Segunda-feira, 22 de abril de 2019

ISSN 1983-392X

"O Dom Quixote da República": homenagem ao aniversário de Rui Barbosa

Nascido na Bahia. Na rua que anos depois levaria seu nome. A 5 de novembro de 1894. Esses são dados que certamente iniciam grande parte das biografias escritas sobre Ruy Barbosa.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008


Saudação a Rui Barbosa

"O Dom Quixote da República": homenagem ao aniversário de Rui Barbosa

Nascido na Bahia. Na rua que anos depois levaria seu nome. A 5 de novembro de 1849. Esses são dados que iniciam grande parte das biografias escritas sobre Rui Barbosa.

Jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador, certamente o filho do médico João José Barbosa de Oliveira e de d. Maria Adélia Barbosa de Almeida não imaginaria que a data de seu aniversário seria ainda comemorada 159 anos depois de seu nascimento. Mas aqueles que conheceram, conviveram ou apenas tomaram conhecimento de seus feitos, sim.

Ministro da Fazenda, que abrigou em sua casa a elaboração do projeto da Constituição, Rui Barbosa, entre outras importantes atuações, foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras e candidato à Presidência da República.

Se ainda hoje Rui Barbosa é digno de homenagem, e o será sempre, compreende-se a importância do texto publicado no suplemento Letras e Artes, do jornal A Manhã (Ano 3º - n º 144 – 13.11.1949), em 13 de novembro de 1949, no qual nosso querido Professor Goffredo Telles Junior homenageava o ilustre aniversariante no seu então centenário de nascimento (1949) com uma biografia quase cantada, que foge de qualquer lugar comum.

O suplemento, que faz parte do acervo de raridades do DDM (Departamento de Documentação Migalheira), é disponibilizado hoje aos leitores (v.abaixo), 5 de novembro de 2008, como dupla homenagem: a Rui Barbosa e ao querido mestre Goffredo.

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O Dom Quixote da República

Goffredo Telles Júnior

O TRAVO da amargura, a determinação dos obstinados, a centelha do talento – aí estão os traços principais que caracterizam a estranha personalidade de Ruy Barbosa.

Quem o visse cuidar de suas roseiras, no jardim à Praia do Flamengo e no parque da Rua São Clemente; quem o surpreendesse com os olhos rasos de lágrimas, ao saber do casamento de um amigo de infância, e o descobrisse chorando, ao acompanhar com a vista o navio "Alagoas", que, singrando as águas da Guanabara, levava lentamente o velho Imperador para o exílio; quem soubesse da timidez que o inibia em sociedade; quem lesse suas cartas de amor, tão cândidas e comovidas como as de um menino no primeiro romance; quem se detivesse em sua página sobre as andorinhas de Campinas; quem contemplasse seu diploma de bacharel, dedicado à sua mãe com as palavras "Subumbra alarum tuarum"; quem apreciasse o enternecimento e a admiração que o prendia a seu pai; quem o visse entreter-se, horas a fio, com livros de história infantis, para narrá-las, em seguida, a seus netos; quem só conhecesse Ruy assim – sentimental, romântico, apaixonado e simples – estaria muito longe de conhecê-lo como homem público.

O que desde logo impressiona em Ruy, como nota constante de seu gênio, é a angústia sem remédio, a dor que não tinha bálsamo, a amargura que não encontrava lenitivo, e que lhe atormentou a alma incessantemente. Ruy dava a impressão de estar sempre sedento por alguma coisa, como se uma aflição profunda o acompanhasse, desde a infância até a morte.

Ao ver suas cinzas serem transportadas agora, do Rio para Bahia, não pude evitar que me viessem à memória, aquelas palavras que ele mesmo deixou escritas: "Preciso de paz, paz e paz, como um morto precisa de seu túmulo".

Ele fora um menino muito pálido, esquivo, taciturno e melancólico. Ao ficar homem, sua tristeza se agravou. Ainda em plena mocidade, descreveu o ambiente em que vivia como sendo "um mundo ermo e funéreo onde só brota a flor do desengano". Espantoso, no batalhador constante, este traço de sua personalidade – traço, aliás, que se foi acentuando com o correr dos anos, principalmente depois da doença que o acometeu e nunca mais o largou, e após seus malogros políticos, que se sucederam impressionantemente. Tais malogros fizeram-no pronunciar palavras que bem demonstram seu estado de espírito, relativamente às atividades em que ele sempre andou envolvido. Ruy viveu mergulhado na política, mas, às vezes, transmite-nos a impressão de havê-la detestado. Realmente, ao saudar Anatole France, declara: "Da política, todo o mal que dela se disser, jamais dará a medida da realidade. Eu sou um dos seus convictos detratores". Em outras ocasiões, também, não poupou adjetivos para exprimir seu desgosto: "política miserável e odiosa de nossa terra", "infecto fervedoiro político". No fim da vida, confessava sem constrangimento: "Sou uma espécie de destroço de naufrágio flutuando numa desilusão infinita"; "Convenci-me da minha inutilidade à Pátria".

Poderia parecer que quem assim se manifestava tivesse uma alma desalentada de vencido; fosse uma dessas criaturas incapazes de ação, que vivem vergadas sob o peso da vida, como se esta nada mais representasse do que o próprio fardo da adversidade. Puro engano. Na personalidade paradoxal de Ruy Barbosa, ao lado de sua amargura, dominava a soberba determinação daquela espécie de homens que não conhecem obstáculos intransponíveis. E este é o segundo traço marcante de seu caráter.

A campanha contínua de sua existência foi a da cultura. Iniciou-a aos cinco anos de idade, quando, em quinze dias, aprendeu a ler, a escrever e a conjugar os verbos. Persistiu nela, sem descanso, pelos anos afora, sobrepondo sua férrea vontade tanto à enfermidade que o atormentava, quanto às tentações da vida boêmia à moda de Castro Alves. Interessou-se por todos os ramos da ciência, com a mais insaciável das curiosidades. Seus dias eram mais longos do que os da maioria dos homens, porque começavam às quatro horas da madrugada. Dirigindo-se aos moços da Faculdade de Direito de São Paulo, teve oportunidade de afirmar: "Ao que devo, sim, o melhor dos frutos do meu trabalho, a relativa exabundância da sua fertilidade, a parte mais produtiva e durável da sua safra, é às minhas madrugadas".

Ruy estudou tudo. Com mais exatidão, eu diria: estudou tudo, menos uma coisa, ou seja, menos a realidade brasileira. Incontestavelmente, seu espírito voraz não se deixou prender nem interessar pelo livro aberto da natureza nacional, o que talvez explique mais de um de seus fracassos políticos. Voltado sempre para os modelos estrangeiros, cheia sempre sua maravilhosa memória dos discursos e ensinamentos de Jefferson, Georges Fish, Browson, Bright, Cobden, O'Connel e tantos outros, Ruy sonhava para o Brasil formas ideais que ele não haurira nas fontes puras de sua terra.

Três foram suas tribunas principais: a da imprensa, a do parlamento e a do foro. Sou de parecer que esta última foi onde Ruy mais se alteou. Talvez não tenha havido, em nosso País, gênio mais característico de advogado, vocação mais marcada para as funções da defesa judiciária. A notícia de qualquer desrespeito à lei era, para ele, um suplício; o conhecimento de qualquer violência fazia-o vibrar. É ele mesmo quem o diz: "A injustiça, por ínfima que seja a criatura vitimada, revolta-me, transmuda-me, incendeia-me, roubando-me a tranqüilidade e a estima pela vida". Isto, porém, não impedia que Ruy, pessoalmente, fosse intransigente e rude com seus inimigos, absorvente e autoritário com todos – como sói acontecer com aqueles que se preocupam muito com a liberdade...

Sua política, muito alta, pairou sempre no terreno dos "princípios". Tal é, aliás, um dos motivos por que o povo às vezes não o compreendeu, e em virtude do qual levavam-lhe freqüentemente vantagem políticos menores que, com simplicidade, nas vésperas de eleição, limitavam-se a prometer empregos. Por ocasião de sua campanha em favor da implantação no Brasil do regime federativo nos moldes americanos, ao ser convidado pelo Visconde de Ouro Preto para ser ministro, respondeu textualmente: "Não posso ser membro de um ministério que não tome por primeira reforma a federação".

Ruy Barbosa era um oposicionista por natureza. Seus dissabores, suas desilusões, parece que se transformavam nele em combustível para sempre novas arremetidas. As decepções de sua vida, longe de o abaterem, se transmudavam em ímpetos de destruição. Quando foi ministro das Finanças, num só ano pediu sete vezes demissão do cargo. Às vezes cismo que Ruy, consciente ou inconsciente, descobria ou inventava seus "princípios" para ter um motivo de luta, transformando-os, pois, na matéria-prima necessária para suas campanhas e seus combates. Não era de seu feitio conformar-se com o fato consumado. "A mim me parece – escreve ele – que mais vale simpatizar com o futuro, sondá-lo e dirigi-lo, do que deixá-lo fazer-se à nossa revelia, para aceitá-lo imposto, capitulando".

Seus "princípios", seu "apostolado"... A vida de Ruy Barbosa constituiu, de fato, uma sucessão de batalhas em prol de seus ideais. O primeiro ideal foi a Reforma, isto é, a substituição do sistema eleitoral vigente pelo sistema da eleição direta; depois, foi a secularização dos cemitérios; depois, a reforma do ensino; depois, a abolição da escravatura; depois, a federação. Veio em seguida, após a implantação da República (que segundo ele, nasceu corrupta) a sua luta heróica pela legalidade e contra a violência. Depois, cuidou da redação do Código Civil. Mais tarde, em Haia, sob a orientação iluminada do Barão de Rio Branco, sustentou com brilho inexcedível a bandeira da igualdade dos Estados. E, finalmente, ergueu a opinião pública nacional contra a neutralidade do Brasil na primeira Grande Guerra.

Ao se comemorar, no dia de hoje, com homenagens póstumas extraordinárias, o centenário do nascimento do grande lidador, não é inoportuno lembrar, para nossa meditação, a paga que seus contemporâneos lhe fizeram em vida, por sua existência integralmente devotada ao interesse público. É o próprio Ruy quem nos informa sobre o assunto: "O nome que fiz, com sacrifício de parte considerável dos meus dias, serve hoje apenas de alvo indefeso à maestria envenenadora dos que se querem recomendar à gratidão dos patriotas". "Aos meus passos mais indiferentes às intimidades mais recônditas da minha vida particular, aos móveis de minha casa, ao serviço do meu refeitório, ao trajar de minha família, às alfaias de minha mulher, a tudo se estendeu a conta, o peso, a medida iníqua da crítica armada com os olhos da inveja, com as tacachices da malignidade, com as imprudências da mentira". "Estou cansado da injustiça e da calúnia, que não cessam de reproduzir-se sob formas cada vez mais desfaçatadas e ignóbeis contra mim".

Pelo crime de servir sua Pátria e seu povo, Ruy Barbosa foi caluniado a vida inteira, sofreu a pena do exílio, e, mais de uma vez, viu-se renegado por seu próprio partido. Aliás, a um inveterado costume dos homens, premiar com o castigo aqueles que são os sonhadores do bem.

No final desta ligeira palestra cumpre-me dizer que não são os "princípios" de Ruy Barbosa o que mais me impressiona nessa existência singular; é, isto sim, o próprio Ruy combatendo em nome de seus "princípios". Entusiasma-me o homem, com sua vontade inflexível, com sua bravura indomável. Emociona-me sua luta, sua tática de guerra, seu modo de enfrentar o adversário com as armas da inteligência, seu sistema de arrasar o inimigo com o florete fino da dialética. Arrebata-me seu jeito de caminhar para a frente, sempre para frente e sempre sozinho, abrindo passagem, com uma capacidade de trabalho e com uma fertilidade de produção, que ninguém conseguia igualar.

Em Ruy, empolga-me, sobretudo, o visionário, o idealista, o primeiro Dom Quixote da República, que se pôs em campo resolutamente, para combater a injustiça, para assegurar a liberdade, para consertar o mundo...

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Oração pronunciada ao microfone da Rádio Tupi e da Rádio Tamoio.

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