Terça-feira, 17 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 213

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Abro a coluna, hoje, com Pernambuco falando para o mundo. Duas historinhas mostram a performance de dois de seus atores.

Luís Pereira, pintor de parede, foi dormir com 200 votos. Acordou deputado federal. Era suplente de Francisco Julião, cassado. Chegou a Brasília de roupa nova e coração novinho, conforme a verve de Sebastião Nery. Murilo Melo Filho jogou a primeira lata de tinta no silêncio daquela provinciana fachada política :

- Deputado, como vai a situação ?

- As perspectivas são piores do que as características.

Luiz Serafim, o Serafa, era presidente da Liga Camponesa de Vitória de Santo Antão. Um comício programado pedia a presença de Francisco Julião. Luiz Serafim foi encarregado de saudar o fundador das Ligas. Caprichou nas palavras :

- Francisco Julião é aquele que não claudica em suas reivindicações benévolas !

Pesquisação

Chovem pesquisas. Mais uma, da CNT/Sensus, aparece para confirmar o que este consultor, há tempos, proclama : a queda de José Serra. Não há novidade nesta nova bateria. Apenas denota a tendência irretorquível : quem está muito na frente, cai, e quem está atrás sobe. O governador de São Paulo desceu alguns degraus da escada pelas seguintes razões : baixou a visibilidade, isolando-se no Palácio dos Bandeirantes; Dilma e Ciro expandiram suas aparições públicas; Luiz Inácio continua a fazer campanha desbragada para sua candidata, a mãe do PAC; as oposições perdem o eixo, a olhos vistos. Não sabem para onde ir.

Serra e Aécio

Há um dado interessante nesta pesquisa. A chapa Serra/Aécio alcança 35,8% de intenção de voto; a chapa Aécio/Serra chega a 31%. Ou seja, os números estão muito próximos. Se fizermos a projeção de potenciais de crescimento, teremos, de um lado, um perfil mais jovem, em condições de cooptar maiores grupamentos partidários; de outro, teremos um perfil mais forte, hoje, porém sem condições de conseguir expandir a base partidária. Ou seja, a tese deste consultor é : Aécio reúne maior potencial de crescimento, comparado a José Serra. Ademais, Ciro Gomes tem tido e repetido : se o governador mineiro aparecer como candidato tucano, ele desiste de sua candidatura à presidência. Depois de tanta afirmação, Ciro não teria como recuar. Dedução : o neto de Tancredo apresenta-se como perfil em crescimento; Serra, apesar de mais experiente, encaixa-se na tendência do declínio.

A economia não elege ?

Não dá para acreditar que o governador paulista, que domina como poucos a matéria tributária, tenha dito esta semana : a economia não decide eleição. E cita Lula como exemplo em 2006. Que loucura. Apesar de a economia não exibir glórias naquela época, a situação do momento era comparada com os anos FHC. Lula ganhou disparado na comparação. Aliás, é o que Lula, de modo inteligente, quer repetir agora. Este consultor não tem dúvida : quem elege um candidato é o bolso do eleitor. Bolso vazio, necas; bolso cheio ou mais ou menos folgado, troco. Ou será que José Serra esqueceu o mote da campanha de Bill Clinton, em 1992, cravada pelo marqueteiro James Carville : "é a economia, estúpido".

Ciro sem vez em SP

Se Ciro Gomes tira votos de José Serra na área federal, não conseguiria puxar votos a ponto de ameaçar a vitória deste governador, caso fosse candidato à reeleição em São Paulo. E mais : não teria condições de levar a melhor no Estado mais forte da Federação. Ciro seria aqui destruído. De São Paulo, não deve conhecer 3% dos municípios. Seria mais fácil o sol não aparecer amanhã do que Ciro, com vida política no Ceará, ganhar o pleito para o governo paulista em 2010. Aposto uma dúzia de picolés. Contra uma goma de mascar.

Dutra no comando petista

José Eduardo Dutra comandará o PT nos próximos anos. O antigo grupo majoritário volta a dar as cartas. José Dirceu brilhará mais ainda no firmamento político eleitoral. Apesar do segundo lugar, garantido por outro José Eduardo, o Cardozo, o grupo de Tarso Genro passará uma temporada nas margens. Até porque seu titular se afastará para o desafio eleitoral no Rio Grande do Sul. Tarso tem alguma condição. Perdeu prestígio nos últimos tempos com suas posições mais radicais. Tarefa de Dutra : fechar as alianças nos Estados com o mínimo de dissenso. Missão impossível.

Armadilha, já ?

Perdão pelo jogo fonético : Ahmadinejad tem algo parecido com armadilha, já. Lula recebe com pompas o presidente do Irã, de nome Mahmoud, sugerindo nas linhas e entrelinhas que o Brasil quer ser já, já, Ahmadinejad, "potência mundiá". Quer ser mediador com voz forte no Oriente Médio, quer sentar de vez no Conselho de Segurança da ONU, quer dar recados retumbantes na Conferência de Mudança de Clima, de Copenhague, quer puxar a orelha de Obama e dar recados aos chineses. Quer, quer, quer... sei não. Vejo, com essas querências todas, o aluguel de muitas armadilhas. Que podem fisgar o Brasil no contrapé.

Uma no cravo

Lula defendeu o direito do Irã de enriquecer o urânio para fins pacíficos.

Outra na ferradura

Desde que haja compromissos com alguns princípios dos quais o Brasil não abre mão.

Olhando pra cima

Na hora da ferradura, Luiz Inácio olhou para o teto. Isso ocorre sempre que o presidente divaga. Entra no perigoso terreno da abstração.

O semeador e o que semeia

"Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado, e outra coisa é o que peleja; uma coisa é o governador, e outra coisa o que governa. Da mesma maneira uma coisa é o semeador, e outra o que semeia; uma coisa é o pregador, e outra o que prega. O semeador e o pregador, é nome; o que semeia e o que prega, é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o mundo." (Sermão da Sexagésima, Padre Vieira)

Dilma na espontânea

Pois bem, Lula conseguiu dar a Dilma Rousseff a visibilidade que não tinha. Na pesquisa espontânea, a ministra-chefe da Casa Civil está próxima a José Serra, ele com 9%, ela com 6%. Intenção espontânea de voto se deve, sobretudo, ao quesito conhecimento público.

PF com mais poder

A Polícia Federal terá maior poder para fiscalizar. As novas funções estão previstas em projeto de lei que permitirá à PF requisitar dados cadastrais de instituições e pessoas acusadas de crimes junto ao BC, Receita Federal e Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Hoje, essa função é dificultada. Em compensação, haverá normas contra a espetacularização das investigações.

25% dos eleitores

Só 25% dos eleitores brasileiros – cerca de 132 milhões de eleitores – expressam o nome de seu candidato.

Palavras sem obras

"O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual é ? É o conceito que de sua vida têm os ouvintes. Antigamente convertia-se o mundo : hoje por que não se converte ninguém ? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos; antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obras são tiro sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante; mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra. As vozes de sua harpa lançaram foram os demônios do corpo de Saul; mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão. Para falar ao vento bastam palavras; para falar ao coração são necessárias obras." (Sermão da Sexagésima, Padre Vieira)

FHC escondido ?

Essa é uma novidade ruim para o tucanato. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não está bem na fita. 49,3% não votariam de jeito nenhum em candidato indicado por ele.

Dilma rejeitada

Dilma melhorou – um pouquinho – a posição no ranking da rejeição. De 37,6%, sua rejeição caiu para 34,4%. Próxima a de Marta Suplicy, por ocasião da última eleição para a prefeitura paulistana. Índice considerado razoável está em torno de 15%.

Requião e sua reunião

Em que deu a reunião de Roberto Requião ? O governadorzão queria uma decisão em torno de um candidatão do seu partidão para a eleição presidencial de 2010. Perderá essa bênção na Convenção. Aposto um real contra um tostão.

Cascatas de lágrimas

Atenção, vendedores ambulantes de lenços. Preparem seus estoques. Nos próximos dias, cascatas de lágrimas serão derramadas nos escurinhos dos cinemas. Tudo por conta de "Lula, o Filho do Brasil", que mostra a saga do engraxate que virou presidente da República. As lágrimas aguarão os caminhos poeirentos que levam ao pleito de outubro de 2010. Para que dona Dilma Rousseff chegue às urnas com os sapatos molhados de votos.

Edinho reeleito

A reeleição de Edinho Silva para a presidência do PT paulista serve ao objetivo do presidente Lula : botar Ciro Gomes como candidato ao governo apoiado pelo PT. Ciro, diz Serra, é um pau mandado de Lula. É. Pode ser. Mas esse pau bate muito duro em sua cabeça.

Dilma, a expert

A ministra-chefe da Casa Civil entende tanto de meio ambiente quanto Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente, de minas, energia ou pré-sal. Mas a pré-candidata de Luiz Inácio à presidência da República será a chefe da delegação brasileira em Copenhague. Modo de impregnar seu perfil com o verde da sustentabilidade. Marina Silva, que se cuide.

Tarso, o exagerado

Tarso Genro já foi melhor. Este consultor já chegou a afirmar, em tempos idos, que seu perfil estava entre os melhores do PT. Pelo menos, entre os mais preparados. Mas o ministro da Justiça é um poço de exageros. Diz, agora, que o STF tentou usurpar poder de Lula. Tudo por conta da novela Cesare Batistti. Que deixa Lula entre a cruz e a caldeirinha. Acusa o STF de tomar uma decisão ilegal. Tarso Genro está sentado no trono dos céus, ao lado de Deus.

O poste de Lula

Quem ainda garante que Lula, apesar de registrar o maior prestígio no ranking dos presidentes da República, não consegue eleger um poste ? Pois bem, confiram : o poste de Lula já ultrapassou a casa dos 20%.

Receita Federal

O estilo discreto, porém eficiente, do Secretário da Receita Federal, Otacílio Cartaxo, começa a dar resultados. A RF resgata sua performance. A de outubro chega a um recorde por conta da transferência de R$ 5 bilhões em depósitos judiciais que estavam na CEF. Cartaxo havia prometido para novembro o reposicionamento das receitas aos altos níveis do passado. Deve atingir a meta. A RF entra nos eixos.

Fim de ano lotado

O fim de ano abre horizontes lotados. Lojas, supermercados, agências de viagem, companhias aéreas, empregos temporários natalinos. O bolso, se não está cheio, não passa por grandes apertos. O sorriso dos governistas vai de um canto a outro da boca.

Conselho ao presidente Luiz Inácio

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição passada, o espaço foi destinado ao ministro Edison Lobão. Hoje, volta sua atenção ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva :

1. Administrar, de modo equilibrado, a grande confiança que lhe deposita a população brasileira, evitando atitudes arrogantes e o sentimento de que é onipotente.

2. Ter muito cuidado com a liturgia do poder e usar a força do governo, nos próximos meses, para corrigir desvios e distorções nos diversos campos da administração.

3. Evitar que a máquina administrativa seja utilizada a favor de candidatos, a partir de sua pré-candidata à presidência, Dilma Rousseff.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.