Domingo, 26 de maio de 2019

ISSN 1983-392X

Circus- Adauto Suannes

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

 

Circus

Adauto Suannes

(0a0c0seoane@noruega.com)

 

Vingança nipônica

Há pessoas que você certamente incluiria naquela seção que a Seleções publicava, nem sei se ainda publica, como não sei se ainda existe a revista. Há tipos realmente inesquecíveis. E o Kazuo Watanabe é certamente um desses.

Primeiro nipônico a ser admitido na magistratura de São Paulo, talvez do Brasil, quebrando uma longa tradição de escrúpulos xenofóbicos, por força do qual os carcamanos e os turcos jamais seriam admitidos, aquele moço tímido de olhos sorridentes acabou abrindo o caminho para muita gente boa que veio depois. De certa forma, as Zélias e as Kenariks devem a ele essa possibilidade. Tanto quanto os Pelusos e os Lewandovskis.

O Kazuo é uma figura ímpar, de fino humor, grande jurista e grande amigo. Certa ocasião entrou no regime da melancia cozida (acredite que é verdade) e emagreceu tanto que, não fosse a falta de bigode, eu suporia ser ele o imortal Marcos Maciel, que, bem lembrando, também não tem bigode. Mas o Kazuo tem mais cabelo, acho que é essa a diferença, consolei-me na ocasião.

Pois o nosso querido personagem, com todo aquele aspecto de homem sério, já passou por várias, que sempre enfrentou com muito fair play, como quando um advogado pretendeu convencer uns militares, na época da salvadora, que nosso grande processualista era subversivo! Logo quem! Isso só podia ser coisa do compadre Cornélio, supôs ele, pois os dois viviam se aprontando as chamadas presepadas, como se dizia na época. E não era. Olha o tamanho do susto!

Quando juiz na capital, tinha como colega de corredor o Sydney Sanches. Certo dia, fim do expediente, o Kazuo entra na sala ao lado bufando e explica ao Sydney: o cliente havia perdido a causa e o advogado apelara em termos abusados. Diz a apelação: “o apelado é japonês, o advogado do apelado é japonês e o juiz que sentenciou a causa a favor do apelado...”. Aquilo não poderia ficar sem resposta.

“Mas você lá tem tempo de ler razões de apelação, com tanto serviço na Vara?”, diz o Sydney. “Deixa isso pra lá!”. O Kazuo não se dava por vencido. Alguma coisa ele deveria fazer para lavar sua honra ultrajada. No dia seguinte, início do expediente, a sala do Sydney recebe a mesma visita, agora com um sorriso no rosto.

“E aí? Encontrou o troco para dar no homem?” indaga ele. “Sim. Dei um despacho nos autos mandando o escrivão extrair, a minhas expensas, cópia das razões de apelação e me entregar mediante carga.” O Sydney é mordido pela curiosidade. “E que você vai fazer com essa cópia, homem?” E o Kazuo, mais zen do que nunca: “Não vou fazer nada. Mas durante seis meses ele pensará que eu vou”.

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