Segunda-feira, 26 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Calçado x dólar

O Estado de S. Paulo

segunda-feira, 2 de maio de 2005

Calçado x dólar

O Estado de S. Paulo de ontem trouxe matéria sobre o setor calçadista de Franca e São Paulo/SP. Segundo a reportagem, o setor enfrenta o dólar e a China. Esta mudança cambial constante tem obrigado as empresas a serem rápidas para cortar custos, refazer planos e buscar novos mercados para reduzir os prejuízos. Confira abaixo a íntegra da matéria.

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Calçado enfrenta o dólar e a China

Com mudanças cambiais, empresas têm de ser rápidas para cortar custo, refazer planos e buscar mercados para reduzir prejuízo

Nos últimos meses, a cotação do dólar é acompanhada dia a dia com ansiedade e apreensão nas maiores empresas exportadoras do pólo calçadista de Franca, e São Paulo, considerada a capital dos calçados masculinos no País. A mudança cambial constante tem obrigado as empresas a serem rápidas para cortar custos, refazer planos e buscar novos mercados para reduzir os prejuízos.

Mas o dólar, na última semana cotado quase a R$ 2,50, não é só o que desanima os exportadores. A China, que invade os Estados Unidos e outros países da Europa com bilhões de pares de calçados, também começa a assombrar quem disputa o mercado externo. “Já perdemos linhas para os chineses”, admite o diretor-superintendente da Samello, Renato von Gal Furtado. “Um sapato brasileiro de qualidade que custe de US$ 3 a US$ 4 a mais do que o chinês compete nos Estados Unidos. Mas com US$ 8 de diferença, mesmo que o produto seja top como o nosso, sem dúvida, a China ganha. É o que acontece.”

No pólo calçadista de Franca, todos têm histórias para contar das dificuldades que estão enfrentando com a cotação da moeda americana e o crescente avanço dos chineses no mercado internacional.

“Estive em março numa feira calçadista de Milão e fiquei boquiaberto quando soube que pela primeira vez as importações chinesas na Europa superaram as italianas”, diz o gerente comercial da Democrata, Marcelo Paludetto.

Hoje a China é o maior exportador mundial, com 8 bilhões de pares produzidos por ano, seguida pela Índia, com mais de 800 milhões, e pelo Brasil, com cerca de 700 milhões de pares anuais. “Os chineses se aperfeiçoam cada vez mais para ganhar em qualidade”, diz o diretor- executivo do Sindicato da Indústria de Calçados de Franca (SindiFranca), Ivânio Batista. Ele conta que há comentários de que mais de 200 técnicos em design e estilo brasileiros já estão na China, ao lado de italianos, dando suporte para os chineses desenvolverem sapatos de altíssima qualidade. E observa que a Índia, embora em menor escala, também vem ocupando espaço no mercado internacional.

A Samello, maior exportadora de Franca, com 65% da produção destinada ao exterior e 75% deste total para os Estados Unidos, tem tentado de tudo para enfrentar o novo cenário. “Negociamos prazos com os fornecedores, aproveitamos melhor a matéria prima, retiramos linhas de calçados de menor rentabilidade e vamos vender mais no mercado brasileiro. Mas as alternativas estão se esgotando e a perspectiva é de perda”, diz o executivo da empresa. Ele destaca que os sapatos entregues no exterior agora vão ter por base um dólar a R$ 2,50, mas foram produzidos entre setembro e outubro com base numa moeda cotada a R$ 2,80. “Esta diferença pode parecer pouca, mas em reais é significativa e leva a perdas expressivas.”

Sofisticação

Na Sândalo, há 40 anos no mercado de calçados masculinos, a Rússia e a Ucrânia acabam de entrar na lista de novos mercados da empresa, que já exporta para 36 países. “No ano passado, 80% da produção de mais de 540 mil pares foram para os Estados Unidos. Este ano a produção destinada aos EUA já cairá para 70% e vamos para novos países”, diz o presidente da Sândalo, Carlos Brigagão. Para driblar a baixa cotação do dólar, ele decidiu sofisticar algumas linhas para poder cobrar mais caro pelo sapato. “Eliminamos os produtos de preço baixo e conseguimos, com os calçados de maior valor agregado, até substituir fornecedores da Itália e Espanha que vendem para os Estados Unidos.” Mas a situação, pondera, é complicada. Só no primeiro quadrimestre do ano, em relação ao mesmo período de 2004, a empresa teve uma redução de vendas de 41 mil pares, quase o equivalente, compara, a um mês de produção.

Investir na marca própria é outra alternativa dos fabricantes de Franca. Os americanos, principalmente, os grandes compradores do pólo, dizem, não aceitam aumentos em dólar sem justificativa. “Não tem como reajustar preços. Para compensar a perda com o câmbio seria necessário que aumentássemos em 15% o preço dos sapatos, mas eles não compram”, diz o diretor comercial da HB Calçados, José Henrique Betarello.

“Perdemos competitividade e ganhamos menos.” Os Estados Unidos ficavam com 85% dos produtos exportados pela Betarello. Hoje compram 60% e a empresa entrou no mercado europeu com a marca Bettarelo nos produtos de maior valor.

“A marca própria é a única maneira de se ter algum controle sobre o preço do calçado”, diz Paludetto, da Democrata, que há quatro anos exporta com marca própria. A empresa está em 54 países e entrando em novos mercados, como a Tailândia e a Rússia. Dos 8 mil pares de sapatos produzidos por dia, 35% são exportados e, deste total, 60% levam a marca Democrata. Mas assim mesmo ele sente o peso do câmbio. “Não dá para renegociar contratos.” No início do ano, a empresa lançou uma nova coleção, com mais detalhes no solado e costura manual para incorporar valor ao sapato. “Mas, com o dólar a R$ 2,50, voltamos a perder lucratividade.” A empresa foi obrigada a rever planos e reduzir em 200 mil pares a meta prevista para exportação este ano. “A intenção era crescer em 20%. Mas vamos, no máximo, manter números de 2004.”

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