Quarta-feira, 19 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 204

quarta-feira, 23 de setembro de 2009


Banana no bolso

Tenho de começar com Jânio Quadros. Na campanha pela prefeitura de São Paulo de 1985, contra Fernando Henrique, o senador sociólogo da época, Jânio foi ao bairro de São Miguel Paulista, na zona Leste, reduto de nordestinos. Depois de uma farta feijoada, inúmeras caipirinhas, Jânio não resistiu e caiu na cama. Atrasado, às 18 horas levantou-se, vestiu o terno amarfanhado e colocou uma banana no bolso. Ao começar o discurso, foi logo dizendo: "Político brasileiro não se dá ao respeito. Eu não. Desde as 7 horas da manhã, estou encaminhando por este bairro e até agora não comi nada. Então, com licença". Sob os aplausos da massa, devorou a banana.

A semântica janista

O discurso semântico de Jânio – a substância de sua fala – ganhava mais força pelo impacto causado pelo discurso estético, a impressão provocada por sua maneira de falar, os olhos esbugalhados, os cabelos compridos e revoltos, a barba por fazer, um jeito desleixado que confundia interlocutores e assistentes : aquilo seria natural, coisa do acaso, ou algo preparado, artificializado ? Em Jânio, essa ambiguidade tornou-se marca de sua personalidade. Ficaram famosas suas campanhas em São Paulo, desde os tempos de vereador, quando escolheu o bairro de Vila Maria para montar o primeiro palanque de sua trajetória. Ombros cheios de caspa, sanduíches de mortadela, pão com banana, tudo sob as vistas dos fotógrafos, eram um prato saboroso para a mídia.

Névoas e nuvens

Os horizontes de outubro de 2010 estão longínquos. As nuvens e névoas do tempo atrapalham a visibilidade. Mas pesquisa, como se diz, é a foto do momento. E esta pesquisa CNI/IBOPE revela pelo menos uma coisa : Dilma Rousseff tem dificuldades para fazer decolar a candidatura. Ela já havia alcançado a taxa de 20%. Cai, agora, para 14% e empata com os 14% de Ciro Gomes. Ciro vai à TV, circula pelas cidades médias e grandes, acirra o discurso. E assim abre espaços na mídia. Dilma também passou a dar entrevistas de fundo político. Mas seu tom arrogante emerge.

Os tupiniquins

A entrevista da ministra chefe da Casa Civil, na Folha de S.Paulo, do último domingo, foi muito fraca. Esteve abaixo de sua identidade. A certa altura, defendendo o Estado forte – inchamento da máquina – cometeu a blague de atribuir essa polêmica aos "tupiniquins". Quis dizer que essa matéria só causa celeuma por aqui. Sobrou, porém, a gafe que pega parcela de nossa população indígena. Fosse um analista político a se referir ao tema, não haveria problema. A referência retrata uma cultura do atraso, das antigas. Na linguagem de uma autoridade, o termo parece inadequado.

Alternativas do PT

Pois é, se Dilma não decolar, por onde caminhará o PT ? Pelo andar da carruagem, seus quadros melhores estão ainda se recuperando de tiroteios antigos. Dirceu está fora de campo. Palocci, absolvido, espera momento propício para reaparecer em cena. Marta Suplicy não tem votação suficiente para eleições majoritárias na esfera federal. Vai sobrar para o PT o nome de Ciro Gomes como alternativa. O polêmico, extravagante, irrequieto, mas – vale reconhecer – bem articulado Ciro Gomes. Candidato pelo PSB com o apoio do PT. E se o PT não topar ? Ciro garante que vai adiante.

Nesse caso

Nesse caso, colabora para a ruptura de alianças entre PSB e PT em alguns Estados. A razão : em algumas unidades federativas, o PSB quer lançar seus candidatos e o PT teria de abrir espaço. Vice versa. O PT quer o apoio do PSB para seus candidatos em Estados onde aquele partido também quer disputar. Impasse. A campanha de 2010 será uma costura de inimaginável complexidade. Será um samba atravessado.

Serra vai bem ?

José Serra continua com bons índices, apesar de já ter registrado mais de 40%. Com 34%, Serra lidera mas diminui sua taxa. A diferença entre ele e os segundos é muito grande : 20 pontos percentuais. Serra quer conquistar, devagarzinho, o nordeste, onde tem a menor aceitação. Na Bahia, na segunda viagem que fez em menos de dois meses, saiu-se muito bem. Conseguiu puxar para sua palestra até Geddel Vieira Lima, ministro da Integração, que não tem muita certeza sobre a candidatura Dilma.

O Brasil cercado

Embaixadas são territórios de países. A Embaixada brasileira em Honduras, portanto, é a extensão do território nacional. Não pode ser invadida sob pena de tal ato ser entendido como invasão do próprio país representado. Se cortam os serviços básicos da Embaixada brasileira, em Honduras, esse ato equivale a uma agressão. É como se houvesse um boicote ao próprio Brasil. Que os meus amigos especialistas em Direito Internacional me socorram : me condenem ou me absolvam. Estarei certo ou errado ? Manuel Zelaya, presidente legal de Honduras, espera, no mínimo, uma reação à altura do Brasil.

Alckmin vai bem

Em longa conversa com este consultor, no final de semana, Geraldo Alckmin demonstrou inteira confiança em suas possibilidades como candidato ao governo de São Paulo. Acredita que o governador José Serra faz o estilo pragmático. Candidato à presidência da República, não pode perder em São Paulo. Por isso, escolherá o perfil com melhores condições de obter sucesso. Mas já quem ache que Alckmin não sustentará seus altos índices de pesquisa de opinião pública. E que as máquinas do Estado e da Prefeitura, juntas, alavancam qualquer candidatura. É possível, mas, em eleição, há sempre um imponderável.

Quem foi radical ?

Luiz Inácio lembrou, recentemente, que não há mais espaço para os trogloditas de direita. E lembrou que, na última campanha presidencial, quem radicalizou foi Geraldo Alckmin. Ora, quem conhece a índole equilibrada e balizada pelo bom senso do ex-governador, joga a pérola de Lula no lixo. Geraldo apenas lembrou que Lula estava cercado por mensaleiros e aloprados. Tal linguagem não é radical e apenas expressa a leitura das mídias e da opinião pública. Os tais figurantes dos ilícitos, esses, sim, radicalizaram.

Direita, volver

José Sarney fecha posição com Lula. Renan Calheiros, idem. Fernando Collor, idem. O que o presidente quis dizer quando lembrou não haver mais espaço para trogloditas de direita ?

Vices

O ministro Carlos Lupi, do Trabalho, é lembrado como um nome para compor a chapa de Ciro Gomes. O presidente da Natura, Guilherme Leal, é lembrado como vice de Marina Silva. Michel Temer, como vice de Dilma Rousseff. Henrique Meirelles (de que partido é ?) também foi lembrado – agora pelo PMDB de Goiás – para compor a chapa de Rousseff.

Tucanos e socialistas

Na Paraíba, é bem possível que os tucanos fechem aliança com os socialistas do PSB. Ricardo Coutinho, o bem avaliado prefeito de João Pessoa, eventual candidato ao governo pelo partido de Ciro Gomes, poderá ser o fiador desta aliança. Como já disse, dançaremos um samba atravessado.

Reforma tributária e terceirização

O Fórum Permanente em Defesa do Empreendedor, composto por empresários de cerca de 160 entidades do setor produtivo – entre elas Fiesp, ACSP, OAB e Fecomercio –, realizará no próximo dia 28 de setembro, na sede do Sescon (Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis no Estado de São Paulo), em São Paulo, um encontro com o deputado Sandro Mabel, relator dos projetos de reforma tributária e do PL 4.302/98 que regulamenta a terceirização. Mabel discorrerá sobre os dois assuntos.

Toffoli

E o nomeado José Antônio Toffoli, hein ? Ministro do STF, passará 29 anos no cargo. Tempo para acompanhar, avaliar e julgar quase oito mandatos presidenciais. Assumirá mesmo não portando títulos de mestre e doutor – que Lula acha uma besteira. Vale, ainda é o presidente que garante, o fato de ele ser "um puta advogado". E mais : que "advogou para nós". Será que essa é a melhor qualificação. Benza-nos, Deus.

O S de Skaf

Há quem veja, na pesada campanha de Paulo Skaf na mídia, intenção mais que explícita de uma postulação política. Pretenderia o presidente da FIESP ser candidato ao governo de São Paulo, meta que o teria levado a procurar dirigentes e lideranças de partidos em São Paulo. Daqui a uma semana, Skaf deverá optar por um partido se quiser efetivamente continuar defendendo sua postulação. Mas há empresários fortes que acham a estratégia de Skaf um desastre : essa campanha para vender o SESI – pois o enaltecimento ao Serviço é mais que óbvio – pode comprometer seriamente o sistema S, de onde sai a dinheirama para sustentar campanhas publicitárias. Dinheiro em publicidade com viés político ?

Direito, poder e dever

Paulo Skaf tem todo o direito, como cidadão, de alavancar sua cidadania e, por conseguinte, trilhar as veredas da política partidária. A questão é : sob o escudo desse direito, ele, como presidente da FIESP, poderia concorrer a um cargo majoritário, mesmo não tendo nenhuma experiência na área ? Resposta : pode, sim. Quanto ao dever, essa é uma questão de consciência. Envolve sua posição no contexto das Federações, suas relações com os associados da FIESP, o engajamento político que aquela Casa pretende adotar, a relação com os partidos etc. Há, sob essa moldura, uma teia complexa de encadeamentos. Parece, porém, que Skaf não enxerga nada disso.

Marketing mecatrônico

A política é um sistema complexo. Envolve pesquisas, discurso substantivo (propostas, ideários), comunicação, articulação com a sociedade, articulação política e mobilização (encontros, reuniões, contatos com multidões etc.). Trata-se de uma rede de sistemas. Esse é o domínio do marketing político. Que, nas últimas décadas, passou a ser sinônimo de programas bem feitos de TV. Os chamados marqueteiros saíram das pranchas criativas de agências de publicidade. Vejam, senhoras e senhores, onde o marketing foi parar. Não por acaso, esbarramos nas TVs com uma linguagem "mecatrônica", parente da metafísica, que metabólica nenhuma, nem mesmo a metalinguística, há de entender. Haja picaretagem !

Conselho aos senadores

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição passada, o espaço foi destinado ao ministro do STF, Marco Aurélio Mello. Hoje, volta sua atenção aos senadores :

1. Façam uma sabatina justa – sem exageros e sem diminuições – para aferir as condições do indicado José Antônio Toffoli para o STF.

2. Ao presidente da República cabe fazer indicações para a mais alta Corte do país. Mas os senadores poderão rejeitar essa indicação, se o perfil do escolhido não corresponder ao figurino exigido para o posto.

3. Pode ser que sua Excelência demonstre qualidades pessoais, profissionais e técnicas para galgar o cargo de ministro do STF. O que não seria aceitável é a discriminação por idade ou ideologia. A conferir a sabatina, dia 30 próximo.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.