional, que só olha para o próprio umbigo, pode melar o jogo.

LULA, PORÉM...

O presidente Lula, porém, como o maior eleitor do país, poderá melar qualquer jogada mal feita do PT. A candidata in pectore de Lula é Dilma Rousseff. Não sendo viável, ele tem como opção : Ciro Gomes, Aécio Neves e os petistas Patrus Ananias e até Fernando Pimentel. Põe uma pontinha do olho em Eduardo Campos, do PSB de Perbambuco, e em Sérgio Cabral, do PMDB do Rio de Janeiro. Mas, para ganhar de José Serra, hoje disparado nas pesquisas de opinião pública, apenas um nome se apresenta em condições de crescimento : Aécio, neto de Tancredo Neves, mineiro, jovem e sorridente. Diferente da carranca de Serra. Apoiado por Lula, seria difícil perder o jogo.

ROGER AGNELLI, O DIRIGENTE DA VALE

Roger Agnelli recebeu, ontem, o prêmio Personalidade de Vendas da ADVB. Deu um recado objetivo e corajoso : quer fazer da Vale a mineradora número um do mundo. Aposta nos potenciais do país. Credita o Prêmio que recebeu à comunidade da Companhia. Mostrou com palavras simples - sem rebuscamento - como se faz uma grande empresa. Emocionou-se com a presença das quatro mulheres de sua vida : a mãe, a mulher, a filha e a irmã. E deixou na platéia de empresários reunidos em almoço no Clube Monte Líbano a impressão : mereceu o Prêmio e a aclamação.

AS BRECHAS DAS MPs

O Executivo não quer retroceder em matéria de Medidas Provisórias. Combinou com a base o seguinte : terão validade de 120 dias, 60 em cada casa congressual. No 11º dia, se não for votada, passará a figurar como primeiro item da pauta. Se for aprovada alteração da ordem, ganha mais um dia. Ou seja, em caso de três alterações, poderia ter vida útil de 123 dias. No fundo, trata-se de mais do mesmo. Ou seja, o Executivo continuará a legislar às pencas.

LULA MAIS QUE TRANQUILO

A crise é sistêmica. Dos Estados Unidos, poderá se alastrar a muitos países. Mas Lula está mais tranqüilo - em estado zen - do que monge budista. Comandou, na segunda-feira, a reunião do Conselho Político. Foi a reunião mais calma do Conselho desde sua existência. Lula disse mais ou menos o seguinte : estamos até preocupados com a crise. Mas tudo se resolverá. Até o fim do ano, as coisas se acalmarão. A conferir.

UM BRASILEIRO NERVOSO

Um brasileiro, que trabalha como consultor de um banco norte-americano, sem disfarçar o nervosismo, confessa a este escriba : a coisa aqui está preta. Os bancos de investimento estão demitindo em massa. Estamos todos nervosos. Até bancos importantes como o famoso .. (deixo de citar por questões óbvias), que lidera a área de bancos de investimentos, começou a demitir gente. A crise deverá chegar por aí, mas como o país está muito calçado, é possível que o solado do sapato resista às intempéries.

O CASO BABÁ

O TSE julgará, amanhã, recurso contra a cassação do ex-Deputado César Babá (PSC-RR). Nos últimos anos, políticos de muitos Estados foram cassados por compra de votos e improbidade administrativa. O TRE de Roraima votou a favor da cassação de César Babá, eleito com 1433 votos nas eleições de 2006. É acusado de ter distribuído cartões magnéticos com um chip que registrava o voto. O eleitor recebia a quantia de R$ 20 na hora de votar e a promessa de receber mais R$ 80 depois da confirmação do voto apurado. Checado pelo chip. Depois do pleito, os eleitores procuravam o deputado eleito para receber o dinheiro. Babá não fez o pagamento e provocou a ira dos votantes que acabaram denunciando. A conferir.

VIRGÍLIO EM VIGÍLIA

Arthur Virgílio, líder do PSDB no Senado, telefona a este escriba para refutar a tese de que as obstruções feitas pela oposição no Senado não levam a nada, conforme minha visão expressa no artigo "Quando a oposição é a favor", de O Estado de S. Paulo, de 16/3/2008. Arthur argumenta que é importante mostrar que o situacionismo não pode funcionar como rolo compressor. Que são necessárias barreiras de contenção. Mas Arthur reconhece que a oposição precisa arrumar um discurso-proposta para o país. O líder dos tucanos no Senado, deve-se reconhecer, é um homem valente, com discurso bem alinhavado e pleno de idéias. Permanece atentamente em vigília.

TEMER E O PT

Michel Temer, presidente nacional do PMDB, tem a palavra oficial do PT de que o compromisso será cumprido. Ou seja, que o comando da Câmara Federal, na próxima legislatura, será dele. Mas o PT põe uma condição : que o comando do Senado seja entregue ao PT, mais exatamente ao senador Tião Viana, do Acre. Ocorre que o regimento do Senado diz claramente que a direção da Casa pertencerá ao maior partido, no caso, o PMDB. O PT é o terceiro partido, perdendo até para os tucanos. O imbróglio será resolvido mais adiante. Só para lembrar ao PT: o ex-PFL já dirigiu as duas casas congressuais, na mesma legislatura.

A SÍNDROME SEVERINO

Marqueteiros conhecidos pela maneira pérfida de fazer campanhas - intrigas, assédios imorais, compra de eleitores, plantação de notas em colunas suspeitas - começam a manobrar nos bastidores para eleger como presidente da Câmara, na próxima legislatura, ex-braço direito do ex-deputado Severino Cavalcanti, de triste memória. A engenharia da operação é maquiavélica : fofocas, presentes (até roupas íntimas com motivos indecorosos) e muita promessa. A síndrome Severino tem acólitos. Olho neles, parlamentares!

BONITA CAMISA, FERNANDINHO

Todos os Fernandos da década de 1980 se lembram da campanha das camisas USTOP. Fernandinho, rapaz franzino, bajulava o chefe e usava as mesmas camisas que ele. Numa reunião da empresa, o chefe de Fernandinho, ao vê-lo usando a camisa USTOP, derramava-se em elogios : "bonita camisa Fernandinho". A propaganda brasileira abre espaços para teses em Universidades. E o puxa-saquismo continua a fazer história.

CONSELHO AO PREFEITO CÉSAR MAIA

Esta Coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos aos políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição anterior, o espaço foi destinado aos membros da equipe econômica. Hoje, volta sua atenção ao prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia:

1. Aceite a realidade : há uma epidemia de dengue no Rio de Janeiro. Que precisa ser combatida em todas as frentes.

2. Peça ajuda federal e estadual. Não se combatem mosquitos com discursos.

3. Aproveite a boa vontade do Exército para disponibilizar batalhões fardados com equipamentos e máquinas borrifadoras de inseticida - fumacês - para inundar o Rio de Janeiro.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.