Sábado, 16 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 184

quarta-feira, 8 de abril de 2009


Raposa política

José Maria Alkmin, ministro da Fazenda de Juscelino Kubitschek, raposa política como os mineiros do passado, sabia se safar de situações inesperadas. Lançou campanha contra o sistema de crediário, dizendo que a prestação era o maior fator de inflação. A Associação Comercial do Rio ficou furiosa e foi queixar-se ao presidente. JK mandou chamar o ministro :

- Alkmin, eles dizem que você está prejudicando o comércio, com essa campanha contra a venda à prestação.
- Mas, presidente, eu não estou contra a venda à prestação. Eu estou é contra a compra à prestação.

Noutra feita, encontrou o filho do eleitor :

- Como vai seu pai, meu filho ?
- Meu pai já morreu há muito tempo, doutor Alkmin.
- Morreu pra você, filho ingrato. Porque continua vivo no meu coração.

Numa cidade mineira, esqueceu o nome de um correligionário que lhe pedia um autógrafo. Deu o velho golpe :

- Seu nome todo, meu filho ?
- Doutor Alkmin, escreva o que sabe, que depois eu digo o restinho.
- Mas é que não fica bem a gente pôr na caderneta os apelidos de família dos amigos.

Dilma apaga o facho

Pois é, a festa mineiro-nordestina de Aécio Neves, em Montes Claros, por ocasião da reunião da SUDENE, não rendeu o que dela se esperava. Neves esperava pavimentar o caminho presidencial com uma convocação emotiva sobre a banda nordestina de Minas Gerais. Tinha como alvo os nove governadores da região. Queria mostrar compromisso com o nordeste. Mas Lula levou Dilma Rousseff à tiracolo. Que fez bonito na festa. Discursou, foi aclamada como candidata de Lula, mandou ver. E Aécio ficou a ver navios. Com cara de quem viu e não gostou. Um ponto para a ex-guerrilheira.

Ex-guerrilheira ?

A ministra chefe da Casa Civil garante que nunca esteve na linha de frente da guerrilha. Deu ampla entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, quando afirmou não ter usado armas para assaltar ou sequestrar. A entrevista com negações sobre sua vida passada faz parte da estratégia de desconstrução da imagem negativa que, certamente, a oposição irá tentar produzir mais adiante. Quando o dossiê sobre o passado emergir, já ficará com jeito de coisa vista e conhecida. A estratégia é inteligente. Que haverá citação da passagem de Dilma pela guerrilha, não há dúvida. Colará ? Pouco provável. A ministra poderá alegar que lutava contra a ditadura. O conceito de luta contra a opressão acabou sendo mais vigoroso que o conceito de guerrilheiro assaltando banco, por exemplo.

"Se a obra não é útil, a glória é uma estupidez." (Fedro)

FHC enciumado ?

A declaração foi intempestiva e desnecessária. Indagado sobre a popularidade de Lula, exaltada por Barack Obama, FHC teria dito : "mesmo com o carisma que tem, ganhei dele duas vezes". Coisa desnecessária. Denota algo como uma pontinha de inveja. O ex-presidente não pode fazer comparações. Cada um no seu lugar e no seu tempo. Ele é um homem preparado, lapidou as bases do Brasil forte na economia e tem de se resguardar das posições e conceitos comparativos. Lula exibe inegável carisma. E sabe falar a linguagem que o povão entende. Uma raridade entre os nossos políticos.

“Para falar um mudo, basta que se desate o vínculo que lhe tinha a língua presa; para falar bem quem fala, é necessário atar a língua com muitas prisões; e quem duvida que mais fácil é soltar uma língua presa do que prender uma língua solta ?" (Padre Manuel Bernardes)

Apertar os cintos

Luiz Inácio aconselha os prefeitos a se esforçarem para "apertar os cintos". Pois bem, se não ajudar a prefeitada a fazer o movimento contrário – o de desapertar os cintos -, Lula, logo, logo, será persona non grata nos municípios. E como esses tempos serão dedicados à plantação da semente de 2010, o presidente será inserido na posição em que alguns jogadores são especialistas : sinuca de bico. Este tipo de sinuca – entre as piores na mesa de jogo – deixa o jogador com sete pontos a menos. Claro, se não souber sair da enrascada. Sete pontos a menos somados aos dez pontos percentuais de perda de imagem positiva fazem um imenso estrago.

"O que conta não são os quilates, mas os efeitos." (Coco Chanel)

Tasso na berlinda

Tasso Jereissatti usou três horas, no palanque do Senado, para dizer que não foi ilegal o uso da verba indenizatória para alugar aviões, quando não pode usar seu jatinho. Tudo bem. Efetivamente, não há proibição para o uso daquela verba. O parlamentar poderá dela dispor para pagar múltiplas ações. A questão não é a legalidade. Transborda para a esfera da ética. Nem sempre o que é legal é ético. E todas as coisas éticas são, via de regra, legais. No momento em que a crise começa a estampar os seus efeitos danosos, usar dinheiro público de maneira extravagante – ou que parece extravagante – se transforma em um ato inadequado. Mas o senador continua a merecer o respeito deste escriba.

Narciso

Os deuses puniram Narciso, condenando-o a se apaixonar pela própria imagem. Ele se tomou de amores por esta quando se contemplava nas águas límpidas de uma fonte. A partir de então, obcecado pela paixão por aquele reflexo, Narciso nunca mais conseguiu arrancar-se àquela contemplação e afastar-se da beira da água. Ali definhou até morrer.

E o nosso Narciso ?

Há um Narciso bem visível por estas plagas do Planalto paulistano. Dizem que, ao se mirar nos espelhos, ele gosta de dizer : "espelho, espelho, tem uma figura mais poderosa do que eu ?"

Adeus, Marcito

O Brasil deu adeus a Márcio Moreira Alves. Um deputado que deixou marca indelével na história do Parlamento. Um jornalista corajoso que expressava o vigor de seu pensamento.

"Existe tanto risco em fazer nada como em fazer alguma coisa." (Tramell Crow)

Tasso deixaria a política ?

Tasso é muito bravo. Esquentado, não leva desaforo para casa. As denúncias sobre uso inadequado do dinheiro público o tiraram do sério. O senador ficou muito nervoso. Quem o conhece, sabe que o pavio curto é capaz de acender fagulhas, inclusive a fagulha de sua retirada da vida pública. Na próxima eleição, encontrará adversários fortes no Ceará, a partir do deputado Eunício Oliveira, que quer ser senador pelo PMDB. Tasso perdeu bastante força no Ceará. O governador Cid Gomes é do PT. Seu amigo Ciro Gomes, deputado e irmão do governador, o apoiará em 2010 ? A moldura poderá ensejar sua retirada de campo. Dizem que a família seria amplamente favorável à hipótese. Coisa muito difícil, mas não de todo impossível.

Perfis de grandeza

1. Um líder do universo associativo brasileiro - José Maria Chapina Alcazar – presidente do SESCON.

2. Um perfil de Executivo - Ruy Martins Altenfelder Silva, que acaba de ser eleito presidente do Conselho Deliberativo do CIEE.

3. Um perfil de senador Romano – Na expressão de nobreza cívica associada aos senadores da Roma Antiga - Paulo Nathanael Pereira de Souza.

4. Um perfil de empreendedor – Edson de Godoy Bueno, presidente da AMIL.

Michel nos Estados

O presidente da Câmara pediu licença do cargo de presidente do PMDB, mas não perdeu a visão do conjunto. Continua a prestigiar os correligionários que o convidam a participar de atos nos Estados. Michel aplaina os caminhos do PMDB, que está, hoje, muito unido, apesar das diferenças regionais. O partido terá condições de indicar o vice na chapa presidencial do situacionismo – com Dilma Rouseff – ou na chapa oposicionista – com José Serra. O PMDB pensa, ainda, em candidatura própria. Esta é a hipótese menos provável. A não ser que...

Dirceu nos Estados

Há dias, a mídia comentou sobre a articulação que estaria sendo feita pelo ex-ministro José Dirceu nos Estados com o objetivo de aplainar os caminhos da pré-candidata Dilma Rousseff. Dirceu, convenhamos, sabe onde estão as curvas perigosas e as retas seguras. Agora, comenta-se que sua passagem pelos Estados acarreta danos à candidatura da ministra, porque Dirceu é visto como figura com problemas na justiça. Pode ser. Mas ele exerce muito poder, sabe quem são os interlocutores confiáveis e pode fazer os arranjos necessários para se alcançar os objetivos. O que ocorre é uma luta contundente entre correntes do PT que querem o poder de mando.

"As pessoas esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda do patrimônio." (Maquiavel)

Cena de morte e vida

Annalisa Angelini, 28 anos, acabara de fazer uma cesariana no hospital de Áquila. De repente, o estrondo, a queda das paredes, a destruição, a tragédia. Conseguiu escapar dos escombros, descalça, segurando o soro. Ao lado dela, a mãe e o bebê. Em San Gregório, uma menina de 2 anos foi retirada dos escombros. Sobreviveu. Graças ao corpo da mãe, que a protegeu. E assim caminha a humanidade.

"Vencer a si próprio é a maior das vitórias." (Platão)

Doação para candidatos

Prega-se a proibição de doação de dinheiro privado para campanhas eleitorais. Será mais uma hipocrisia. Se for aprovado o financiamento público, o dinheiro privado continuará a irrigar os cofres eleitorais. Por isso mesmo, vamos direto ao assunto : que as empresas sejam transparentes nas doações legais. E que esse sistema continue e receba controles mais apurados. O resto é hipocrisia.

Conselho ao Ministro da Educação

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição passada, o espaço foi destinado aos ministros do Tribunal Superior Eleitoral. Hoje, volta sua atenção ao ministro da Educação, Fernando Haddad :

1. Seja mais cauteloso na implantação do novo sistema do vestibular único.

2. Cabe avaliar os prós e contras do novo sistema para evitar distorções e desvios.

3. A nova proposta não pode rebaixar o nível de exigências do atual vestibular.

____________

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.