Segunda-feira, 14 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Entrevista

Exclusivo: Machado de Assis e a “tradução” de suas obras

Veja a exclusiva entrevista que Machado de Assis nos concedeu sobre a simplificação dos clássicos da literatura.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Nos últimos dias temos acompanhando a polêmica acerca da "tradução" das obras de Machado de Assis. A motivação foi o anúncio do lançamento, em junho, de O Alienista, de Machado de Assis, e de A Pata da Gazela, de José de Alencar, em versões simplificadas pela escritora Patricia Engel Secco.

A escritora pretende, captando dinheiro por meio das leis de incentivo à cultura, trocar palavras consideradas “difíceis” ou “estranhas” aos jovens leitores por sinônimos. O projeto foi aprovado pelo Minc em 2009 e, ao todo, 600 mil exemplares dos dois livros serão distribuídos. Há, contudo, uma petição on-line que pede que o Ministério "impeça a alteração das palavras originais nas obras da língua portuguesa".

Ontem, os colunistas Ygor Valerio e Gabriela Muniz Pinto Valerio, em coautoria com Eduardo Calbucci, mostraram que é questionável a iniciativa aos olhos da lei de Direito Autoral porque, embora os livros do Bruxo do Cosme Velho estejam sob domínio público, eles seguem desfrutando de tutela do Estado quanto à preservação de sua autoria e integridade.

Entrevista exclusiva

Para resolver o imbróglio da simplificação dos clássicos da literatura, a alta Direção de Migalhas foi buscar as opiniões de um de nossos maiores mestres, o fundador e primeiro presidente da ABL. Veja a exclusiva entrevista que Machado de Assis nos concedeu.

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Migalhas – Você sabia que até hoje é muito lido ?

Machado de Assis – "O louvor dos mortos é um modo de orar por eles."

Migalhas – Andam dizendo por aqui que seus textos estão ultrapassados.

M.A. – "A morte não envelhece."

Migalhas – De fato, mas afirmam que algumas palavras ficaram no passado.

M.A. – "O passado é um pecúlio para os que já não esperam nada do presente ou do futuro; há ali sensações vivas que preenchem as lacunas de todo o tempo."

Migalhas – Deixa ver se entendemos. Você quis dizer que...

M.A. – ... "O passado é ainda a melhor parte do presente."

Migalhas – Ok. Mas veja que há uma mulher querendo explicar sua obra para os jovens. Quer, digamos, deixar o texto mais claro. O que você acha disso ?

M.A. – "Nem tudo é claro na vida ou nos livros."

Migalhas – Concordamos. Mas ela vai mexer na linguagem, trocando algumas palavras por sinônimos. Você concorda ?

M.A. – "Em matéria de língua, quem quer tudo muito explicado, arrisca-se a não explicar nada."

Migalhas – A questão é que a molecada de hoje não está lendo como antes. Há tantas coisas novas e interessantes a lhes tirar o gosto pela leitura.

M.A. – "É natural da criança preferir os brincos aos labores do estudo."

Migalhas – O resultado é que, de acordo com a indigitada mulher, para os jovens seus livros são de difícil leitura.

M.A. – "O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida."

Migalhas – Mas há adjetivos e substantivos vetustos (ops. "vetustos", pela lógica da mulher, seria proibido).

M.A. – "O adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário."

Migalhas – Então você é contra que outra pessoa explique seus textos ?

M.A. – "Quando a gente lê por olhos estranhos, entende mal as cousas."

Migalhas – Enfim, não devemos explicar nada em sua obra ?

M.A. – "Tudo neste mundo nasce com a sua explicação em si mesmo; a questão é catá-la."

Migalhas – A bem da verdade, essa não é uma iniciativa nova. Já se chegou a cogitar isso.

M.A. – "Há ideias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam."

Migalhas – Mas como agora houve dinheiro arrecadado, parece que o livro vai sair.

M.A. – "Meia dúzia de folhas de papel dobradas, encadernadas, e numeradas é um livro."

Migalhas – Pelo visto, Machado de Assis, você está cansado desta ladainha ?

M.A. – "Causa tédio ver como se caluniam os caracteres, como se deturpam as opiniões, como se invertem as ideias, a favor de interesses transitórios e materiais, e da exclusão de toda a opinião que não comunga com a dominante."

Migalhas – O que acha que devemos fazer com o livro desta senhora ?

M.A. – "Os homens, como os livros, têm os seus destinos."

Migalhas – Compreendemos. Finalizando, que resposta você daria para os que chamam sua obra de velha ?

M.A. – "Deus é velho, e é a melhor leitura que há."

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Nota da Redação – Todas as "respostas" foram catadas na obra "Migalhas de Machado de Assis", com suas respectivas fontes.

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