Segunda-feira, 21 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Escritório na cela

Advogado mantinha sala dentro de uma carceragem

segunda-feira, 23 de junho de 2003

 

Escritório na cela

Com 15 metros quadrados, o escritório de advocacia tinha ar-condicionado, computadores, telefone e registro de processos. Endereço: carceragem Ponto Zero da Polícia Interestadual (Polinter), em Benfica, zona norte do Rio de Janeiro. A irregularidade foi descoberta na manhã de ontem em uma vistoria feita pela Corregedoria da Polícia Civil. O escritório funcionava na cela do advogado Wadyson Camel, condenado a 18 anos de prisão.

Segundo denúncia anônima, que resultou na varredura, Camel pagaria R$ 15 mil por mês para manter o escritório. Em depoimento na Corregedoria, o advogado negou que tivesse montado um escritório dentro do presídio e disse que atuava apenas em causa própria. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não soube informar se o registro do advogado foi suspenso depois da condenação.

Além do escritório irregular, foram apreendidos 24 aparelhos celulares, carregadores de celular e uma serra. Três aparelhos e R$ 10 mil estavam com o bicheiro Fernando Miranda. O preso também vivia em uma cela privilegiada. Tinha acesso à internet, aparelho de fax e frigobar com cervejas.

O chefe da Polícia Civil do Rio, delegado Álvaro Lins, mandou instaurar inquérito para apurar o envolvimento de policiais no esquema de regalia de presos. Conforme a denúncia, feita por um detento de Ponto Zero, os presos pagavam propinas a policiais em troca de mordomias. Por R$ 500 semanais tinham a garantia de que, quando fossem condenados, não seriam transferidos.

Segundo o corregedor Jorge Abreu, mais de 10 policias podem estar envolvidos no esquema de corrupção.‘‘Havia uma prisão especial da prisão especial. Determinados presos recebem tratamento diferenciado porque pagam’’, disse ele que também pediu abertura de inquérito e sindicância sumária para apurar os responsáveis.

Em Ponto Zero, estão presos 35 policiais e 45 detentos com diploma universitário. Entre eles, estão os fiscais acusados de envolvimento no caso propinoduto, esquema de contas ilegais na Suíça que somam US$ 33,4 milhões. Segundo o diretor da Polinter, delegado Fernando Villapouca, o presídio funciona em situação precária. Não tem grades nas janelas e nem número suficiente de funcionários para fazer a revista dos visitantes.

O secretário da Segurança Pública, Anthony Garotinho, disse que vai aguardar a conclusão do inquérito, mas não descarta a possibilidade de exonerar o diretor da Polinter do cargo. ‘‘Fui informado por telefone e pedi um relatório preliminar. Se for verdade metade do que está dito, já é motivo para ele estar fora.’’ Villapouca acredita que as denúncias possam ser uma retaliação a sua administração e aponta como solução para o caso a transferência imediata dos presos para locais mais seguros.

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