Sexta-feira, 19 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

Um Crime numa Casca de Noz

quinta-feira, 11 de agosto de 2005


Um Crime numa Casca de Noz


Confira um capítulo do livro "Um Crime numa Casca de Noz", gentilmente enviado pelo distante migalheiro Adauto Suannes.

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                  A. Cerviño Seoane

- XI –

“As viagens em grupos têm vantagens e desvantagens, como tudo, aliás, na vida. Logo, essa é uma frase que parece inteiramente dispensável. Talvez não o seja, porém, se virmos os fatos por outro ângulo.” Era, evidentemente, o professor Milor expondo às filhas as razões porque havia preferido viajar daquela forma em lugar de alugar um automóvel e saírem pelas estradas easy rider, como a Dra. Heloísa chamava essas sortidas sem bússola nem mapa.

Ele prosseguiu. “Havia em meu tempo de moleque ...”

“... quando eu ainda não havia nascido”, observou, com humor, a esposa.

“... uma história que os pais contavam aos filhos. Eu hoje não sei se é uma história edificante ou não. Ela dizia respeito a uma jovem que aceitava a vida tal como a vida se lhe apresentava. Havia também o hábito de contar histórias com uma observação de fundo moral ao final delas. Seu precursor foi um grego, Esopo, que foi seguido por um francês, Jéan de La Fontaine. Suas fábulas – refiro-me ao francês - chegam a quase 250, que muitos consideram pura cópia dos textos do escritor grego que o antecedeu. Entretanto, para outros estudiosos, muito embora ele se tenha, de fato, inspirado no grego, dotou suas histórias de tal graça que elas adquiriram vida própria.”

“Se eu bem aprendi de sua aulas, caro mestre, as fábulas são espécies de parábolas. Elas dizem uma coisa mas significam outra”, observou Rachel, com espírito.

Brava!, como se diz no teatro. Curioso é que essa palavra é uma interjeição, mas os italianos flexionam conforme o sexo da pessoa que está sendo aplaudida” explicou o eterno professor, para desespero da mulher, que era mais objetiva do que ele. “Portanto, brava!”

Era isso uma decorrência da profissão dela. Quando uma testumnha se põe a divagar, procurando palavras para contar o que sabe, o juiz imagina que o depoente esteja a ganhar tempo para inventar alguma resposta menos comprometedora. Vai daí que o bom magistrado, conhecedor do velho Freud e sua “associação livre de idéias”, procura não dar muito tempo à testemunha, exigindo que ela seja direta em seu depoimento.

Aliás, conta-se no foro que um desses juízes impacientes levava isso a extremos, exigindo que a testemunha dissesse apenas “sim” ou “não”. E deixava claro às testemunhas: “comigo tudo pode ser respondido com um sim ou um não!” Isso foi sendo seu lema até o dia em que uma atrevida testemunha, senhora já bastante vivida, fez-lhe um desafio: “se eu lhe fizer uma pergunta o senhor me responde com um sim ou com um não?” O juiz cometeu a imprudência de concordar com a proposta, para com isso poder confirmar sua tese. E a testemunha, muito despachada: “Sua mãe ainda se dedica à prostituição? Sim ou não?”

“Fantástica essa senhora”, elogiou a irreverente Lya. “Esse colega de mamãe bem que mereceu a lição. Mas, se ele for como uma colega dele que eu conheço, essa testemunha saiu da Corte diretamente para a prisão. Não foi?”

“Estou aguardando o restante do depoimento”, disse a esposa, entrando no espírito do ambiente, como se aquela provocação não lhe dissesse respeito. “Eu e essas duas belas jovens que ainda não almoçaram, aliás”.

“Mais algumas horas e eu concluo o que estava a dizer” brincou ele.” “Nessas mais de 200 fábulas ele, de fato, no estilo de Esopo e outros escritores da antigüidade, contava, com muita graça, alguma historieta, tendo, geralmente, como personagens os animais e, a partir daí, concluía com um frase, que sintetizava aquilo que a narrativa pretendeu ensinar.”

E, fazendo um ar de falsa indignação. “Aliás, sua mãe me interrompeu e eu nem sei mais porque comecei a falar de La Fontaine. Se alguma de vocês me ajudar, eu agradecerei muito”, afirmou ele.

Aquilo era mais um truque do experiente professor, que sempre se valia desse recurso em classe para manter a atenção dos alunos, por isso que qualquer um deles poderia ser chamado para dar continuidade à exposição do mestre ou para fazer uma síntese do que ele havia dito. Isso tinha um efeito extraordinário, pois, não poucas vezes, ele passava de um assunto para outro, sem ligação nenhuma entre eles, esperando que algum aluno, com um mínimo de atenção e com coragem para expressar sua crítica, denunciasse o ocorrido. Claro que isso tudo era por ele levado em conta, quando cuidava de avaliar o desempenho dos seus alunos, já que ele considerava o sistema de provas periódicas um tanto lotérico, pois nem sempre elas expressam o aproveitamento da pessoa.

“Tenho por meus alunos um julgamento que é precedido por uma visão holística de sua conduta”, costumava dizer ele, a provocar a esposa e seu célebre linguajar empolado, que os advogados conheciam muito bem.

Aliás, havia na Corte muitas histórias que corriam de boca em boca a respeito da Dra. Heloísa e esse seu modo de se expressar algo incomum. Como aquela que dizia que a juíza estava a julgar um caso de uma barregã que, à sorrelfa e de sorrate, ubicara em local esconso o estilógrafo áureo de um jovem alfenim a quem ela procurara para fins lascivos, escafedendo-se a indigitada, ao depois, com sair de chouto da mansarda dele.

Quando isso foi contado pelo professor Milor, em um dos saraus lítero-musicais que por vezes ele realizava em sua casa de campo, reunindo amigos próximos, Heloísa negou terminantemente que fosse algo verdadeiro. Mas não estava muito longe do estilo de suas redações. “Se lemos os autores clássicos não será para falarmos como o faz a patuléia. Concordam?” foi sua reação, que mais riso provocou.

“E qual foi a solução do caso, papi?” perguntou uma das filhas.

“Sua mãe a condenou a prestar serviços comunitários e a freqüentar a missa aos domingos, vejam vocês. Uma notória prostituta freqüentando a missa deve ter sido motivo de escândalo. E dizem ainda os advogados que se a condenada não comungasse, seria mandada para cumprir a pena na prisão!” explicou ele.

“Mentira! Deslavada mentira!” apressou-se ela a esclarecer. “Isso é futrica dos advogados cujos clientes são alvo de meus apodos. Imagine se eu iria cometer um despautério desses!”

Mais risos entre os presentes, que solicitaram a ela que desse sua versão ao caso. Ela não se fez de rogada.

“Era, de fato, o caso de uma pobre prostituta que havia sido convidada por um rapaz muito tímido para ir com ele à casa do rapaz, onde ele lhe pagaria pelos favores sexuais que ela lhe faria. Após a cópula ela se retirou e ele, mais tarde, deu pela falta de uma caneta de ouro, que o pai lhe havia dado. Ele correu ao posto policial e deu queixa do furto. A jovem foi alcançada e mostrou o local onde havia, realmente, escondido a tal caneta. Eu a condenei e o advogado dela, um cultíssimo professor da Faculdade de Letras, espalhou a história pela Corte, utilizando preciosismos literários à conta de meu estilo. Foi isso”, disse ela.

“Mas diga a eles como foi a sessão em que Vossa Excelência leu à jovem os termos da sentença condenatória”, desafiou o marido provocativamente. Ela titubeou, dizendo que aquilo era coisa secundária, de somenos importância. Entretanto, os amigos todos, em coro, exigiram que ela concluísse a narrativa. Ela, fingindo uma timidez que jamais teve, concluiu a narrativa.

“Com efeito, depois que lhe li a sentença, com todas as condições que lhe haviam sido pro mim impostas, a pobre moça levantou-se e me confessou: doutora, eu não entendi nada do que a senhora disse!”

Na ocasião, as pessoas dobravam-se de tanto rir, chegando algumas a enxugar as lágrimas que lhes corriam pelo rosto. “Imagine-se uma mulher do povo, de profissão de vida fácil, como dizem os que não conhecem bem os sacrifícios das pobres rameiras, a entender aquilo que nem mesmo os advogados logram lobrigar” disse o professor Milor, caçoando mais uma vez do linguajar da mulher.

“Concluindo”, disse ele, “a tal prostituta, depois de dizer que nada havia entendido, fez uma pergunta à meritíssima Juíza aqui presente: Excelência, o que eu quero saber é só uma coisa. Posso continuar com as minhas costurinhas?”

Novas gargalhadas explodiram diante da simplicidade da moça, comparada à complexidade da linguagem do foro, pois a Dra. Heloísa não era a única a usar esse jargão quase ininteligível. Chamar de costurinha aquilo que faz uma prostituta é realmente um achado.

José Francisco, feita a pausa, voltou à lição que havia começado.

“Pois eu falava de minha querida Poliana, aquela jovem que deve ter nascido na Noruega, pois era incapaz de reclamar de coisa alguma. Ela é uma autêntica reencarnação do Jó, o padroeiro dos conformistas. Estás com saúde? Louvado seja Deus. Estás com dinheiro ? Louvado seja Deus. Perdeste a mãe ? Louvado seja Deus. Perdeste o emprego ? Louvado seja Deus. Estás doente ? Louvado seja Deus. Em suma, para Jó, Deus deu, Deus tira”, caçoou ele.

“Mas você não concluiu o pensamento a respeito das fábulas do La Fontaine”, alertou Rachel.

“Grande aluna! Minhas congratulações, senhorita”, fez ele, como se estivesse, de fato, em classe. “Realmente, eu dizia que as fábulas de La Fontaine não são meras historietas secas, mas sim narrativas, feitas em verso, onde se pode perceber o talento do autor. Ele, pode-se dizer, foi além de Esopo, cuja idéia, na verdade, aproveitou. Mas isso em arte é muito comum.”

A mulher conhecia muito bem seu marido. “Se vocês deixarem, ele agora vai falar de como os artistas se aproveitam da idéia de outro. Notaram que ele deixou um rabinho na narrativa? Isso é um truque que ele usa com freqüência e que eu finjo não perceber”, disse ela. “Só que eu estou com muita fome e pretendo ir ao bar comer algo. Quem de vocês me acompanha?”

No restaurante do barco cada um pediu seu lanche, preferindo José Francisco tomar um varm sjokolade com um ostkake. E a conversa prosseguiu animada, pois as filhas eram, declaramente, admiradoras do pai. “Repararam que eu pedi ost e não øst?” indagou ele.

“Para mim dá na mesma” respondeu a mulher. “Quero só ver se ele entendeu e vai trazer a comida certa.”

“Se ele errar, eu estou perdido, pois ost é queijo, enquanto que øst designa um dos pontos cardeais: leste”, esclareceu Milor.

“Acho que o garçon sabe a distição entre uma coisa e outra. Ainda se fosse como na China, onde as palavras que designam vaca e mãe têm quase a mesma pronúncia” ressalvou a mulher. “Trazer a mãe ou a vaca é uma dúvida razoável. Mas trazer um ponto capital em lugar de uma comida está além de uma reasonable doubt”, ponderou ela.

“O que me encanta em minha mulher é essa facilidade de expressão que ela tem” ironizou ele. “Mas, prossigamos. Falávamos de Poliana e de sua importância cultural, se eu posso assim dizer sem merecer o veto de sua mãe” recomeçou ele.

“Há uma oração famosa, cujo autor jamais saberemos, como tantas outras, mas que alguns atribuem a um tal Almirante Hart, uma dessas figuras sem biografia que nós citamos a torto e a direito, até o dia em que somos interpelados e não sabemos bem como indicar a fonte efetiva de nosso conhecimento.”

A mulher riu muito com a observação, chamando a atenção o fato de haver clara desproporcionalidade entre o que foi dito a a reação dela, que, devidamente consultada, se explicou.

“Desculpe, querido, mas enquanto você falava veio-me à mente um incidente que eu presenciei e que ilustra bem isso que você estava dizendo. Pode continuar”, pediu ela.

“De modo nenhum”, disseram as filhas em coro. Começou vai até o fim. Só você é que tem direito de divertir-se com seus casos curiosos, mami?” disse uma delas. O marido aderiu ao coro e a mulher se dispôs a narrar-lhes o fato que, segundo ela, confirmava o que o narrador estava a explicar.

“Havia numa cidade onde atuei como juíza um advogado que era famoso porque utilizava sempre os mesmos chavões quando defendia os seus clientes acusados da prática de algum crime, o que impressionava muito os jurados, pois o advogado tinha excelente oratória, ainda que sua cultura fosse quase medíocre. O acusador, em determinado dia, era um jovem que há pouco havia chegado à cidade e ainda não conhecia os hábitos locais nem as pessoas tradicionais da cidade. Ele citava os autores renomados nacionais e estrangeiros, como Calamandrei, Ferri, Ortega y Gasset, Jiménez de Asúa, Silva Franco e tantos outros que o advogado, segundo me parece, jamais havia lido. Que fazer? Quando chegou a vez do advogado, ele começou seu discurso com os elogios de praxe, dirigidos ao juiz, a cada um dos jurados, que ele conhecia pelo nome, e, claro, ao acusador”, prosseguiu ela.

“E pensar que há pessoas que acreditam nesses elogios de ocasião”, exclamou o professor. “Fosse assim, eu me consideraria um gênio, tais e tantos tenho ouvido em minha vidaa!”

“Exatamente”, concordou a mulher. “Todo juiz é ínclito, culto, trabalhador, de conduta ilibada e coisas do gênero. Mesmo quando seja a figura mais notória por sua má conduta, sua preguiça, sua ignorância.”

As meninas estavam ficando impacientes com aqueles atalhos que os dois estavam trilhando, como a fazer suspense com elas. Aquilo parecia missa encomendada, para utlizarem de uma das expressões do arsenal da mãe.

“Como diz o pai de vocês, vamos encomendar de vez esse defunto”, disse ela, como a perceber a impaciência das filhas. Era essa uma expressão tipicamente espanhola, que, segundo se dizia, originava-se do fato de um padre ser extraordinariamente prolixo em suas manifestações, o que levava muitas pessoas a evitar as missas por ele celebradas, que jamais duravam apenas os cinqüenta minutos de costume.

“Certo dia, ele fazia considerações à beira do túmulo de um homem importante da cidade. Dava-se que haveria logo mais um jogo de futebol a que todos ali desejavam assistir, talvez da copa do mundo, não sei bem”, ressalvou o pai das meninas. “Assistindo à cerimônia havia um senhor que não tinha papas na língua e chamava vaca de vaca e puta de puta, como se diz na Espanha. Impaciente, ele não se fez de rogado e, com sua voz tonitruante, usou da expressão a que se refere a mãe de vocês.”

“Aliás, esse tonitruante foi usado sem pedir licença a ela. Não foi?” observou Lya.

“Depois eu cobro os direitos autorais”, esclareceu a mulher. “Mas, concluindo, o tal advogado não sabia que autor importante citar. Era ele, porém, inteligente e sabia que seu auditório não era composto de profissionais do Direito. Logo, qualquer coisa servia. E, sendo assim, citou alguns falsos juristas que nada mais eram do que os comerciantes da cidade. Juán de la Quinta, Antoni del Cuero e tantos outros, o que fazia os jurados, que os conheciam muito bem, rirem a mais não poder, sem que o jovem acusador percebesse o que se passava. Para encerrar, o advogado citou um famoso jurista italiano Córi Ógi, que havia escrito algo que se aplicava como uma luva ao caso em julgamento. E se pôs a explicar a teoria do homem aos presentes, para desespero do acusador, que se julgou um ignorante.”

“Mas esse nome deve ser de algum autor italiano”, poderou o professor Milor.

A mulher pôs-se rir desbragadamente, ao ver que o marido também caíra na armadilha preparada pelo astuto advogado.

“Autor coisa nenhuma”, esclareceu ela. “Havia, de fato, na cidadezinha um italiano, que era conhecido por todos, já que ele vendia bilhetes de loteria. E, para apregoar sua mercadoria, ele gritava em italiano: corre hoje!”

Risos de todos e aplausos das meninas.

“O que eu mais admiro no ser humano é a inteligência”, disse Rachel. “Pode ser o mais rematado desonesto, mas, se for inteligente, tem minha admiração!”

“Concluindo”, disse o homem, “vocês estão a perceber o que eu pretendia mostrar. Uma viagem de automóvel traria algumas vantagens, sem dúvida, mas a atenção do motorista, voltada para a estrada, não lhe permitiria desfrutar da companhia das três beldades que o acompanham nesta viagem. Tenho dito!”
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