Terça-feira, 19 de março de 2019

ISSN 1983-392X

Consciência Genética

Leia a crônica de Paulo Bomfim.

terça-feira, 27 de janeiro de 2004

Consciência Genética

Paulo Bomfim*

Amo a Cidade de São Paulo com um  sentimento que poderia chamar de consciência genética. É um estar em casa, que sempre senti em certos locais e em certos países onde um dia um de meus genes existiu.

No passado, convivendo com Ibrahim Nobre, Guilherme de Almeida e Alfredo Ellis Junior, senti essa mesma percepção oriunda de um fio-terra que mergulhava no chão ancestral e trazia para a luz do dia, vivências e intuições de uma região que neles, se tornava consciência.

No Pátio do Colégio, todos nós fomos possuídos pela alma da metrópole.

Numa época em que cheguei a dizer a minha mulher que o último pedaço de terra da família estava no Cemitério da Consolação, deixei a consciência genética conduzir meus passos.

No Largo de São Bento, senti sobre a cabeça o cocar atávico de Tibiriçá; no Ipiranga caminhei sobre a gleba de Lourenço Castanho Taques, Governador das Minas de Cataguases; entrei no quartel de Santana para sentir sob os pés a vibração avoenga de Salvador Pires e de Ignês Monteiro de Alvarenga, a “Matrona”, que ali residiu muito antes do casarão ser ocupado pelos irmãos Andradas.

Foi lá que um dos Pires matou a mulher e o cunhado Antonio Pedroso de Barros, meu antepassado. O crime teria deflagrado a guerra dos Pires e Camargos que ensangüentou São Paulo e que resultou no duelo na Praça da Sé, entre Fernão de Camargo, o “Tigre” e Pedro Taques, que foi ferido mortalmente.

No Tatuapé, percebo que Brás Cubas fala em mim e brindamos juntos o primeiro vinho produzido no Brasil, por ele.

Fundador de Santos e proprietário das terras de Mogi das Cruzes, teve sesmaria com cinco léguas de frente para o mar e fundos que afundavam no sertão até esbarrar no meridiano de Tordesilhas.

O Brás pertenceu a ele que doou chãos para a construção do Convento do Carmo. Intuo que foi ele também que emprestou seu nome ao bairro onde no futuro a Marquesa de Santos teria a “Chácara do Ferrão”.

Em Santo Amaro, descubro-me com quatro séculos e passo a ser o espanhol Martim Rodrigues Tenório de Aguilar desaparecendo no sonho do Paraupava, ou outro avoengo, Baltasar de Borba Gato levando a D. João IV o cacho de bananas de ouro que os paulistas enviavam ao novo rei de Portugal, que indaga:

     - que desejam em troca?

     - Majestade – responde ele – eu vim para ofertar e não para pedir!

Na Freguesia do Ó, em terras que se estendem até o Pico do Jaraguá, sei-me Manuel Preto, o 18º avô, a encaminhar meus passos.

Na Penha pressinto a mágoa de João Ramalho se distanciando da vila que ajudara a fundar, para morrer próximo ao local da Ermida de São Miguel, na taba de seu adversário Piquerobi.

Prossegue a consciência genética dirigindo meus passos.

No Espigão da Paulista, no antigo Caaguaçu, respiro fundo procurando sob o asfalto vestígios dos antepassados Antonio Rodrigues de Almeida e Pedro Dias Paes Leme com suas landas que iam até o bairro de Pinheiros.

Ao passar pelo Parque da Avenida, ouço velhas árvores contar histórias do tempo em que outro avoengo, Antonio Correa Lemos, Governador da Capitania de São Vicente, ali morou.

Entro na Igreja de Santo Antonio e me revejo, vovô Guilherme rezando ao lado de vovó Sinharinha, a dez metros de sua residência na Rua Direita.

Em Higienópolis detenho-me no Colégio Sion e procuro, inutilmente, vestígios da casa de onde meus avós Sebastião e Zilota, trajados a rigor, saíam na carruagem que levava ao lado do cocheiro um homem armado de espingarda, e se dirigiam, depois de atravessar a chácara de Maria Antonia, em direção ao largo onde o Teatro São José, de luzes acesas, anunciava a estréia de uma ópera.

Ibrahim dizia sempre conhecer São Paulo de cor, isto é:

     - São Paulo de coração!

Essa é a mais bela definição para a memória genética, que faz de uma cidade minha paixão maior!

(Crônica retirada do livro O Caminheiro, dePaulo Bomfim, Ed. Green Forest do Brasil, pg.15).

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* Paulo Bomfim

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