Sexta-feira, 23 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Notícias da Noruega

Dr. Adauto Suannes, nosso mais distante migalheiro

sexta-feira, 5 de novembro de 2004


Notícias da Noruega


Nosso mais distante migalheiro, Dr. Adauto Suannes, gentilmente nos manda notícias da Noruega. Confira abaixo o amável e-mail do Desembargador que também compartilha conosco um trecho do livro que está traduzindo.

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“Meus queridos migalheiros. Aqui na Noruega estamos nos preparando para o inverno. Leio diariamente o nosso Migalhas, muito embora não encontre ali motivos para voltar para o Brasil. Pareço aquele antigo personagem do Jô Soares: "vocês não querem que eu volte!" Com a vitória do W. Bush, acho que não piso nesse continente tão já. Estou traduzindo um livro muito interessante, do qual lhes apresento a capa e o capítulo inicial. Como eu disse numa poesia, "coisas jurídicas? never, never more!! Descobri que há vida inteligente fora do fôro! Um gelado abraço (zero graus à sombra!) do amigo de sempre.” Adauto Suannes




1. Hvordan har du det?

Quando fui convidado para participar de um congresso de escritores na Noruega, tive duas reações contraditórias. De um lado, sempre gostei de conhecer novas terras, novos costumes, novas pessoas, seus hábitos, seus anseios, sua experiência de vida, até mesmo como matéria para meus escritos. De outro lado, tinha algum conhecimento a respeito da situação geográfica da Noruega e sabia que ela tinha as quatro estações do ano: outono em alguma momento do segundo semestre, primavera em algum momento do primeiro, verão entre os dias 13 e 21 de julho, e inverno no restante do ano. Sua capital, Estocolmo, e seus morangos silvestres eu já havia visto em vários filmes do Ingmar Bergman, famoso por ter sido casado com a Anita Eckbergman. Como sabia também que no cais do porto havia uma famosa escultura de uma sereia olhando o mar. E sabia ser o inverno norueguês insuportável até mesmo para os noruegueses. Homem culto, já se vê.

Minha mulher, porém, convenceu-me a aceitar o convite, pois sempre desejara conhecer este lado norte da Europa. E uma viagem com as despesas pagas é tudo o que espera um escritor, sempre às voltas com os parcos honorários que seus livros lhe proporcionam. A não ser que seja alguém como meu amigo Saramago, que pode dar-se o luxo de viver numa ilha, com todo conforto.

Na realidade, meu conhecimento a respeito da Escandinávia não era tão pequeno como o exagero me fez escrever aí em cima. Dispus-me então a enfrentar o desconhecido, qual um viking contemporâneo, e para cá vir.

A primeira providência, claro, antes de mais nada, enquanto não chegava o dia da partida, foi ter alguma noção da língua falada, que eu sabia ser uma mistura de inglês e alemão. Mas, diga francamente, quem fala norueguês fora da Noruega? O jeito foi comprar, pela internet, o Practical Norwegian Grammar, do Rolf Strandskogen; o Enkel Norsk Grammatikk, da Liv Astrid Greftegreff, e um Norwegian Dictionary, e seja o que Deus qui-ser. Se as crianças norueguesas e aquelas que eles adotam acabam falando a língua deles, por que eu não conseguiria? Além do mais, meu amigo Francis Aubert nos deu-me alguma noção básica, para não passar tanta vergonha por aqui.

Usei do mesmo raciocínio que me utilizara quando chegara a terrível hora de habilitar-me como motorista de automóvel. Terrível porque jamais tive qualquer atração por automóvel e, além do mais, detesto dirigir esses veículos. Desajeitado como sou, eu jamais conseguiria coordenar as duas mãos e os dois pés para fazer o automóvel circular pelas ruas sem trazer maiores riscos para seus passageiros e para os desavisados que se aproximassem do veículo em movimento. Achava-me um polvo. Foi quando as parcas do destino me indicaram o caminho: em um circo mambembe (eu sempre gostei da simplicidade dos circos), lá estava um urso dirigindo uma motocicleta. E dirigindo com desembaraço, desviando-se dos obstáculos que os palhaços iam-lhe pondo no caminho. Saí do circo deprimido. Se um urso dirige com tanta habilidade um veículo motorizado, por que não eu?

Lembrei-me disso na hora de, já na flor da velhice, dispor-me a acionar os neurônios para um novo conhecimento lingüístico. E abram-se os livros.

Em primeiro lugar, aprendi que a pronúncia é sempre “mais ou menos” como a inglesa. O “o”, for example, resembles the “oo” in “fool”, but with for more rounded lips and further back in the mouth. Easy, isn't? The sound of “ø”, in “søt”, is similar to the “i” in “sir”, but more rounded. In “søtt”, it is like the long “ø”, but shorter and more open. The “å” in “båt” is similar to the “a” in “call”, but more rounded. By the way, in “fått” it is like the long “å”, but shorter and more relaxed. Nor the regular vocal “u” is out of a special rule: is similar to the “ue” in “true”, but has a closer and more frontal pronunciation. The “y”, in “syk”, is like the long “i”, pronounced with rounded lips. Have you learned? So know that: in “sykle”, it is more relaxed. How to know, reading, what is a relaxed pronounce?

Aquilo que em toda parte é escrito com “c”, aqui é escrito com “s”. E tome sentrum, sigar, sivilisasjon e que tais.

E os tais “falsos cognatos”, aquelas palavras cujo significado nós pensamos que sabemos? Por exemplo, você que entende inglês entra numa butikk, compra um suco de appel da jente que o atende. Entendeu? Acontece que butkk é loja, jente é moça e appel não é maçã, mas laranja!

E há muito mais: side é página, fire é quatro e tide é tempo. Saber inglês, portanto, ajuda pouco.

Curioso mesmo é o que acontece com certas palavras, que nos parecem complicadas quando tentamos ler, até o momento em que são pronunciadas. Por exemplo, para saber o que quer dizer miljø, sjåfør e adjø é só pronunciar como se fossem palavras francesas: milieu, chauffeur e adieu. Ou seja, meio-ambiente, motorista e adeus.

Isso para não falar nos três gêneros. In gene-ral, the form of the noun gives no clue as to its gender, neither are there logical rules. In most cases the gender must be learned for each sepa-rate noun. Algo como aprender cada ideograma de uma língua oriental.

Qualquer outro teria mudado de idéia e par-tido para a China, que, por sinal, os noruegueses escrevem Kina e a pronúncia resembles a strongly aspirated “h”, as in “huge”. Spelt “kj”, “ki”, “ky”, “kei” and “ks”. Qualquer outro, não alguém que tenha nas veias circulando la sangre gallega, que, não fosse a figura sinistra do generalíssimo (que Deus o tenha bem longe de mim!), nos honraria a todos os que o possuímos. E parti.

Minha primeira surpresa, diria, continuando na fantasia iniciada lá mais em cima, é que eu não desceria em Estocolmo, mas em Oslo. A segunda é que eles gostam tanto de ser confundidos com os suecos quanto um inglês ficaria feliz se o confundissem com um francês, ou um alemão fosse confundido com um norte-americano. Em terceiro lugar, parece que nem eles mesmos conseguem falar o norueguês, pois até os cachorros noruegueses latem em inglês. Você tenta falar algo na língua deles e eles, sempre tão pacientes, dizem, educadamente (até para mostrar uma certa cultura, é claro), “speak in inglish, cause I'll understand it”. E a oportunidade de se praticar o norueguês se perde.


O segundo impacto é a recepção que se tem no aeroporto local. Como se pode ver da ilustração abaixo, eles não primam pela delicadeza quando querem dizer que são pessoas de paz. Chamar essa escultura (cujo nome oficial e o do autor não consegui obter, por mais que tentasse junto ao excelente serviço turístico que eles mantêm em Oslo) de objeto fálico é negar toda teoria freudiana. Se o falo (e ninguém melhor do que um viking com sua espada sempre em riste para demonstrá-lo) se relaciona com a procriação, ou pelo menos, o prazer sexual, o descanso do guerreiro, como poderia chamar-se essa escultura, diz mais com uma deposição de armas do que com sua utilização.

“Sejam bem-vindos !” é o que ela quer dizer a todos aqueles que aqui chegam. Não sei o que as pessoas do sexo feminino acham disso. Quanto a mim me pareceu muito adequado a quem vem em missão de paz como eu.

Outro ponto de chamar a atenção do visitante é a falta de out-doors na cidade. No primeiro momento, parece que você chegou a um cenário cinematográfico, com aquelas fachadas muito limpas, quase todas da mesma altura, e que serão retiradas assim que acabarem de fazer o filme. E nada de propaganda nas ruas nem na frente das casas. Nada de grafites pelas paredes brancas, emporcalhando-as, como se vê em tantas capitais. Nada de papéis colados em postes, especialmente com a cara de algum candidato a cargo público, como vi certa vez no Panamá. Nada. Algo digno de um país civilizado.

O terceiro espanto resulta do fato de todos os veículos trafegarem com as lanternas acesas, o que fazem numa velocidade mais adequada a uma parada militar. E olhe que as avenidas são largas! Com o tempo se descobre que, como o dia pode mudar de aspecto a qualquer momento, é melhor, por segurança, deixar a lanterna acesa, mesmo ao meio-dia de um dos raros dias de verão, criando-se o hábito desde já. Prático, não?

A pessoa indicada para me receber no aeroporto me diz um “Hvordan har du det?”. Eu, previdentemente, havia trazido meu dicionário de bolso e vou traduzindo palavra por palavra: “como” “tem” “você” “isto” “?”. Digo-lhe que minha bagagem foi adquirida com meu dinheiro. E quase lhe pergunto se ele é funcionário da alfândega e coisa e tal. Ele ri muito e repete a pergunta. Eu volto a conferir no dicionário e continuo a dizer-lhe que tudo o que eu tenho é fruto do meu trabalho pessoal e que posso mostrar-lhe minha declaração de renda, se ele me demonstrar que está autorizado a examiná-la. E ele continua a rir desatadamente. Passo a provocá-lo: “¿Usted habla español?”. Ele balança a cabeça negativamente. E continua a rir. “Parla italiano?”. “Parlez vous français?”. Ele, rindo cada vez mais, balança a cabeça negativamente. “Do you speak en-glish?”. E ele: “Sure! I do!”. E por que não me disse isso desde logo?, indago furioso. “Simplesmente porque não me perguntaste, homem”. E riu sem parar o bom homem.

Agora que nos apresentamos, pergunto-lhe que curiosidade é aquela a respeito de minhas posses. Ele então me explica que, ao contrário do inglês, que pergunta como está você, o norueguês quer saber se está tudo bem com você. Como vão as coisas. “Hvordan går det?” Ou como está tudo o que você tem, num sentido mais amplo do que mera preocupação material. “Hvordan har du det?”. Em suma: “How are you?” “I'm fine, takk, bare bra”, digo-lhe para mostrar que nem tudo ali me surpreende. Ele mostra satisfação pelo meu interesse por sua língua. Que lhe asseguro ser veldig vanskelig. Very difficult, I agree, says he. As a rus-sisk I understand this.

Não preciso de dicionário para entender que o homem deve ter vindo a pé da Sibéria até aqui.

Aliás, a presença de estrangeiros em certos tipos de atividades faz lembrar o que ocorria nos anos 70 em relação a portugueses e espanhóis, que se banderam para além da fronteira. Certa ocasião, em um desses países de língua arrevesada, eu e minha mulher entramos numa loja em Praga, para comprarmos um par de botas. E como se diz bota em checo? Discutíamos para ver se descobríamos isso quando o senhor que instalava uma lâmpada no teto da loja diz alguma coisa à atendente que vai lá dentro e volta com dois pares de botas nas mãos. Mistério! Seria adivinhação? Coisa do além, de que tanto gosta minha mulher?

A explicação é muito mais prosaica: o homem no alto da escada era espanhol e acompanhou toda nossa discussão!

Identificou-se, falou de sua terra, de sua família e nós lhe agradecemos a gentileza da salvadora intervenção. Mas, que fazia um espanhol em terras tão distantes? “Mi padre tenia unas tan-tas ideas muy particulares sobre el generalísimo” foi sua compreensível e gentil explicação.


Voltando ao meu amigo russo, como estou com fome, ele me leva a um shopping da cidade, onde também a recepção não é das mais calorosas. Em um enorme pôster, um cidadão, com ar debochado de ébrio, me faz uma saudação estranha.

Não sou homem dos mais pudicos, muito ao contrário. Mas, convenhamos, saudarem-me assim, com tanta falta de finesse, não me parece algo muito aceitável.

Mostro a cena a ele, que volta a deliciar-se com minha reação, rindo a mais não poder. E me leva para ver outro local, conhecer “a esposa” do tal homem, segundo me diz.


Andamos uns tantos metros e lá está o novo retrato. É um outro pôster, dentro da mesma galeria, que positivamente, já caiu nas minhas graças, por sua irreverência, considerando-se a seriedade que parece ser a tônica de tudo por ali.

Realmente, andamos mais alguns poucos metros e lá está a veneranda senhora.

Roupa elegante, corpo em posição irreverente e um dos dedos levantado, em posição ainda mais irreverente.Ele ri muito com meu assombro, pois, se estivéssemos na Holanda eu não me espantaria nada com o que vejo. Mas estamos em Oslo!

Mas vejam só a pose da velha senhora. Ela, com aquele rosto de vovozinha, em lugar de estar tricotando em casa, sentada numa cadeira de balanço, está lá com um gesto muito parecido com o do seu presumido marido.

Positivamente, se isso é a decantada cordialidade norueguesa eu volto para o sul amanhã mesmo, digo-lhe em tom de blague. E ele mais não faz do que rir de minhas atrevidas observações.

“E há mais, há muito mais a ver por lá. A impressão que eu tenho é que viver na Noruega é dever estar sempre aberto a novas experiências. Minha mulher expressou isso numa frase muito adequada: “Meus Deus! Entramos numa folhinha!”

Eles são tão desenvolvidos, tão educados, mas, ao mesmo tempo, tão ingênuos que esse confronto produz coisas inimagináveis. “Tenha os olhos sempre bem abertos e a máquina fotográfica sempre pronta”, aconselha-me o russo. “Quero só ver o que você, como latino, dirá das esculturas do Gustav Vigeland”, provocou-me.

Claro que, dias depois, atendi à sugestão do russo e segui pela Bygdoi Allé, em direção ao bairro das embaixadas, que são vizinhas do local onde Gustav Vigeland viveu, por muitos anos, construindo seu mundo particular. Tudo ali é obra dele, especialmente as grades das entradas.


Dentro dele há o Museu Vigeland, onde se podem conhecer as maquetes e seus principais trabalhos. E há, no parque, o Monolito. Ele é um conjunto de centenas de esculturas, todas elas mostrando o ser humano, desde feto até a velhice, todos nus, como a natureza nos fez. E garanto que quem venha a conhecer tal obelisco, não pensará na Santíssima Trindade, tão cara a muita gente na Espanha.

É uma bela escultura, sem a menor dúvida, e rende homenagem ao ser humano de forma bastante original. Imagino apenas o que diriam disso marcianos que aqui descessem. Ou os futuros arqueólogos, quando desenterrarem esse curioso objeto, tal como fizemos nós com as relíquias de nossos antepassados.

Feito o parêntese, voltemos ao restaurante.

Enquanto almoçamos, meu anfitrião me informa a respeito dos hábitos alimentares dos seus compatriotas. O forte da refeição é o middag. “Mid é meio. Dag é dia. Logo, hora do almoço”, digo, mostrando que tenho alguma noção da língua norueguesa. “Errado”, sentencia ele. “Middag é o jantar, que, por sinal, não é às 20 horas, como vocês fazem no sul, mas por volta de 17 horas. Almoço como este que estamos saboreando é coisa rara. No lunsj nós costumamos comer nosso sacrossanto matpakke.”

O meu dicionário de bolso diz que tal palavra se refere a uma refeição que se carrega no bolso. Um pacote alimentar, se eu fosse traduzir livremente.


Como pude verificar mais tarde, o sanduíche é uma instituição nacional. No ônibus, no bonde, no metrô, no barco, na rua, na ante-sala dos cinemas, no páteo da universidade, nos jardins é comum eles abrirem sua skulder veske (umabolsa que carregam nas costas, outra instituição nacional, que os transforma numa espécie de marsupiais, e que, além do lado prático, talvez expliquem a inexistência de senhoras corcundas, já que a espinha, na infância e na juventude, vai-se cristalizando em linha reta)e dali retirarem as coisas mais inimagináveis, em especial o embrulho contendo o tal sanduíche. Que pode ter os mais variados recheios, em especial o delicioso camarão local. Os restaurantes, claro, fazem concessão ao turista e lhes exibem as refeições completas a qualquer hora do dia. Em especial as universais pizzas, que os jovens compram por fatia e saem comendo pela rua, sem a menor preocupação.

Nos restaurantes e nas casas quase não se come carne vermelha, cujos preços são proibitivos. Seria isso fruto de alguma política pública? Em compensação, há mil tipos de pão, nenhum deles o pão fresco, que tanto me empanturra o estômago e foi proibido por meu médico. Ponto para eles.

E há os doces. E os queijos, que, certamente, serão minha perdição. Adeus regime!

Finda a refeição, servem-me um café. Em lugar do corto, como se bebe na Itália, eles o tomam em uma caneca que mais seria apropriada a uma chocolatada quente. E a economia de pó é visível até na cor da bebida, cujo sabor lembra, remotamente, um chá de rubiácea.

Paga a conta, seguimos para o hotel, onde as pessoas me recebem com um sorriso que me faz sentir um marajá. Estão todos certos de minha generosidade na hora da gorjeta, por certo. Ele mais uma vez me corrige. Essa cordialidade você vai encontrar em todo lugar aqui, mesmo por parte de pessoas desconhecidas. Mais tarde conferi que, nos ônibus, o motorista não tem a menor dúvida em abrir um mapa para indicar a um passageiro onde fica o lugar procurado, por onde não passa aquele veículo.

A belíssima atendente me pergunta se quero aproveitar o sol da tarde para um banho na piscina. “Aquecida e coberta?”, indago ingenuamente. A moça positivamente jamais ouvira tal pergunta. E meu guia me informa que, com aquela temperatura (eu estava vestindo casaco) é comum os noruegueses nadarem no mar. Aquele sol de fim de verão é coisa rara por aqui e é preciso aproveitá-lo. Rejeito delicadamente o convite, despeço-me de meu guia e sigo para o quarto, para um merecido repouso, que os dias próximos serão de muito trabalho, pois tenho de estudar a programação do congresso.

Antes de fechar a porta, porém, acho adequado fazer-lhe uns esclarecimentos. Não pretendo ser um desses turistas deslumbrados, como há muitos. Os melhores restaurantes, os hotéis mais confortáveis, os recantos mais visitáveis. Tudo isso também me atrai, é claro. Gosto de conhecer locais bonitos, de comer calmamente e em boa companhia uma boa refeição, tomando uma boa bebida, e também prefiro hospedar-me num hotel de qualidade, em lugar de ficar numa espelunca. Ser turista não quer dizer ser perdulário, mas também não pode significar viver miseravelmente, assim penso eu. A sempre oportuna virtus in medio cai bem nesse momento.

Entretanto, minhas observações sobre a Noruega não serão, certamente, a de um simples turista. Espero que sejam mais amplas, com um toque pessoal que eu não poderei evitar.


À medida que for me aclimatando no país, começarei a fazer alguns amigos noruegueses, aos quais, certamente farei observações que lhes causarão espanto. Sobre o narizinho das moças, por exemplo. “Já viram nariz mais bonito do que o das norueguesas?” indagarei. Não, eles jamais repararam nisso.

Convivendo com elas no dia-a-dia, eles certamente não perceberam a graça daquele nariz arrebitado, porque, ilhados em seu país, não têm parâmetro para comparar. Sugerir-lhes ei, então, que visitem o museu Kon Tiki e comparem o nariz delas com aquele das estátuas de pedra que lá estão. E se darão conta da beleza das moças nativas.

E assim ficou a idéia de que um estrangeiro poderia registrar sua opinião sobre pessoas, coisas e costumes locais, enquanto aguarda o tal congresso.

Não me move o propósito de fazer um simples registro, digo-lhe desde já. Como dizia o escritor português Fernando Pessoa, por um de seus heterônomos, o poeta (e todo artista) é um fingidor, que finge tão completamente, que até finge que é amor o amor que deveras sente. Ou seja, o leitor, o apreciador de qualquer obra de arte, não saberá jamais onde está a reprodução da realidade e onde está a contribuição pessoal do artista.

Atrevo-me a dizer que todo artista é um inconformado com a obra do Criador. O que Deus fez foi muito pouco. É preciso acrescentar algo a ela. Pendurar um quadro numa parede de uma casa ou plantar uma escultura numa praça pública não é isso?

Com o escritor acontece o mesmo. Até onde o historiador é alguém neutro nas descrições que faz? Um ponto de vista é sempre uma visão a partir de um ponto.

E esse ponto é o olhar de quem vê.

Ao escrever, utilizo-me da realidade, acrescentando-lhe, porém, algo que me parece cabível. Ou crio eu mesmo essa realidade, que, pelo fato de existir apenas na imaginação do autor, não deixa de ser realidade.

Por exemplo, ver um senhor idoso, sozinho, num parque dando comida às aves, é um prato cheio para criar-se um personagem, que bem pode chamar-se Agenor e gostar de tomar um copo de vinho de vez em quando. Vejam se não é. Criado o personagem, cabe a ele contar sua história, que bem pode ser um romance absurdo, surreal, como tantas vezes ocorre em nossas vidas. Quem conta a história é o personagem; o escritor apenas reduz a história a escrito.

Que importa se foi Dante quem escreveu o D. Quijote, se foi Shakeaspere quem escreveu a Divina Comédia ou se foi Cervantes, o grande manco de Lepanto, quem tenha escrito a desdita de Romeu e Julieta, esse símbolo permanente do amor impossível? Os autores passam; seus personagens sempre serão eternos, libertando-se de quem os trouxe à luz.

Feitas essas explicações, agora, se me dá licença, eu vou dormir, que já é tarde.

Tenha uma boa noite.

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