Quinta-feira, 23 de maio de 2019

ISSN 1983-392X

Ética, sucesso e felicidade

Discurso proferido pelo professor Luís Roberto Barroso

sexta-feira, 8 de abril de 2005


Discurso

Confira abaixo a íntegra do discurso proferido pelo ilustre professor Luís Roberto Barroso, do escritório Luís Roberto Barroso & Associados, em fevereiro deste ano, na formatura de direto da UERJ. Barroso foi o patrono da turma.

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Ética, sucesso e felicidade1


I. Introdução

Um observador externo, distante, poderia supor que este é mais um ritual de formatura e mais uma homenagem a algum professor. Vistas sem paixão, na rala objetividade dos sentidos, as coisas diminuem na sua grandeza, perdem o seu toque sublime. Para nós, no entanto, este é um momento mágico, único. Porque vocês nunca haviam se formado antes. E eu nunca havia sido o seu patrono. A emoção profunda e sincera que eu sinto nessa hora eu nunca havia sentido ao lado de vocês e por causa de vocês.

A rotina da vida não me pegou. Há semanas eu penso no que lhes dizer. Em como transformar esse momento de despedida em um pacto de permanência. Relembrar os valores e sentimentos que compartilhamos e perpetuar neles a nossa aliança pela vida inteira. É aqui, entre vocês, que eu cumpro feliz e realizado o meu destino. No verso de Gonzaguinha, “a chama em meu peito ainda queima, saiba, nada foi em vão”.

II. A vida vem sem manual de instruções

A vida vem sem manual de instruções. No verso do poeta espanhol Antonio Machado, “caminante, no hay camino; se hace camino al andar”. Vivemos um tempo sem verdades plenas, sem certezas absolutas. Uma época pós-tudo: pós Marx, pós Freud, pós Kelsen. Pós Vioxx. Não há sequer uma boa utopia à disposição. E justo nessa hora vão vocês saindo do porto relativamente seguro da universidade e partindo para o alto-mar.

Viagem leves. Cada um levará a própria bagagem e traçará o próprio roteiro. Ninguém vive a vida dos outros. Relevem, no entanto, o meu incontido desejo, fruto do meu afeto, de nessa última hora compartilhar algumas idéias, alguns votos e algumas experiências que recolhi ao longo da minha própria viagem. Que já vai longa. Tenham em conta, porém, a fina percepção de John Lennon de que “a vida é o que acontece enquanto a gente está ocupado fazendo outros planos”.

Eu desejo a vocês o mesmo que desejo aos meus filhos: que vivam uma vida ética, que encontrem seu próprio caminho, que sejam realizados no que fizerem e que sejam pessoas felizes.

III. Uma vida ética

Eu desejo a vocês que possam viver em um mundo e em um país dominado pela ÉTICA. E desejo muito especialmente que possam contribuir de maneira substantiva para que assim seja. A ética é o compromisso do homem com o bem, com a justiça, com a verdade possível. Ela envolve, em primeiro lugar, a consciência de si, a definição dos próprios valores e da conduta a adotar.

Utilizei há pouco a imagem da partida para o alto-mar. Haverá dias de sol e noites de lua. Nessas horas, vivam distraidamente a vida; guiem-se pelas estrelas. Mas virão também, meus queridos, as tempestades, perigos reais e imaginários, medos diversos. São parte inevitável da vida. Nem sempre é possível prevê-los, menos ainda evitá-los. Os valores servem para esta hora. Eles são a bússola que a apontará a direção ou a âncora que impedirá que se fique à deriva, ao sabor dos ventos.

A ética envolve, em segundo lugar, a percepção do outro, o respeito pelos valores do próximo, a tolerância com a conduta de quem é diferente de nós. Bastar-se a si próprio é a pior solidão. O processo civilizatório é um projeto comum e consiste em fazer de cada um o melhor que possa ser. É preciso ter olhos para o mundo e não apenas para si. Na vida a gente deve ser janela e não espelho.

Este o meu primeiro grande desejo para vocês: uma vida ética, vivida em nome do bem, com lugar para o equilíbrio adequado entre a auto-estima e o respeito ao próximo. A maior liberdade é a da boa-fé, dos bons sentimentos, da paz interior.

A geração de vocês viverá desafios éticos inusitados. Já há uma nova ciência, a bioética, que traz em si as indagações e perplexidades da engenharia genética. Não é possível estancar a voracidade do homem pelo conhecimento. Vivemos tempos de transformações e de inseguranças. No plano internacional; no plano doméstico. Tudo parece acontecer ao mesmo tempo. Dias atrás vi um grafite que dizia: “Chega de ação! Queremos promessas”. A própria condição masculina está ameaçada. Vejam esta notícia, publicada recentemente no jornal O Globo (22.04.2004), reproduzindo artigo da revista científica Nature:

“Um dogma da ciência foi quebrado ontem com o anúncio do nascimento do primeiro mamífero que tem duas mães e nenhum pai. Trata-se de uma fêmea de camundongo chamada Kaguya, produzida por partenogênese. (...) Kaguya foi gerada sem a participação de qualquer espermatozóide ou célula masculina. Somente células sexuais femininas (óvulos) foram utilizadas. (...) Realizada por cientistas japoneses, a experiência tem desdobramentos biológicos e éticos. (...) A produção de um mamífero por partenogênese mostrou que o sexo masculino não é mais obrigatoriamente necessário para a geração de um mamífero”.

Estamos nos tornando supérfluos! Por um tempo ainda poderemos ser instrumentos de lazer, homens objeto. Mas por não termos uma função essencial à sobrevivência da espécie, estamos sujeitos às leis da evolução e, conseqüentemente, à extinção. Seremos preservados como micos-leões dourados ou tartarugas marinhas.

IV. O encontro do próprio caminho

Há um grande encontro na vida ao qual ninguém pode faltar: o encontro consigo mesmo. A descoberta do seu sonho pessoal, do seu dom especial. O que faz cada um diferente e indispensável. A estrela da sua vida. Escolham os próprios caminhos. Inspirem-se nos bons exemplos, mas não sigam ninguém. Usem o coração, o instinto e os valores. Não se deixem levar para onde não queriam ir e menos ainda se deixem tornar quem não são. Está lá, em Fernando Pessoa, um dos grandes:

“Nunca a alheia vontade, inda que grata,

Cumpras por própria. Manda no que fazes.

Nem de ti mesmo servo.

Ninguém te dá o que és. Nada te mude.

Teu íntimo destino involuntário

Cumpre alto. Sê teu filho”.

Nunca se vejam pelos olhos dos outros. Diante do elogio, lembrem-se que uma pessoa cheia de si é sempre vazia. E diante da crítica severa, depreciativa, lembrem-se da observação arguta de Eleonor Roosevelt: “Ninguém pode fazer você se sentir inferior sem a sua ajuda”.

Vocês tiveram acesso ao conhecimento, à possibilidade de compreender melhor o mundo. Por alguns anos a partir de hoje vão viver mesmo a ilusão de que entendem das coisas. Eu mesmo acreditei nisso. Até o dia em que li em um texto de Galileu: “O livro do mundo está escrito em caracteres matemáticos”. Veio me a convicção de que jamais poderia entendê-lo. Mas, dizia eu, virão as certezas. Plenas, absolutas, radicais. Sinto dizer-lhes, mas assim é porque sempre foi. Pois mesmo nessa hora em que o mundo se oferecer sem segredos, tomem alguns conselhos à sabedoria popular:

1º. As coisas nem sempre são como parecem: por muito tempo se supôs que a terra fosse plana e o sol girasse em torno dela;

2º. Para todo problema complicado há sempre uma solução simples; e errada;

3º. Há duas palavras na vida que abrem muitas portas: puxe e empurre. Ou seja: as coisas às vezes são simples mesmo.

Em meio à convicção mais profunda, saibam considerar a razão do outro. Ouçam com os ouvidos, com a mente aberta e se necessário com o coração. O psicanalista Luiz Alberto Py escreveu que no início de sua carreira trabalhou em hospitais psiquiátricos. E o que lhe chamou a atenção foi a segurança com que os internos referiam-se a seus delírios como sendo verdades absolutas. Isso o levou à seguinte e surpreendente conclusão: “O que nos enlouquece não são as dúvidas, mas as certezas”. E creiam em mim: compaixão, tolerância e imaginação levam mais longe do que o conhecimento. Esta uma lição para não esquecer: “Lo que puede el sentimiento, no lo hay podido el saber”.

V. Realização profissional

Abrem-se para vocês, nessa hora, tantas possibilidades, que difícil mesmo é escolher qual dentre elas. Advocacia, Ministério Público, Magistratura, vida acadêmica. Quase donos do mundo! Vocês são os melhores profissionais que há no mercado. Fazem parte de uma geração excepcional, que irá superar a de seus professores. O sucesso os aguarda ali na esquina. Estejam preparados. A propósito: o que é o sucesso?

Sucesso certamente não é fama. A fama pode até ser um sub-produto eventual das coisas bem feitas. Mas ela antes distrai e desvia do que contribui para o sucesso. E se em vez de mero subproduto, tornar-se um fim, um objetivo em si mesma, não haverá salvação para o espírito. Não se deixem enganar pelos mitos da pós-modernidade e pelo fetiche da comunicação social. Ser é o que conta. Parecer e aparecer vêm depois. E parecer sem ser é uma fraude que não enganará a pessoa mais importante da platéia: você mesmo. A glória é fugaz e traiçoeira, como escreveu, 500 anos antes de Cristo, o poeta grego Píndaro (522-443 AC):

“A glória dos mortais num só dia cresce,

Mas basta um só dia contrário e funesto,

Para que o destino, impiedoso, num gesto

A lance por terra e ela súbito fenece” .2

Ou, 500 anos depois de Cristo, Luís de Camões:

“Ó glória de mandar, ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos fama!

(...) Que castigo tamanho e que justiça

Fazes no peito vão que muito te ama”.3

Sucesso, tampouco, é ganhar dinheiro. Mas este também pode ser um subproduto legítimo de fazer as coisas bem feitas. Dinheiro honesto não deve trazer culpa. Lembro-me de uma queixa de Adoniram Barbosa: “Chega de homenagens. Eu quero o dinheiro”. E embora seja voz corrente que o dinheiro estraga as pessoas, não falta quem queira experimentar. Uma jovem profissional que trabalhou comigo disse-me certa vez: “Estou partindo para o meu segundo milhão de dólares. O primeiro não consegui”. Tal como a fama, se ganhar dinheiro for o objetivo final de alguém na vida, esta será uma vida vazia. De todo modo, a relação como o dinheiro deve ser como as relações na vida em geral: seja honesto com você mesmo e generoso com os outros. Ouvi de Carlos Ayres de Britto, o Ministro poeta do Supremo Tribunal Federal, uma frase feliz sobre um infeliz: “foi ficando tão pobre, tão pobre, que no final só tinha dinheiro”.

Na minha casa, quando eu era criança, falava-se muito em espanhol, por minha mãe haver sido criada no Uruguai, para onde a diáspora levara meus avós. Foi lá que eu ouvi de meu pai, pela primeira vez, uma frase que me encantou e que me acompanha desde então: “En La vida, hay que tener ideal”. É preciso ter ideal. O ideal está para a vida pública como o amor está para a vida privada. É a grande energia que faz com que a existência não seja uma mera busca por bens materiais e pela realização dos prazeres físicos. Tal como o amor, o ideal é a descoberta do outro e do bem que nos faz servir a ele.

Não quero minimizar, hipocritamente, os proveitos do sucesso material e dos prazeres legítimos. Carpem diem, aproveitem o dia. Quero apenas dizer, com a certeza de uma vida vivida intensamente, que sucesso é um sentimento interior. É estar de bem com a vida. Querer bem, fazer o bem. Todo destino bem cumprido é grandioso, mesmo que modesto. Não é preciso escolher sempre as alturas, como bem captou a poetisa paranaense Helena Kolody, num lindo verso:

“Não quero ser o grande rio caudaloso que figura nos mapas. Quero ser o cristalino fio d’água que canta e murmura na mata silenciosa”.

VI. Felicidade pessoal

Por fim, eu desejo a vocês que sejam muito felizes. Não uma felicidade pontual, dependente de um evento aqui outro ali. Mas um sentimento constante de paz e de segurança, um impulso positivo. Na vida, é certo, “o desejo é a falta”, como assinalou Freud, e sempre haverá o que almejar, o que conquistar. Mas não se desperdicem em busca do que não existe. Tenham em conta a advertência de Vicente de Carvalho:

“Essa felicidade que supomos

Árvore milagrosa que sonhamos

Toda arredada de dourados pomos

Existe sim: mas nós não a alcançamos,

Porque está sempre apenas onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos”.

A propósito: também desejo a vocês muita sorte. É importante na vida. Eu conheço pessoas que venceram na vida porque a tiveram. E prestei atenção nelas. Acordavam cedo ou dormiam tarde. Amavam o que faziam, ajudavam a quem podiam, cultivavam amigos, respeitavam as pessoas. E a sorte aumentava. Há quem considere que sorte é ganhar na loteria. Celso Japiassú escreveu a respeito esta espirituosa confissão:

“Até os vinte anos, acreditei na Santa Madre Igreja. Dos 20 aos 30, acreditei no Partido Comunista. Dos 30 aos 40, acreditei na psicanálise. Agora, só acredito na quina da Loto”.

Nada contra ganhar a loto. Mas sorte mesmo é não precisar disso. Sorte é fazer o próprio caminho.

Eu devo dizer a vocês que sem ter as virtudes que descrevi acima, também tive muita sorte. Às vezes cai do céu, mesmo sem a gente merecer. A sorte grande da minha vida acadêmica, da minha vida profissional tem forma de gente. Foi minha aluna, monitora, estagiária, orientanda de mestrado e de doutorado, e hoje em dia já aprendo com ela. Refiro-me à iluminada figura da Professora Ana Paula de Barcellos, que mereceu a justa homenagem de vocês. E ao lado dela, outros professores queridos e notáveis, que são o paraninfo da turma, José Augusto Garcia, e os admiráveis professores Patrícia Glioche e Bruno Lewicki.

Meus queridos: estejam preparados para não realizar todos os sonhos. A vida vem com sua dose razoável de frustração. Protejam-se contra os maus sentimentos – os dos outros e os próprios. Sejam o melhor que puderem; leva mais longe do que querer ser melhor do que os outros. Olhar para frente, não para os lados. Para baixo, sim, para ajudar. Para cima, sim, para pedir ajuda. Sem arrogância no sucesso nem amargura na derrota. Perdoem os outros e perdoem a si próprios. Apenas usem a mesma medida. Quem perdoa, ganhou a briga. Se os dois perdoarem, aumenta a energia positiva do universo. E em caso de traição ou de ingratidão, que são dores profundas, usem Cecília Meirelles e estarão vingados:

“A maior pena que eu tenho,

punhal de prata,

não é me ver morrendo,

mas de saber quem me mata”.

Retomo, para concluir esse ponto, a metáfora do mar, com sua beleza, promessas e riscos. Pode acontecer uma tsunami. Lulu Santos nem imaginava o que dizia quando cantou que “a vida vem em ondas”. Há forças maiores do que as nossas. Há coisas que não somos capazes de compreender. Na tradição judaica, o quipar ou solidéu simboliza o reconhecimento de que há algo acima de nós. E a quebra do copo no casamento lembra a destruição do templo de Jerusalém. Mesmo na felicidade é preciso saber que existe a adversidade. E ter fé. “Deus não joga dados com o universo”, escreveu Albert Einstein. E ele, talvez o maior cientista do século XX, elaborou a seguinte reflexão:

“Todas as religiões, as artes, ou as ciências são frutos da mesma árvore, cuja única aspiração é fazer a vida do homem mais digna: ou seja, permitir que o indivíduo se eleve além da simples existência física, e seja livre”.

Eu compartilho com vocês a minha fé na força invencível do bem e da justiça, mesmo quando não estejam ao alcance dos olhos.

VII. Sobre o Direito

Notaram que não falei até aqui uma só palavra sobre Direito. Vocês já tiveram a dose suficiente. Deixo apenas uma mensagem final. Em uma sociedade complexa e heterogênea como a nossa, o Direito desempenha diferentes papéis, ora ligados à conservação ora à transformação. Em um país injusto, que ainda não percorreu todos os ciclos do atraso, a definição do que deve ser conservado e do que deve ser transformado não é banal: ela expressa as escolhas de cada um diante da vida. Estejam ao lado da conservação dos direitos fundamentais que conquistamos, sobretudo as liberdades democráticas. Cultivem o horror às ditaduras, à intolerância, à perseguição. Mas sejam, também, agentes da transformação e não servidores do status quo, das distribuições iníquas de poder e de riquezas. Não sejam neutros, não sejam indiferentes. Saibam onde têm o coração e por quem ele há de bater.

VIII. Conclusão

Hernán Cortez, o controvertido conquistador do México, disse a seus soldados antes da batalha decisiva: “Mandei queimar as caravelas para que não pensem em voltar”. Nunca façam isso (nem as outras coisas que fez Cortez, que destruiu a civilização asteca). Sempre saiam dos lugares com dignidade e elegância, sem queimar os navios, sem bater a porta. É bom poder voltar ser for preciso. Melhor mesmo é sair como vocês fazem hoje: deixando uma história bonita, amigos e saudades. Em troca, sempre que vocês estiverem ao alcance da vista, nós olharemos para vocês e, na medida do possível, olharemos por vocês.

Meus queridos: vão com Deus. Vão em paz. Cumpram o destino que lhes coube. Façam o mundo melhor.
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1Discurso de formatura para a Turma Luís Roberto Barroso, UERJ, 16.2.2005.

2Marilena Chauí, Convite à filosofia, 1999, p. 23.

3Luís de Camões, Os Lusíadas, ao final do Canto IV, em discurso do personagem Velho do Restelo.
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