Segunda-feira, 24 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 168

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Quais as perspectivas que se apresentam ao Brasil em um contexto de crise ? Confesso que não sei responder. Mas sei uma historinha sobre as tais perspectivas. Abro a Coluna com o relato abaixo :

Luís Pereira, pintor de parede, dormiu com 200 votos e acordou como deputado federal. Era suplente de Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, em Pernambuco, cassado pela ditadura. Chegou a Brasília de roupa nova e coração vibrando de alegria. Murilo Melo Filho melou o jogo, logo no aeroporto, com a pergunta abrupta :
- Deputado, como vai a situação ?
Confuso, nervoso, surpreso, sem saber o que dizer, tascou :
- As perspectivas são piores do que as características.

Pois é, a esta altura, tem muito Luís Pereira perorando por aí...

BOM SENSO

"A faculdade principal da alma é comparar. O bom senso é a justa comparação das coisas." Montesquieu

MEIRELLES SAI OU NÃO ?

Henrique Meirelles é um sujeito contido. Dá respostas objetivas e curtas sobre a crise e a situação brasileira. Ao contrário do falante Mantega. É o maior fiador da solução brasileira para enfrentar a crise. Ultimamente, certo nervosismo passou a tomar conta dos espaços empresariais e ambientes institucionais : Meirelles sairá ou permanecerá no comando do Banco Central ? Vamos lá. O presidente do BC teve de renunciar ao mandato de deputado federal para assumir o cargo. O governo Lula está começando a entrar na reta final. Meirelles, como se sabe, deixou uma porta aberta para retornar à política. Poderá ser governador de Goiás ou senador. Tem lastro e sairia com bom rastro. Tirem suas conclusões.

E AÍ, SERRA ? QUAL É O PROJETO ?

José Serra é a cara de São Paulo. Seu perfil encaixa-se na moldura do mapa do Estado que é a alavanca-mor da Federação. Se isso, por um lado, é bom, confere respeitabilidade, por outro lado, puxa um campo de conotações negativas. Passa uma idéia de superioridade e arrogância. Para complicar, Serra é ranzinza. Duro na queda, gosta mais de ouvir o que sua boca expressa do que a opinião de outros, mesmo que esse outro seja, por exemplo, seu amigo FHC. Sob essa moldura, começa-se a indagar : qual é o projeto Brasil de José Serra ? O que ele pensa, o que ele diz, o que ele gostaria de transmitir ?

O ESTRATEGISTA

O estrategista é capaz de escolher a melhor alternativa entre muitas. Ele é capaz de antever possibilidades, caminhando em sentido contrário ao que a maioria julga como o caminho mais certo. Alexandre, o Grande, era um estrategista. O oráculo prognosticou : 'quem conseguir desatar o nó que une o jugo à lança do carro de Górdio, rei da Frígia, dominará a Ásia'. Muitos fracassaram. Alexandre tinha 2 opções : desfazer o nó ou cortá-lo com a espada. Não teve dúvidas. Optou pela mais criativa e segura. Cortou-o.

A IDENTIDADE DE LULA

Lula firmou a identidade de Pai dos Pobres. Encarna o perfil do homem que veio de baixo e chegou ao cume da montanha. Pode-se criticá-lo por muitas coisas. Não pelo fato de ter identidade esfumaçada. Ao contrário. De longe ou de perto, no palanque ou fora dele, parece o mesmo. Soube lapidar o perfil. Com a tintura do Bolsa Família, desse tal de PAC (que mesmo empacado exprime força) e, agora, do óleo do Pré-Sal. O que seria o PAC de Serra ? Continuaria o Bolsa Família ? Ah, está muito cedo para dizer essas coisas ? Não. Já poderia adiantar algo. Sob pena de continuar com a imagem de um paulista aprisionado nas paredes do Palácio dos Bandeirantes, cercado de assessores e longe do povo.

PARAÍBA ARRASADA

José Maranhão vai pegar o governo de um Estado arrasado. A Assembléia Legislativa da Paraíba aprovou projetos que inviabilizam qualquer administração. Cássio Cunha Lima entrega a rapadura, mas com uma pitada de pimenta. Poderá ser candidato a senador, se não for, mais adiante, condenado por improbidade. Maranhão terá de formar boa assessoria para arrumar as contas da casa e fazer alguma coisa em dois anos. O PMDB promete abrir as portas do Planalto para ajudar o novo Estado sob a égide do partido.

SC DESTRUÍDA

Santa Catarina é um dos Estados mais charmosos do Brasil. Belezas naturais, clima, povo acolhedor. Que tristeza ver parte do Estado destruído de maneira tão violenta pela natureza. Luiz Henrique, um governador com métodos avançados de gestão, exprime a cara do desespero. Lula mostra grandeza ao se deslocar ao palco de destruição. Esta Coluna integra-se aos gestos de amizade e solidariedade em direção a SC.

VISÃO E MISSÃO

"É importante não confundir objetivos com missão e visão. Visão expressa um ideal. A visão é um sonho. A missão, por sua vez, exprime a razão de ser da empresa, o encargo que ela se propõe a assumir e realizar. A missão é perene, não termina. Isso ela tem em comum com a visão". (Jan Wiegerinck, presidente de uma das maiores empresas de trabalho temporário do Brasil, Gelre, e presidente da Asserttem/Sindeprestem).

ENFRENTANDO A CRISE

Atenção, empresários. Evitem tomar decisões ultrapassadas, como cortar gastos de marketing em tempos de crise. Empresa que se destaca em situações complicadas é aquela que gosta mais de fazer poeira do que de comer poeira. Pensem bem : sua organização quer fazer história – olhando para os horizontes – ou faturar em termos imediatos – olhando para o próprio umbigo ? Quem tem visão de futuro é capaz de se arriscar. Quem é capaz de se arriscar, ousa na comunicação com seus públicos. E os ousados são mais proativos. Sabem caçar oportunidades na floresta das incertezas.

LIÇÕES PARA A CRISE

Paul Krugman – "Quando a economia de depressão se impõe, as regras claras da política econômica já não se aplicam : virtude vira vício, cautela é arriscada e prudência é loucura...Nas condições vigentes, a cautela é arriscada, porque grandes mudanças para pior já estão ocorrendo, e qualquer demora aumenta a chance de um desastre econômico mais profundo."

Tarek Farahat – Presidente da Procter & Gamble do Brasil – "Os planos de economizar não incluem cortes de gastos com publicidade. O fortalecimento da marca é importante em momentos de crise para evitar que o consumidor compre o produto mais barato da prateleira."

Luiza Trajano Magazine Luiza – "O medo deve ser transformado em estratégia para sair da situação. É hora de investir e pegar o cliente dos outros."

Ivan Zurita – Presidente da Nestlé – "Não podemos dormir e acordar dizendo que estamos em crise."

Martin Sorrell – Presidente mundial da WPP, um dos maiores grupos de propaganda e comunicação global – "Não é hora de as empresas cortarem investimentos em marketing. Os cortes podem sinalizar fraqueza."

KASSAB, VISÃO LARGA

O prefeito Gilberto Kassab comprova ser um administrador de visão larga. Insere na administração uma pessoa de pensamento avançado, que fez boa lição de casa por ocasião da campanha municipal : Soninha Francine. Será sub-prefeita de uma região importante na capital, a cidade Tiradentes. E convida também o ex-governador de São Paulo, Claudio Lembo, um dos melhores quadros do DEM no país. Intelectual, professor de Direito, bom papo, conselheiro, Lembo dará a Kassab forte respaldo na frente política.

DILMA MUDA VISUAL

Dilma Rousseff começa a lapidar a estética. Lembremos : Lula teve de aparar dentes. Os ternos são bem cortados e cheios de moda. Dilma substitui os óculos por lentes. Quer aparecer mais suave. Menos professoral, mais alegre e simpática.

O MEDÍOCRE

"O medíocre é solene. Na pompa grandíloqua das exterioridades, busca um disfarce para a sua íntima vacuidade. Acompanha, com fofa retórica os atos mais insignificantes e profere palavras insubstanciais, como se a humanidade inteira quisesse ouví-las." (Jose Ingenieros, in O Homem Medíocre)

CIRO ARMA PARA SER CANDIDATO

Nos bastidores, Ciro Gomes começa a pavimentar os caminhos da pré-candidatura presidencial. Quer ser alternativa a Dilma Rousseff, caso esta não decole. Articula a unidade do bloquinho, aliança de partidos de esquerda no Congresso, capitaneada por PC do B, PSB e PDT e que agrega, ainda, os inexpressivos PHS e PMN, além do PRB do vice-presidente José Alencar. O bloquinho conta com a terceira maior bancada da Câmara e votação expressiva na eleição municipal. No último pleito, obteve cerca de 15,7 milhões de votos, perdendo apenas para PMDB e PT, o que garantiu a conquista de 797 prefeitos, atrás somente do PMDB. Na Câmara, conta com 76 deputados.

O SUPLÍCIO DAS MOSCAS

Vamos ao brinde. O grande Elias Canetti nos brinda com uma historinha, que chama de Suplício das Moscas : "a história mais terrível eu encontrei nas memórias de uma mulher, Misia Sert. Chamo-a de Suplício das Moscas, cujo relato transcrevo literalmente :

- Uma de minhas companheiras de habitação chegara a dominar a arte de caçar moscas. Ao estudar pacientemente estes animais, descobriu o ponto exato em que havia de introduzir a agulha para entalá-las sem que morressem. Deste modo, confeccionava colares de moscas vivas e se extasiava com a celestial sensação que o roçar das desesperadas patinhas e as assanhadas asas produziam em sua pele".

O QUATRILHÃO DO TIO PATINHAS

Vejamos as contas do grande economista Carlos Lessa : a economia real é estimada no mundo entre 57 trilhões de dólares a 65 trilhões de dólares. Sobre ela, há uma montanha de ativos financeiros – incluindo dívidas primárias de empresas, famílias e de governos. Ficam entre 130 trilhões a 140 trilhões de dólares. Sobre essa montanha, eleva-se um pico mais alto, os chamados derivativos, produtos de engenhosidade e complexidade crescente. Chegam a somar 640 trilhões de dólares. Somando tudo, aparece a palavrinha-chave do Tio Patinhas : um quatrilhão de dólares. Quem conseguir imaginar o que significa isso, ganhará quinhentos réis. Que dinheiro é esse ?

QUINHENTOS RÉIS

Na Coluna da semana passada, lembrei que costumava, na minha infância, comprar um pão doce por 500 réis. Lá pelo início dos anos 50. Pois bem, o grande advogado Arnaldo Malheiros jogou uma pitada de inquietação em minha memória : "não sou seu leitor de todos os dias. Mas de todas as quartas feiras. E gosto muito do que leio e aprendo. Mas hoje notei uma pequena falha nas suas Porandubas. Na sua memória de criança: "Um pão doce, nos idos dos anos 50, custava 500 réis, moedinha com a cara de Getúlio". O mil réis (que não tinha a cara do Getúlio) valeu até outubro de 1942. A partir daí, nossa moeda foi o Cruzeiro (Cr$) e era a moedinha de 50 centavos que comprava o seu pão doce em 1950".

MALHEIROS TEM RAZÃO, MAS...

Malheiros está coberto de razão. Mas algo me atordoava. Viajei aos velhos tempos na companhia de conterrâneos, que me ajudaram a repor a fonética dos réis na minha memória : os velhos réis, mesmo na época do Cruzeiro, não foram totalmente retirados do mercado. Por isso, eu recebia, aos domingos, a mesada do velho Gaudêncio, ainda em réis. Que na minha cidade, tinham validade. Compravam pão doce.

SETE GOVERNADORES

Estão na berlinda do Tribunal Superior Eleitoral os seguintes governadores : José de Anchieta Júnior (PSDB), de Roraima, Jackson Lago (PDT), do Maranhão, Luiz Henrique da Silveira (PMDB), de Santa Catarina, Ivo Cassol (sem partido), de Rondônia, Marcelo Déda (PT), de Sergipe, Marcelo Miranda (PMDB), de Tocantins, e Waldez Goés (PDT), do Amapá.

CONSELHO AOS MINISTROS DO TSE

Esta Coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos aos políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição passada, o espaço foi destinado ao juiz Fausto De Sanctis e ao delegado Protógenes Queiroz. Hoje, volta sua atenção aos ministros do Tribunal Superior Eleitoral :

1. Há mais sete casos de governadores que esperam decisão dos ministros do TSE. As conversas de bastidores dão conta de pressões e contrapressões, lobbies a favor e contra os mandatários.

2. Na esteira da decisão finalmente tomada a respeito do governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, os ministros do TSE poderiam fazer mutirão e limpar a pauta relativa aos governadores.

3. Mesmo sabendo que as situações não são idênticas e os casos obedecem a calendários específicos – cada governador tem uma agenda diferente - o corpo de ministros poderia se esforçar para apressar o processo decisório.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.