Domingo, 24 de março de 2019

ISSN 1983-392X

Pagando a conta e o pato. Até quando?

Leia sobre as comunidades de Japorã e Iguatemi

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2004

Pagando a conta e o pato. Até quando?

 

Valfrido M. Chaves*

 

As comunidades de Japorã e Iguatemi, sem distinção de origens e atividades,  foram transformados em bucha de canhão pela eficiente indústria de conflito e invasões estabelecida em MS, sob o olhar  tolerante de muitos com holerite pago com o nosso suor.

Sob o pretexto de corrigir erros históricos e fazer justiça, está se promovendo invasões e desrespeito para desviar a atenção da escandalosa incompetência  da  política indigenista. Nesta, só há alguma eficiência no assistencialismo com sacolões pagos do nosso bolso e que fazem hoje o papel da famosa “botina do dia das eleições”, dos tempos dos coronéis.

Por isso, aqui e agora, quem trabalha, produz, constrói na cidade e no campo,  respeitando as Leis, não tem o prestígio dos que cruzam os braços, depredam, expulsam famílias de seus lares, destroem lavouras e casas, roubam gado e cruzam fronteiras por onde ainda será plantada uma febre aftosa que arruinará a todos. Não temos prestígio, porque temos dignidade e não usamos cabresto no dia de eleições!

Por nós e nossas famílias, por nossa dignidade, pelo  suor derramado em nossas propriedades, nunca vimos a cara daqueles que, com salário pago por nós,  afirmam que sua obrigação é defender a Constituição e o Estado Democrático! Enquanto vemos parte do aparelho estatal compactuar-se com a cultura da impunidade, atestamos que o Judiciário mantêm com dignidade seu papel constitucional.

Por nós não há ongs ou entidades religiosas que, reunidos em Campo Grande  para apoiamento de invasores,  nos chamam de “burguesia assassina”! Todos eles se tratam como “COMPANHEIROS”, em suas assembléias.

As invasões que hoje  atingem toda a comunidade dos que “comem o  pão com o suor de seu rosto”, só por acaso, começaram 11 dias depois que o Presidente da Funai afirmou em Campo Grande que invasão de propriedades por indígenas não é invasão, é “ENTRADA”. Isso, na frente de 200 pessoas, inclusive 20 índígenas Guarani, hoje invasores.

Não bastando isso, em Dourados, autoridade federal, dentro da Procuradoria, afirma frente a índios e “não índios,” que “índio tem que invadir mesmo, pra mostrar força”. Quanto ao fato de que brasileiros estejam sendo expulsos e roubados por indígenas paraguaios, isso é justificado por funcionário federal com uma simples frase: “não foram eles que inventaram as fronteiras, índio não tem fronteira” !  Essas são as pessoas que aqui vieram negociar, anunciar acordos e fazer demarcações sem olhar de frente para aqueles que os sustentam e põe o alimento em suas mesas!

Se aquelas palavras não são indução ao crime, então o que é? Induzir ao crime não é ato criminoso? E quando aquele induzido ao crime é um “tutelado” ou menor de idade,  não se trata então de  “corrupção de menor”?  E quando isso é praticado por funcionários federais, quem cuida disso?

Aqueles mesmos que, com palavras e omissões, promovem e apóiam as invasões e o desrespeito, anunciam também serem contra o pagamento pelas terras invadidas. Essa é a estratégia para impedir soluções, mantendo o conflito, semeando ódios e desconsolo entre índios e pioneiros. 

Sabem porque? Porque o interesse da indústria do conflito é continuar ensinando o desrespeito às leis e à propriedade, bem como impactar o Judiciário e o Estado Democrático, para o qual todos deveriam ser iguais perante a lei! Portanto, querem mais tempo e ocasiões para  semearem  discórdias, mentiras e promoverem o linchamento do Estado de Direito e Democrático!

Pelo andar da carruagem, em, se depender de seus cidadãos honrados, dignos e trabalhadores, em Japorã e Iguatemi não haverá de ser  pregada nenhuma tabuleta dizendo: “Proibido para cães e brasileiros cumpridores das Leis”!  Os produtores se cansaram, simplesmente, de serem agredidos e manipulados por  interesses escusos e resolveram endurecer o jogo...

E que nossas autoridades, pagas com nosso suor, saibam cumprir com suas obrigações, do mesmo modo como o povo brasileiro tem sabido  cumprir com as suas! Afinal, temos pago a conta, o pato, os sacolões e os holerites. 

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* Pantaneiro, Psicanalista

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Sob o céu que nos protege

Estamos em Iguatemi, a 600 metros da ponte que dá acesso a Japorã, justo na área invadida onze dias após o presidente da Funai afirmar, aos 11.12.93,  frente a indígenas Guarani, que invasão indígena não é invasão , “é entrada”.

Aos 8.02.04, do acampamento montado pela comunidade lesada pelas invasões, observa-se a área da Aldeia e das fazendas transformadas em figura jurídica “sui generis” : “terra de ninguém” onde “invasão” não é invasão, “depredação” não é  depredação, e “roubo” não é roubo.  No meio de uma pastagem limpa da fazenda Agrolak, passa uma caravana indígena carregando uma porta e um freezer, na direção da aldeia.  O acampamento observa, com auxílio de potentes binóculos.

Mais à esquerda, ao Sul, um gado é atropelado, numa aparente operação de caça. Três horas após, cruzam a invernada pessoas com sacos às costas, na direção da Aldeias. 

Neste momento, aos 09.12.04, o Freezer abandonado no meio da invernada, é a testemunha muda de uma situação absurda: dentro de Território Nacional, uma área está fora de todos os princípios constitucionais e leis que possam por ventura abrigar os cidadãos quanto a seus mais elementares direitos. Numa recíproca absurda, indígenas injustiçados, tutelados e manipulados, incorrem em praticas de crimes previstos em lei, com aparente anuência da Funai, Procuradoria Federal, e o que mais seja.

Proprietários que a tudo assistem, impotentes, não estão sob o guarda chuvas protetor do aparelho estatal que tem como escopo a defesa da democracia e o Estado de Direito: Procuradoria Federal não aparece, nem pra testemunhar os fatos.

Aproxima-se do local “ongs sociais” para apoiarem a situação estabelecida, após uma vibrante assembléia realizada em Campo Grande, em que foram denunciadas como submissos à “burguesia assassina”, o Secretário de Segurança e  a imprensa comprada, sendo ainda levantadas suspeitas sob a conduta do “fazendeiro” Zeca.

Parte dessa peça de teatro do absurdo, ocorre-me a fala de um Procurador da República, de sua cadeira, afirmando diante de índios e “não índios”, que “ índio tem que invadir mesmo, pra mostrar força”.

A tudo testemunha uma comunidade impotente excluída do abrigo da lei, um freezer branco abandonado em meio ao pasto, Tudo, às margens do Iguatemi, sob o “céu que nos protege”. Valfrido M. Chaves - Pantaneiro, Psicanalista

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