Quinta-feira, 25 de abril de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 164

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

PMDB, O GRANDE VITORIOSO

O PMDB foi, sem dúvida, o maior vitorioso do pleito, com a conquista de 1.203 prefeituras, uma bancada de mais de 8 mil vereadores, comando de seis capitais, presença firme em cidades acima de 200 mil habitantes, um capital de quase 30 milhões de eleitores e um formidável orçamento de R$ 47 bilhões, soma de recursos das cidades sob seu comando. Torna-se, assim, "a noiva mais cobiçada da República". Os noivos, eventuais candidatos à presidência da República, em 2010, a partir de José Serra, pelo PSDB, e Dilma Rousseff, preferida do presidente Lula, vão fazer cerco ao partido. Querem tê-lo como parceiro preferencial.

O PEEMEDEBISMO GOVERNISTA

Hoje, a tendência mais forte dentro do partido aponta para a permanência na aliança governista, ou seja, a manutenção da proposta de casamento entre PMDB e PT. Trata-se de uma tendência com base na práxis. O partido comanda ministérios e estruturas administrativas na esfera federal. O presidente do partido, Michel Temer, conta com o apoio de Lula para voltar ao comando da Câmara Federal, em 2009/2010. A cúpula partidária fecha posição em torno da aliança. Figuras exponenciais já adiantaram suas posições ao lado de Lula, além de Michel : o senador José Sarney, o ministro Geddel Vieira Lima, o governador Sérgio Cabral, o governador Roberto Requião, entre outros.

O PEEMEDEBISMO OPOSICIONISTA

Há uma ala do partido, hoje bem estreita, que pende para as oposições, principalmente se o candidato for o governador Serra. Nesse caso, figuras como o senador Jarbas Vasconcelos e o ex-governador Orestes Quércia, fecham posição ao lado do tucano. Jarbas perdeu muito espaço em Pernambuco, apequenando o porte do PMDB no Estado. Quércia viu seu PMDB, em São Paulo, eleger apenas dois vereadores. Mas conseguiu fazer uma boa aliança com o DEM e com o PSDB, inserindo Alda Marco Antônio como vice na chapa de Gilberto Kassab.

O PEEMEDEBISMO PRAGMÁTICO

O PMDB é uma confederação de partidos e grupos. Cada Estado tem seu cacique. Essa condição, que pode parecer negativa, faz parte da própria essência peemedebista. E é a maior vitamina partidária. Graças aos diversos núcleos internos, o PMDB consegue se fazer presente em todas as mesas, em todos os foros, vestindo camisas de cores diferentes. É esse perfil que lhe confere extraordinária capilaridade. Pois bem : com esse pragmatismo, o PMDB fixa um olho no presente e outro olho no futuro; um olho se dirige a Serra, outro pisca para Lula, patrono da pré-candidata Dilma. No momento exato, o partido jogará na balança as duas medidas e seguirá o caminho indicado pela mais pesada, ou seja, a que lhe oferecer maiores expectativas de poder.

EXPECTATIVA DE PODER

Esse será verdadeiramente o conceito-chave a inspirar a decisão do PMDB. Quem oferecer as melhores condições, as melhores possibilidades, os maiores ganhos terá mais cacife para captar o apoio peemedebista. E mais : o partido poderá, até, in extremis, caminhar com dois candidatos. Como, aliás, já ocorreu, em 2002, quando uma parte acompanhou com Lula e outra fechou com José Serra.

REELEIÇÃO

Dos 20 candidatos à reeleição nas capitais, só o prefeito Serafim Fernandes Corrêa (PSB) não se elegeu. Perdeu para o velho cacique Amazonino Mendes.

IMAGEM ARRANHADA

Ao se empenhar de maneira agressiva por candidatos de sua especial predileção, o presidente Luiz Inácio ultrapassou limites do bom senso. Foi o que ocorreu, por exemplo, em Natal, quando freqüentou o palanque da candidata, a deputada petista Fátima Bezerra, derrotada por Micarla de Souza. Ali, Lula desancou o senador do DEM, José Agripino. Em São Paulo, como cabo eleitoral, não conseguiu transferir prestígio para Marta Suplicy. E, como analista político, chegou a proclamar em sua última viagem internacional : "escreva aí, Marta vai ganhar em São Paulo". Impressão generalizada : a imagem do presidente saiu arranhada na foto eleitoral.

AS CURVAS DA JUSTIÇA

Joselyr Silvestre teve a candidatura para prefeito de Avaré impugnada pelo TRE/SP por decisão unânime do colegiado. Foi condenado por impunidade administrativa, como prefeito, em ação movida pelo Ministério Público. A sentença transitou em julgado. Contra a decisão publicada em agosto passado não cabia recurso. Tentou reverter a impugnação da candidatura. Perdeu. A vice-prefeita, Lilian Manguli, assumiu a prefeitura. Joselyr tentou reverter a condenação no TJ/SP, mas não obteve sucesso. Recorreu ao TSE, onde o relator deu provimento ao recurso. Concorreu à eleição, mas os votos recebidos foram considerados nulos e Miguel Paulucci, o segundo colocado, foi proclamado eleito pela juíza da 17ª Zona Eleitoral de Avaré. Agora, Paulucci interpõe agravo regimental contra decisão do ministro relator, alegando que o prefeito cassado está inelegível. São as curvas da Justiça. E agora, quem assumirá ? Com a palavra, o colegiado da mais alta Corte Eleitoral.

JILMAR E O PRÊMIO OBTUSO

Jilmar Tatto, deputado federal petista, explica a derrota de Marta Suplicy : "formou-se uma frente das elites paulistanas contra a ex-prefeita". Por falta de tato ou por desrespeito ao voto de eleitores das camadas mais carentes que votaram em Kassab, o parlamentar Jilmar (com J mesmo) merece o Prêmio Obtuso da Temporada.

CENÁRIOS SOMBRIOS

"O crescente redemoinho seria o retorno em círculos, que faz a crise financeira girar ainda mais fora de controle... A coisa verdadeiramente chocante é a forma como a crise está se espalhando para os países emergentes – como Rússia, Coréia do Sul e Brasil." (Paul Krugman, economista e colunista do New York Times). "A aterrissagem forçada dos mercados emergentes poderá se tornar o 'segundo epicentro' da crise global; os mercados financeiros dos EUA foram o primeiro" (Stephen Jen, economista-chefe de câmbio do Morgan Stanley).

CRISE MAIS DOLORIDA

A crise internacional provocará dores mais fortes no Brasil do que sugerem as otimistas análises do ministro Guido Mantega. Vejam o que ele diz : "Não estou aqui defendendo a tese do não-contágio. Ela impacta também". Mas os efeitos serão menores porque as economias têm um dinamismo maior do que as chamadas economias avançadas. Há um pano de fundo que precisa ser descortinado : a falta de um acordo no âmbito da rodada Doha. Isso afetará bastante o Brasil. Quem faz essa previsão é o sueco Christer Manhusen, presidente da Câmara de Comércio Sueco-Brasileira. Os cenários são assombrosos. O estrangulamento do crédito e a contração da demanda agregada ao consumo gerarão um círculo vicioso.

RETRAÇÃO DE CRÉDITO

O crédito vai desacelerar depois de ter crescido 33% no ano passado e 25% este ano. A previsão é do economista Armando Castellar, da Gávea Investimentos.

REDUÇÃO DE GASTOS

O discurso dos candidatos eleitos começa a incorporar a linguagem da crise. Os prefeitos das capitais já falam em cortes do Orçamento. É oportuno preparar o ambiente para o ciclo das vacas magras.

KASSAB ABRE HORIZONTES

Em termos individuais, Gilberto Kassab se apresenta como um grande vitorioso do pleito. Obteve a maior votação na capital paulistana desde a eleição de Jânio Quadros, em 1953. Comandará uma administração com orçamento de quase R$ 30 bilhões em 2009. É, hoje, a maior expressão do DEM. Trata-se de um político habilidoso. Figura-chave para o projeto presidencial de José Serra, na medida em que passa por ele o endosso à aliança DEM-PSDB, Kassab abre novos horizontes para seu partido, que perde espaços a cada eleição. No comando da maior prefeitura do país, o engenheiro e economista Gilberto Kassab, que já foi vereador, deputado estadual e deputado federal, será referência nos horizontes da política.

RECALL PARLAMENTAR

Quando um parlamentar, no meio do mandato, opta por uma candidatura majoritária, submete-se, de certa forma, ao recall, a uma espécie de re-chamada, reconvocação. Ou seja, pergunta ao eleitor se quer que ele, candidato, continue prestando serviços, agora como prefeito. No pleito deste ano, 95 parlamentares submeteram-se ao teste. Desse grupo, 76 receberam o cartão vermelho da reprovação. Não passaram pelo teste.

E GABEIRA, HEIN ?

Fernando Gabeira fez uma campanha limpa e enxuta. Sem recursos, sem cartazes, sem materiais impressos. E quase chegou lá. Perdeu por menos de 1%. A abstenção no Rio aumentou de 17,91% para 20,25%. Isso significa 107.157 votos. As maiores abstenções ocorreram nas regiões do Centro, da Zona Sul e da Grande Tijuca, mais favoráveis a Gabeira. Há relação entre abstenção e o feriado prolongado decretado pelo governador Sérgio Cabral ? Os analistas políticos acreditam que há. Gabeira, o puro, teria sido contaminado por ares impuros ?

AFIF GANHA ASAS

Guilherme Afif é outro perfil que sai bem na foto eleitoral. Coordenador do programa de governo de Kassab, Afif é um dos nomes mais prestigiados do DEM. Trata-se de um político experiente, que domina bem as técnicas da boa expressão e com imagem forte nas frentes de defesa dos pequenos empreendedores. Reassume o posto de Secretário de Trabalho do Governo. E se habilita a ser um dos nomes – mais fortes, por sinal – a entrar na lista de prováveis candidatos ao governo em 2010.

PERGUNTA FORA DO SCRIPT

Ontem, um dirigente de entidade do setor de serviços perguntou, de supetão, a este analista : "e Paulo Skaf tem alguma chance de ser candidato ao governo de São Paulo ?" Respondi : "a pergunta é fora de propósito. Trata-se de um diligente dirigente da FIESP, que gosta do que faz. Ademais, para ser candidato a um cargo de governo de Estado ou a outros cargos elevados, a pessoa precisa ter vida partidária." Skaf pode puxar o trem da candidatura, isso sim, no trilho da Confederação Nacional da Indústria, onde é vice-presidente.

DESCER DE PÁRA-QUEDAS

Não é a primeira vez que me deparo com esta questão. Descer de pára-quedas na política é coisa rara. Antônio Ermírio até que tentou. Filiou-se a um partido. Candidatou-se ao governo de São Paulo. Perdeu para Quércia. Decepcionado com a baixaria da campanha adversária, abandonou a política. Olavo Setubal foi um grande prefeito da capital paulistana. Tentou ser candidato ao governo por um partido. Pediram-lhe uma grana que, na época, dava para encher o cofre do Tio Patinhas. Ele negou. Não conseguiu a vaga. Descartou o projeto.

O GRITO DO CAMPO

Extravagâncias desse tipo só ocorrem mesmo por aqui. Vejam só : o presidente Lula e o ministro Carlos Minc assinaram, sem ler, um decreto, de número 6.514, sobre penas a produtores rurais que desrespeitarem leis de proteção ambiental. O grito ecoou da terra. Ao criminalizar os agricultores brasileiros, o decreto devastaria 3 milhões de pequenos e médios empreendimentos, dos 4,3 milhões de propriedades agrícolas existentes no país. Seria um tiro no coração do agronegócio. O próprio ministro da agricultura, Reinhold Stephanes, fez o alerta. "Ninguém leu o decreto", denunciou Stephanes. Essa é a feição de um país retocado com as tintas da improvisação, da burocracia e do desleixo, onde estruturas são comandas por figuras que nunca foram apresentadas a uma vaca ou a um pé de feijão.

CONSELHOS AOS PERDEDORES

Esta Coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos aos políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição passada, o espaço foi destinado ao ministro Guido Mantega. Hoje, volta sua atenção aos candidatos que perderam as eleições:

1. Não passem muito tempo no velório da derrota. Comecem a abrir novos espaços de luta.

2. Acreditem que a menor distância entre dois pontos na política nem sempre é uma reta, mas uma curva.

3. Decorem a lição : a derrota de hoje poderá ser a vitória de amanhã.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.