Segunda-feira, 26 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Entrevista - Cândido Padim

Segundo o beneditino

segunda-feira, 25 de abril de 2005

Entrevista

Cândido Padim

Leia abaixo a íntegra da entrevista com d. Cândido Padim, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, dia 24/4. Segundo o beneditino, o novo papa é relativamente tímido e mais voltado ao campo do pensamento. Confira.

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Ratzinger não é de dar espetáculo

O beneditino d. Cândido Padim lembra que o novo papa é relativamente tímido e, pelo menos por enquanto, mais voltado ao campo do pensamento

D. Cândido Padim vive no mesmo endereço há 62 anos – Mosteiro de São Bento, centro de São Paulo. Terça-feira passada, logo que se anunciou o novo papa, Bento XVI, viu a casa encher-se de fiéis. Não se sabe, no entanto, se o cardeal alemão Joseph Ratzinger escolheu o nome para prestar homenagem ao pontífice Bento XV ou a São Bento, o fundador da ordem. Seja como for, beneditinos sentiram-se agraciados. Agora, as tradições do monastério podem iluminar os caminhos da fé.

Dom Cândido foi bispo auxiliar da Arquidiocese de São Francisco do Rio de Janeiro e ex-diretor da Faculdade de Filosofia de São Bento. Teólogo, formou-se também advogado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Aos 89 anos, é considerado um religioso com inclinações progressistas. Ainda assim, vê méritos e virtudes na indicação de Ratzinger, com quem esteve em três oportunidades. Acha que seu conservadorismo é fruto de uma visão dogmática que precisa, sim, ser preservada. E que, ao contrário do que pensam alguns teólogos da Libertação, Bento XVI será um papa para os pobres.

A ESCOLHA DE BENTO XVI

 

É muito difícil querermos investigar o que motivou o cardeal a escolher o nome Bento XVI. Isso é muito pessoal, e ele tem toda a liberdade para fazer uma opção. São intenções íntimas. Por suposição, podemos relacionar a escolha com a realidade enfrentada por Bento XV, que foi eleito papa antes da Primeira Guerra Mundial e faleceu logo depois do conflito. Sua atuação procurou intervir a favor da paz. Hoje, neste mundo tão conturbado, Ratzinger talvez esteja dizendo que gostaria de ver a Igreja contribuindo para o sentido da paz. Isso é uma simples suposição minha, o que não exclui sua preferência espiritual e cultural por São Bento, que viveu em uma sociedade desintegrada do ponto de vista cultural – em sua época não havia propriamente uma cultura européia, que só mais tarde foi se formando. Por outro lado, havia uma tentativa de deter a violência que advinha da invasão dos bárbaros. São Bento teria dito a um dos líderes da invasão, que chegara bem próximo do mosteiro, que ele deveria respeitar a dignidade das pessoas. Esse líder teria feito o caminho de volta.

ATRADIÇÃO BENEDITINA

 

A história de São Bento remonta ao fim do século 5, na virada para o século 6. São Bento era de uma família relativamente abastada – para os tempos de hoje, uma classe média evoluída. Para que ele tivesse acesso à cultura, seu pai o mandou do interior da Itália para Roma, isso quando tinha uns 17 anos. Foi junto uma ama, que o ajudava na vivência do lar. Lá chegando, ficou horrorizado com a dissolução moral da sociedade – e então decidiu se recolher em uma gruta para rezar, como era comum entre eremitas. Tentou viver em oração, mas era apenas um jovenzinho inexperiente – e, por todas as tentações espirituais que o coitado do homem sozinho recebe, ele não agüentou. Então abandonou o eremitério quando tinha entre 19 e 20 anos. Ao se relacionar com outros jovens cristãos que desejavam uma vida de espiritualidade, formou um pequeno grupo, uma comunidade que mais tarde fundaria o Mosteiro de Monte Cassino. Inicialmente, não se pensava na criação de uma ordem religiosa. Mas São Bento acabou deixando um legado de vida monástica, com regras para tudo dentro de um mosteiro, até para a cozinha. Deixou um legado de vida comunitária, que exige fraternidade entre seus monges. Um mosteiro deve bastar-se a si mesmo, deve poder plantar e colher, de forma a ser auto-suficiente.

UM PAPADO MONÁSTICO MASATUANTE

Bento XVI não tem o espírito nem as disposições físicas que teve João Paulo II, um alpinista. Ratzinger é um homem que se dedica à busca do desenvolvimento intelectual. Será mais voltado à cultura cristã. Mas terá também o desejo de expandir sua influência no meio social.

ESTILO “MAIS SOLTO”,EMBORA MENOSESPETACULOSO

 

Ratzinger é o contrário do espetáculo e do uso que muitas seitas fazem disso. É relativamente tímido. Porém, é uma pessoa muito corajosa, muito firme e muito positiva em suas idéias. É também uma pessoa muito simples, que apesar da timidez se mantém muito bem-humorada. Observe que, nas reportagens que surgem a partir de sua eleição, ele está sempre sorrindo. João Paulo II, por exemplo, era muito amável e cordial, mas era de pouco sorriso. Ratzinger tem o espírito assim um pouco mais solto.

A OPÇÃO PELOS JOVENS

 

Uma das maiores urgências da sociedade de hoje é a desorganização da juventude. Ela não tem movimentos de porte cultural, com raras exceções. Tem divertimento apenas. Falta um atendimento a esse vazio interior que a juventude de hoje tem em função de tudo o que atrai a dissolução. A primeira coisa é a televisão – não o fato de o aparelho existir, mas do vazio das reuniões que são registradas por ela. Também a violência entre jovens cresce a cada dia. Com freqüência, vemos notícias de gente que matou os próprios pais. Isso é coisa que jamais acontecia há 40 anos.A juventude não tem realmente nada que atenda à necessidade de seu vazio cultural. Por tudo isso, me agrada muito a opção pelos jovens apresentada pelo novo papa. Bento XVI já decidiu, inclusive, ir a um encontro de jovens na Alemanha. O contato com a juventude, em grande massa, é uma urgência. A mensagem de Jesus não é outra senão a fraternidade – e o que falta aos encontros de jovens é que não se resumam a divertimento, expansão e maluquice, mas sejam encontros de pessoas que se estimam.

ECUMENISMO RELIGIOSO

 

Ratzinger é um dos maiores teólogos que tivemos até hoje, no sentido de estudar e analisar não apenas a teologia, mas também os problemas que são levantados pelo pensamento religioso no mundo contemporâneo. Ele já declarou querer continuar os contatos que João Paulo II fazia com todos os grupos religiosos. Esse é um problema da Igreja que levou a lutas terríveis no passado, fazendo inclusive aflorar o protestantismo. Quando fala em ecumenismo religioso, Ratzinger está buscando tolerância e respeito, uma atitude de compreensão das diferenças. Uma opção pela paz.

CATÓLICOS E PROTESTANTES

 

A CNBB, que agrupa os bispos católicos do Brasil, formou há 15 anos o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, o Conic. Esse conselho tem sete igrejas que se reúnem com a CNBB – metodista, presbiteriana, batista, anglicana etc. Não acredito que isso, um dia, acabe por gerar uma reunificação, no sentido de sermos totalmente unidos e mais ou menos iguais. Mas acredito em uma reconvocação do ideal cristão. Sobre essa questão, Bento XVI vai trabalhar da mesma forma que João Paulo II, mostrando reciprocamente os pontos positivos. Mas, na cabeça dele, não é um homem de concessões quanto aos princípios e ao modo de formulá-los.

DOGMAS INSUPERÁVEIS

 

Para a Igreja Católica, existem dogmas que são intocáveis: a Santíssima Trindade; a encarnação em Jesus Cristo, o filho de Deus; a virgindade da mãe de Jesus; a percepção de que os sacerdotes são sucessores daqueles que Jesus escolheu como apóstolos, de modo que não aceitamos esse conceito de muitas igrejinhas que se formam no Brasil nas quais qualquer um pode ser padre. Além desses dogmas, o princípio da criação do homem – corpo e alma espiritual, que o torna diverso do simples animal. Por isso, toda a concepção humana que gera um novo ser é um princípio de vida. Portanto, em nossa existência terrestre, não temos o direito de eliminar uma vida humana – nem pela violência, nem pelo aborto. Essas são questões dogmáticas já definidas, coerentes com as revelações da Bíblia. Isso significa que nenhum papa tem o direito de alterá-las, seja ele considerado conservador ou progressista.

UM PAPA CONTRA A POBREZA

 

Ratzinger é considerado conservador por uma questão de estilo cultural. É alguém que tem por temperamento uma reserva psicológica que não o permitiu, até agora, embarcar em movimentos sociais ou sindicais, que nada têm de dogmáticos. Isso, no entanto, não nos autoriza a dizer que seu papado será o de uma Igreja mais distante dos pobres. Os trabalhos que Ratzinger recebeu de João Paulo II eram tarefas dirigidas mais para o campo do pensamento, naturalmente mais dogmáticas. Agora que é o papa e terá de tratar de todos os assuntos da Igreja, tenho certeza de que irá procurar promover todos os movimentos sociais contra a pobreza. Porque era assim que fazia João Paulo II e porque será obrigado a isso.

AS VIRTUDESDE RATZINGER

 

A rápida eleição do papa é um sinal de que está renascendo a busca pela unidade, o que é a primeira virtude da escolha de Ratzinger. Não é brincadeira chegar a um consenso de votação em apenas dois dias. Houve eleições de papas com até 12 votações, um sinal de que não se entendiam muito. Agora, a rápida escolha é um bom sinal de que se está refazendo toda a unidade de ação, e não só de pensamento. Na ocasião da morte de João Paulo II, 3 milhões de pessoas passaram pela Praça São Pedro. Agora, quando a fumacinha branca apareceu, novamente a praça se encheu de gente. É, de novo, um sinal de que está renascendo essa manifestação da unidade da Igreja Católica. A continuidade do trabalho de João Paulo II e Bento XVI é outra grande virtude na votação de Ratzinger. Quantas lutas entre os próprios católicos não geraram a divisão da Igreja?

OS DESVIOS DATEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Tive, pessoalmente, uma conversa com o cardeal Ratzinger sobre a Teologia da Libertação. Ele de fato não é muito entusiasta dessa denominação. Não gosta.O vaticano publicou dois documentos sobre o assunto. O primeiro era muito duro, muito forte, e parecia condenar sua prática. O segundo procurava mostrar também os aspectos positivos do pensamento da Libertação. Comigo, Ratzinger disse saber da existência desses aspectos positivos. O receio dele, no entanto, era a influência de ideologias sociais como o marxismo, que poderiam perturbar o cristianismo. Eu disse a ele, na ocasião, que isso não era a Teologia da Libertação, mas alguns teólogos católicos que tinham certos desvios. Ele reconheceu isso.

A MULHER, A CULTURA E A IGREJA

Há um aspecto aparentemente secundário mas revelador: a cultura européia é ainda muito presa às tradições de classe média. Por isso, dentro desse espírito, a presença da mulher não é bem vista. Lá, e mesmo em Roma, nunca se admitiu nas celebrações a presença de mulheres como coroinhas. Na América Latina, isso é muito freqüente. A insatisfação das mulheres com a escolha de Ratzinger se explica por sua origem européia e pelo temor de que será muito restritivo. No entanto, tenho a convicção de que, como a partir do Concílio Vaticano II essa participação da mulher na Igreja foi bastante desenvolvida, ele não terá como voltar atrás.O clero todo já está se acostumando com isso. Quando um alemão se transforma empapa, não há dúvida de que ganha a noção de que é um representante dos cinco continentes. João Paulo II também teve de mudar um pouco seu modo de ser. Fafá de Belém cantou para ele em uma de suas visitas ao Brasil. Isso seria impossível de acontecer na Europa. Jamais uma arquidiocese de lá iria promover uma coisa desse tipo. Mas veja que isso não é dogmático – é cultural.

O FUTURO DA IGREJA CATÓLICA

 

João Paulo II promoveu uma variedade no cardinalato que nunca existiu. Há indianos, asiáticos, africanos, etc. Ele abriu portas que estavam fechadas, até mesmo com o patriarcado oriental. Bento XVI encontra essas portas abertas e uma tradição já firmada de o papa circular por esses meios. Seu papado deve ser de continuidade – mas uma continuidade que vai encontrar certas colaborações. Essas colaborações podem levar a resultados que não há, hoje, como prever.

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Dom Cândido Padin - Itinerário de uma vida

Percurso autobiográfico de Dom Cândido Padin, personagem essencial na história recente do país, mostra sua serenidade e firmeza expressas de maneira singular nos diversos momentos de sua vida. Livro certamente útil para muitos, pois amplia horizontes aparentemente obscuros, tornando-os gradativamente mais luminosos.

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