Sábado, 19 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Cartas da Europa - Entrevista com ministro Tovar da Silva Nunes

A filial européia de Felsberg, Pedretti, Mannrich e Aidar - Advogados e Consultores Legais, Felsberg & Partners Europe LLP, situada na Alemanha, divulgou a primeira edição de "Cartas da Europa", newsletter com notícias econômicas e jurídicas. Hoje trazemos na íntegra para os migalheiros a entrevista com o ministro Tovar da Silva Nunes.

sexta-feira, 10 de abril de 2009


Cartas da Europa

Entrevista com ministro Tovar da Silva Nunes

A filial européia de Felsberg, Pedretti, Mannrich e Aidar - Advogados e Consultores Legais, Felsberg & Partners Europe LLP, situada na Alemanha, divulgou a primeira edição de "Cartas da Europa", newsletter com notícias econômicas e jurídicas. Hoje trazemos na íntegra para os migalheiros a entrevista com o ministro Tovar da Silva Nunes.

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  • Vozes da política e economia: entrevista com ministro Tovar da Silva Nunes

O desejo de seguir uma carreira pública e representar o Brasil motivou a escolha do ministro Tovar da Silva Nunes pela carreira diplomática. O atual Chefe de Chancelaria da Embaixada do Brasil na Alemanha já representou o país anteriormente na França, Suíça, Equador e Reino Unido. Há três anos vivendo em Berlim, o Ministro conta que de um modo geral as autoridades e a sociedade alemã recebem muito bem os brasileiros e que o nível de coordenação entre a Embaixada e as autoridades alemãs é excelente.

Nesta entrevista exclusiva a Felsberg & Partners Europe, o ministro Tovar da Silva Nunes revela importantes aspectos da relação econômica e diplomática entre Brasil e Alemanha.

Quais são as suas recomendações aos empresários brasileiros que queiram investir no mercado alemão?

A orientação básica seria muito profissionalismo e estudo do mercado alemão que tem particularidades próprias como, por exemplo, a predileção pelas cadeias de desconto, com escala ampla e giro rápido nos estoques. Isto se aplica a praticamente todas as áreas de negócios. Seria preciso também mudar o que se pode chamar de “mentalidade FOB” (Free on Board), conveniente ao mercado de commodities, mas inadequada a produtos de maior valor agregado. Para esse mercado é importante haver representação de empresas brasileiras na Alemanha, escritórios ou lojas a que os consumidores possam recorrer. Os chineses vêm atuando bem nesse sentido. Há hoje mais de quatrocentas empresas chinesas instaladas no Elba e outras cidades alemãs disputam com Hamburgo investimentos chineses. Isto refletiria uma mudança desejável no perfil do relacionamento econômico comercial entre o Brasil e a Alemanha, ainda centrado, de nossa parte, na exportação de produtos primários. A Embraer vendeu, em 2007, 30 jatos EMB190 à Lufthansa. Foi um negócio importante, mas insuficiente para alterar o delineamento das relações econômico-comerciais bilaterais.

Na sua opinião, que aspectos interculturais são relevantes para se obter sucesso no mercado alemão?

O Brasil e a Alemanha fazem parte do mesmo contexto cultural do mundo ocidental, democrático e de economia de mercado com preocupação social. As conexões se tornam, nesse sentido, mais fáceis. A prova é a forte presença da empresa alemã no Brasil, o excelente nível das relações políticas bilaterais e a simpatia mútua existente entre os dois países. Mas há diferenças na cultura corporativa, que exigem adaptação tanto dos alemães que investem no Brasil, quanto de possíveis brasileiros que optem por investir na Alemanha. Isso nem sempre é fácil. Exige esforço para mudar hábitos muitas vezes arraigados. Além do mais, não só na Alemanha como também em outros países do mundo desenvolvido, há estereótipos fixados no inconsciente coletivo, que dizem respeito a um Brasil do passado. Penso que deveríamos nos valer mais da nossa natural atratividade para, aos poucos, modificar essa visão. Também aqui é preciso empenho, pois é sempre mais fácil pensar e entender, por assim dizer, o mundo com recurso a imagens sedimentadas, nas quais o novo nem sempre se encaixa.

A Embaixada/Consulado possui uma estimativa do número de empresas brasileiras existentes na Alemanha?

Há registro das seguintes empresas brasileiras atuando na Alemanha: Banco do Brasil, Banco Itaú, TAM, Sofitex (um consórcio de produtores de software), Aliança Navegação e Logística Ltda (ligada à Hamburg Süd), WEG S.A. (WEG Germany GmbH), Sabo (autopeças), Bematech Europa GmbH (software) e DBA (software). Recorde-se também que, depois da fusão entre a Ambev e a Interbrew, a empresa de capital parcialmente brasileiro passou a ser um dos maiores produtores de cerveja na Alemanha, incluindo duas das principais marcas (Beck’s e Hasseröder).

O Programa de Aceleração do Crescimento lançado pelo governo brasileiro em 2007 prevê um investimento da ordem de 500 bilhões de reais em infra-estrutura logística, social/urbana e energética. Para promover o PAC foi realizado um Roadshow nos EUA e nas principais capitais/cidades européias entre elas, Frankfurt. Acredita que o Roadshow cumpriu seu objetivo na Alemanha, esclarecendo os detalhes do PAC e sobretudo incentivando os empresários alemães a investirem no Brasil?

Com relação aos que lá compareceram, diria que sim. Ações de divulgação, não só do PAC, na Alemanha requerem esforço diversificado e continuado, em compasso com a diversidade e a dimensão do empresariado alemão e em vista dos fins almejados. A Alemanha tem uma relação econômico-comercial madura com o Brasil, em que predo¬mina o investimento na manufatura. O PAC visa maiormente a investimentos na infraestrutura e essa é uma área em que os alemães, com poucas exceções, como a Siemens, têm pouca ou nenhuma experiência no Brasil. Os alemães não participaram, por exemplo, do processo de privatização dos anos 90 no País. A Embaixada tem trabalhado nos últimos anos com o objetivo de mudar essa orientação e envolver mais a Alemanha em projetos de infraestrutura estratégicos para o Brasil.

Quais são as consequências da crise financeira mundial para o Brasil? Acredita que a crise já afetou ou afetará substancialmente os investimentos planejados pelo PAC?

Estamos mais preparados para enfrentar a presente crise do que as anteriores. Nossos bancos têm nível baixo de endividamento graças às reformas empreendidas no sistema bancário nos anos 90, após o fim de anos de hiperinflação que alimentavam artificialmente os lucros do setor. Temos, adicionalmente, um nível alto de reservas, de cerca de 200 bilhões de dólares, que permanece praticamente inalterado desde o início da crise. Quanto ao crescimento econômico, deverá atingir 2% em 2009. Sem a crise, esperávamos crescer 4%. De qualquer modo, esse índice deverá ser alcançado já em 2010, mesmo com a crise. Para a boa reação da economia brasileira até o momento muito têm contribuído medidas como a redução em 100 bilhões de reais dos depósitos compulsórios nos bancos (cerca de um terço do montante total) e um pacote de créditos de 40 bilhões de reais para segmentos da economia como a construção civil, a indústria automobilística, a agricultura familiar, P&MEs com dificuldades de capital de giro e empresas com necessidade de capital para financiar exportações. Além disso, o Governo brasileiro prossegue com sua política de aumentos reais do salário mínimo, que acumularam 50% acima da inflação nos últimos sete anos, de modo a fomentar o consumo. A inflação permanece em níveis baixos e deverá ser de 4,5% neste ano.

Quanto ao PAC, o Governo brasileiro tem plena consciência de sua importância como medida anticíclica e está buscando incrementá-lo, em vez de reduzi-lo. Há poucos dias, foi anunciado que o montante de recursos destinado ao Plano no período 2007- 2010 aumentará de 500 para 650 bilhões de reais. Para o período pós-2010, os recursos direcionados ao Plano aumentarão de 190 para 500 bilhões de reais. Em 2009, o PAC deverá representar mais da metade do crescimento da economia. Quanto ao andamento das obras do Plano, o último monitoramento realizado pelo Governo Federal, em dezembro, revelou que 80% delas encontram-se em ritmo adequado e 11% já estão concluídas.

Há um entendimento de que sempre existiu um esforço do lado brasileiro em desenvolver um trabalho em conjunto com a Alemanha e, neste sentido, o acordo previdenciário que provavelmente será firmado em 2009 está sendo visto como uma vitória. Concorda com essa afirmação? Caso concorde, acredita que esta conquista pode ser o primeiro passo em direção à celebração de outros acordos como, por exemplo, um novo acordo de bitributação entre Brasil e Alemanha?

Concordo. O acordo previdenciário facilitará a vida de muitos brasileiros e alemães. Quanto a um novo acordo de bitributação, há interesse mútuo em avançar na questão. Os dois assuntos são independentes, não havendo uma relação direta entre eles. Respondem a necessidades distintas e com graus diferentes de complexidade.

Como qualifica a parceria estratégica firmada em julho de 2007 entre Brasil e União Européia seguida pelo plano de ação assinado em dezembro de 2008? Quais benefícios concretos essa parceria poderá trazer aos brasileiros ou aos empresários brasileiros?

A parceria estratégica e o plano de ação são indicações da direção que se quer dar à relação bilateral entre Brasil e Alemanha, ou seja, a elevação da sua qualidade e a agregação de valor. Têm, por isso, alcance e significado tanto político quanto econômico. Como o princípio de qualquer relação ou ação diplomática é em essência político, ambas as iniciativas são importantes, pois pavimentam o caminho e orientam os dois governos sobre o significado da relação bilateral.

Em qual setor (econômico, jurídico) é de fundamental importância o trabalho em conjunto, seja esse trabalho entre Brasil e União Européia ou Brasil e Alemanha?

Num mundo globalizado, em que as economias são interligadas e crescentemente interdependentes, eu diria que em todos os setores. Até porque um precisa do outro. Por exemplo: percebeu-se há alguns anos haver uma lacuna nas missões comerciais brasileiras ao exterior em relação à parte jurídica, sobretudo quando se tratava de investimentos, mas também de comércio. O Itamaraty teve então a iniciativa, em parceria com o CESA de integrar advogados a missões empresariais para prestar esclarecimentos, facilitar contatos e construir pontes entre a realidade jurídica externa e a interna. A iniciativa gerou muito bons resultados.

Qual será o próximo embaixador do Brasil na Alemanha? Quais desafios ele encontrará pela frente?

Nosso próximo Embaixador na Alemanha será Everton Vieira Vargas, diplomata altamente qualificado e profundo conhecedor da Alemanha, onde serviu no início de sua carreira. O principal desafio que enfrentará será agregar valor à já excelente relação bilateral e manter viva a parceria estratégica entre Brasil e Alemanha, sobretudo neste momento de dificuldade econômica internacional. Deverá estimular investimentos alemães no Brasil e a intensificação do comércio bilateral, buscando diversificar a pauta das exportações brasileiras. Nos últimos anos, a Alemanha se voltou para os países no leste europeu, entre eles a Rússia e também para China e Índia. Contudo o Brasil, por seu peso específico e pela relevância das relações bilaterais, continuou a ser parceiro relevante para a Alemanha. O Embaixador Vargas deverá, igualmente, dar seguimento à parceria na área de energia, com ênfase em energias renováveis, ao amparo do Acordo sobre Cooperação na Área de Energia assinado em maio de 2008, em Brasília, pelo Presidente Lula da Silva e a Chanceler Angela Merkel.

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